Economia/Política/Vida

Acorde cedo, trabalhe duro e tudo ficará bem. Ou não

Enquanto a gente continua a debater as manifestações pelas ruas do Brasil, o destrambelhado governo Dilma, se Lula vai ser citado na lava-jato ou se o desmoralizado Cunha finalmente vaza dali o mundo vai pelejando para sobreviver aos efeitos da crise que se alastra e, entregues à discussão pequena, deixamos de falar sobre o que me parece mais grave.

Seria interessante se pudéssemos relacionar as crescentes crises humanitárias com o sistema econômico que nos embala, que é esse com o qual Dilma fez um pacto ainda mais profundo ao adotar medidas de austeridade, essas que cortam benefícios sociais e privilegiam o poder concentrado do capital privado.

Se pegarmos apenas um problema mundial, como o número de refugiados que vêm do centro e do norte da Africa e que morreram afogados tentando chegar a Europa, talvez já possamos enxergar o que o capitalismo tem a ver com a tragédia.

Segundo o New York Times, 1800 pessoas morreram afogadas entre janeiro e junho desse ano na desesperada tentativa de deixar a África e chegar à Europa, e de acordo com a ONU há 60 milhões de refugiados e deslocados no mundo.

Que tipo de desespero, de miséria, de fome e de violência leva uma pessoa a deixar tudo para trás, sair com a roupa do corpo, correr risco de vida muitas vezes com filhos pequenos no colo, para tentar começar a vida em outro lugar?

Talvez jamais consigamos entender porque por pior que sejam nossas vidas elas não nos causam ainda esse tipo de sensação. Mas ver dezenas e centenas de corpos boiando nas águas do Mediterrâneo pode nos dar uma ideia do tamanho da dor dessas pessoas e da crise no mundo.

Que o mediterrâneo, um dos lugares mais bonitos do planeta, seja o palco dessa tragédia de proporções gigantescas é apenas mais um dos contrastes estranhos que o capitalismo oferece.

Normalmente, o africano que tenta alcançar a Europa vai para os países cuja língua ele conhece, ou seja, vai para o país que colonizou o seu, e em busca de trabalho e acesso a saúde e uma vida minimamente decente.

Não é um esforço mental muito grande achar que décadas e séculos de colonização e exploração levaram esses países à miséria e às guerras internas que estamos vendo hoje. O capitalismo, que veio com a revolução industrial, fez com que a diferença entre ricos e pobres se acentuasse mais e mais e a Europa, vivendo atualmente sob regimes de austeridade absoluta que concentram a renda na mão de poucos e em detrimento de muitos, vai cortando benefícios sociais e vendo o número de desempregados crescer.

Isso agrava a crise porque, sem ter como receber os imigrantes, governos europeus começam a adotar discursos nacionalistas, e a gente sabe onde esse tipo de discurso pode nos levar.

Que a Alemanha de hoje esteja repetindo esse discurso racista é, provavelmente, o que mais me choca porque todos sabemos o que aconteceu da última vez que uma nuvem nacionalista se formou sobre o solo alemão.

Diante da crise humanitária, os principais países europeus se unem em busca de soluções e decidem investir mais em vigilância e policiamento para represar essas ondas humanas e proteger seus cidadãos dos miseráveis que tentam escapar de suas misérias sem refletir sobre o fato de que essas pessoas são vítimas do sistema econômico e que, se não alterarmos alguma coisa muito fundamental na forma como exploramos a terra e o ser humano, o problema apenas se agravará. Erguer muros e militarizar polícias não pode ser a solução porque é desumano.

Mas, ainda assim, a decisão da comunidade europeia diante da absurda crise foi a de construir muros, instalar cercas com arame farpado para que os refugiados, feito gado, desistam de entrar ao perceberem que vão se machucar, e derramar sobre o mediterrâneo ainda mais “vigias” para detectar barcos que carreguem imigrantes ilegais.

O recado que o capitalismo passa com perfeição é: quem trabalha duro tem vida decente, quem não trabalha é porque é vagabundo e não merece usufruir.

Escutamos esse discurso, em variadas formas, desde que nascemos, mas esquecemos de pensar que se o capitalismo fosse um sistema justo ele teria diminuído a desigualdade no mundo e não acentuado.

Tenho ido a alguns encontros de empresários jovens e bem intencionados que, vendo que o caldo