Política/Vida

Como me tornei uma anarquista

O primeiro sinal de que uma revolução estava prestes a me transformar veio quando escutei uma entrevista de Noam Chomsky e ouvi o entrevistador perguntar se ele era um anarquista. Até ali eu tinha contato apenas superficial com Chomsky e sua obra e, nadando em largas braçadas no oceano da minha ignorância, acreditava que anarquista era um mascarado delinquente e baderneiro. A única resposta possível para uma pergunta estúpida como aquela, pensei, era um rigoroso “não”. E ao escutar Chomsky dizer “sim” percebi que dentro de mim alguma coisa começava a acontecer.

Quando o maior intelectual vivo, um senhor de 86 anos de fala mansa, articulada e pausada diz ser um anarquista você para para escutar o que ele tem a dizer.

Alguns minutos depois eu estava dentro de uma livraria comprando livros de Chomsky, e, dias mais tarde, minha ignorância a respeito do anarquismo começava a ser demolida.

Uma das primeiras coisas que aprendi é que para o anarquista liberdade não é um conceito abstrato, mas o fundamento da vida humana. E que o anarquismo lida com formas de construir uma sociedade bem-organizada e livre a partir da base, detectando e destruindo estruturas de dominação que não sejam legítimas – como, entre tantas e tantas, o patriarcado.

E se liberdade é um conceito amplo devemos definir o que ela é para o anarquista.

Liberdade é o direito ao pleno e completo desenvolvimento do poder material, intelectual e moral de cada homem e mulher. Liberdade não é baderna, mas uma definição que implica responsabilidade porque, dadas as condições ideais, caberia ao ser humano atingir o maior nível de desenvolvimento possível.

Para o anarquista um ser humano é sempre usado como fim e não como meio – e um ser humano que vive de salário, e que aluga seu intelecto e seu físico para que alguém obtenha lucro, está sendo usado como meio e não como fim.

O anarquista é contra a exploração do homem pelo homem, do forte pelo fraco, do rico pelo pobre. Por isso o anarquismo, como me foi explicado, é um movimento que cabe àqueles que desejam mudar o mundo e não apenas entendê-lo.

“Se um homem age de forma puramente mecânica”, escreveu Chomsky, “reagindo a ordens externas e instruções em vez de atuar determinado por seus próprios interesses e energias e poderes, podemos até admirar o que ele faz mas desprezaremos o que ele é”.

Para o anarquista toda e qualquer forma de autoridade, dominação e hierarquia, toda estrutura autoritária, precisa se provar justificável e legítima. Não sendo – como quase nenhuma é – deve ser destruída.

Assim, o domínio exercido pela elite sobre o trabalhador tampouco é legítimo, mas é mantido através da propaganda (um conceito que é politico mas que também envolve a publicidade) e da força.

No universo anarquista o trabalhador se apropriaria dos meios de produção, e aqui vale uma pausa para que o preconceito que existe sobre o termo, que remete ao comunismo e ao marxismo, seja deixado de lado porque esse preconceito é apenas um dos efeitos colaterais da propaganda pós-guerra que nos jogou num mundo maniqueísta de comunismo x capitalismo, sendo o primeiro o bandido e o segundo o mocinho.

O anarquismo, portanto, se difere do capitalismo de estado – esse que existe em Cuba, que existiu na União Soviética e na China – porque não prega que o estado se aproprie dos meios de produção e continue exercendo sobre o trabalhador o domínio que antes era exercido pelo empresário, mas sim que o trabalhador “controle a fábrica”. Chomsky gosta, aliás, de ser chamado de anarco-sindicalista.

Estudando o anarquismo cheguei à “Homenagem à Catalunha”, de George Orwell, que conta a história de como Orwell se encantou com a revolução anarquista espanhola de 1936 e lutou — ao lado de anarquistas e pelo partido marxista anti-stalinista — entrincheirado nas montanhas da Catalunha. É um período histórico que tem poucos registros esse da revolução anarquista na Catalunha, mas o livro de Orwell é lindo e detalhado.

Aliás, Orwell, também autor de “A Revolução dos Bichos”, livro que foi tão usado como propaganda anti-comunista, tinha escrito uma introdução à “Revolução dos Bichos” que foi tirada da edição final porque nela ele dizia que embora o livro tratasse de estados totalitários era bastante possível encontrar na Inglaterra “livre” daquela época os mesmos traços opressão e doutrinação. O que ele explicava é que, no caso da Inglaterra, essa doutrinação não necessitava do uso da força e era feita pela propaganda (publicidade e noticiário).

Chomsky ajuda a entender Orwell quando diz que em sociedades chamadas de democráticas e dominadas pelo poder concentrado do capital privado o doutrinamento das massas não faz uso da força, mas ele está lá, atuante, e sendo exercido pela propaganda e pelo sistema educacional que, desde muito cedo, ensina o que podemos e não podemos pensar, dizer ou fazer.

Alguns anarquistas acreditam que o único caminho para se alcançar um lugar de igualdade e liberdade é a revolução; outros acham que a democracia pode nos levar até lá. Seja como for é preciso que nos transformemos antes de qualquer coisa.

A revolucionária Rosa Luxemburgo (1871-1919) escreveu que a verdadeira revolução social requer a transformação espiritual das massas sufocadas por séculos de regras de dominação burguesa. “Apenas eliminando os hábitos de obediência e servidão até a última raiz a classe trabalhadora poderá entender uma nova forma de disciplina que se destacará do livre consenso”, ela disse.

Críticos acusam o anarquismo de ser uma filosofia utópica, mas depois de ler e pesquisar bastante acho que, antes de mais nada, o anarquismo não tem a pretensão de ser um fim e que ele quer apenas apontar um caminho para a liberdade e para a igualdade.

Não temos como saber que tipo de sociedades funcionam ou não funcionam a não ser que as testemos. É a única forma. E, entre a utopia anarquista e a distopia capitalista eu fico com a primeira sem precisar pensar por um segundo sequer.

18 pensamentos sobre “Como me tornei uma anarquista

  1. Republicou isso em Dono da Bola 1903e comentado:

    Outro dia um companheiro nipônico me disse o seguinte ” Lisboa San depois que esquerdistas e anarquistas sumiram, o Japão ficou- omoshirokunai- perdeu a graça.
    E dando uma olhada no meu entorno, perçebo o quanto ele tem razão .
    Uma conversa puxa a outra, então meus é minhas, se deliciem no que escreve a Milly e pensem, pensem!

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    • Oi, Adriana. Talvez começar com Sistemas de Poder, que foi meu primeiro. Depois, Notas Sobre o Anarquismo. Mas, de verdade, compre qualquer um assinado por ele. Todos valem cada segundo 🙂

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      • Obrigada Milly! Excelente texto, como sempre! Vou começar a conhecer as obras dele. 🙂

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  2. Pingback: Como me tornei uma anarquista « Associação Rumos

  3. Ótimo texto, Milly!

    Aproveito para indicar o maior anarco sindicalista de todos, Mikhail Bakunin, se ainda não leu nada dele, indico “Deus e o estado”, é uma obra prima.

    Abrs,

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  4. ótimo texto, Milly. Que bom ler tudo isso de você. A indicação do Cauê é bem boa mesmo! Leia também Emma Goldman 😉 Abraço!

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  5. Pingback: Relato: anarquismo - Gustavo SerrateGustavo Serrate

  6. Que texto lúcido. Sempre simpatizei com o anarquismo, desde que comecei a andar com uns punks lá pelos anos 1990. Também achava que era apenas bobagens, mas no meio desses garotos eu encontrei cabeças extraordinárias, que apontavam para uma forma de se viver muito mais rica e interessante do que para as pessoas que estavam bem inseridas socialmente. Nunca fui punk e nunca me admiti anarquista, mas creio que lendo seu texto, tomo novo interesse por aprender mais sobre o assunto, hoje com outra cabeça.

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  7. Haahahaha Noam Chomsky, o maior intelectual vivo??? Ahahahha Meu Deus. Va ler um livro, pelamordedeus!!! Como fala merda. So se for o maior ignorante e maior desonesto intelectual vivo.

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    • Fui que que falei não, Fidelzão. Foi o New York Times. E se for entrar aqui para agredir pensa duas vezes porque a ideia é apenas debater e não usar o espaço para vomitar complexos e traumas.

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      • “Foi o New York Times”. E??? Qualquer intelectual de verdade repensaria a sua vida se fosse citado dessa forma pelo NYT.

        Complexos e traumas? Você deve estar doidaça pra dizer algo sem sentido assim.

        Capitalismo de estado de Cuba, Urss e China? Deixa pra lá. Você usa drogas pesadas demais pra mim. 🙂

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  8. Recomendo Ajuda Mútua: um fator de evolucao, do Kropotkin, contemporaneo de Darwin e que via o mutualismo (ajuda mutua), e nao a competicao, como fator determinante para a evolucao.

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  9. Boa noite Milly.

    As ideias e ideais sobre o tema é interessantíssimo. Hoje sou Químico e Mestre em Física Nuclear e fui punk na época de 1980. Fui PeTista roxo. Hoje sou uma Testemunha de Jeová. Estava buscando uma leitura que fosse equilibrada sobre a igualdade que se deseja para a humanidade e por incrível que pareça cheguei a você. A Bíblia hoje é meu manual, e te digo que tudo que você espera, se tiver fé, terá.
    Só um ensinamento Bíblico verdadeiro para você sentir o que sinto: “O homem tem governado o homem para seu próprio prejuízo.” É bíblico.
    Um mundo igualitário, com fé, só no futuro conforme descreve a Bíblia.
    Bob Marley já dizia em sua música WAR:

    Até que a filosofia que torna uma raça superior
    E outra inferior, seja finalmente, permanentemente
    Desacreditada e abandonada, haverá guerra
    Eu digo: guerra.

    Até que não existam mais cidadãos
    De 1º e 2º classe em qualquer nação,
    Até que a cor da pele de um homem
    Não tenha maior significado que a cor de seus olhos,
    eu digo: gerra

    Até que todos os direitos básicos
    Sejam igualmente garantido para todos
    Sem privilégios de raça, terá guerra

    Até esse dia o sonho da paz final
    Da almejada cidadania e o papel
    Da moralidade internacional
    Não sera mais que mera ilusão
    a ser percebida e nunca atingida.
    Por enquanto haverá guerra, guerra
    ….
    .
    Desculpe a sopa de letrinhas, mas sei que entenderá a essência.
    Parabéns pela sua busca, a qual chamo de atingir o “paraíso”.
    Visite nosso site: http://www.jw.org.
    Não votamos, não elegemos, não guerreamos, não pegamos em armas e buscamos igualdade total da raça humana, debaixo de um único líder e Criador que nos pede que justamente assim o façamos: a partir de nossa consciência plena e liberdade de escolha, sejamos todos iguais e de mesmos sensos morais e éticos e que nossas vidas sejam equitativas em todos os sentidos, regadas profundamente com amor genuíno.
    Forte abraço e felicidades !

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    • Oi, Nelson. Obrigada pelo comentário. A vida é engraçada, a gente se transforma demais durante a travessia. Estamos todos nessa busca maluca. Que bom que a gente se encontrou aqui. Beijo carinhoso ❤

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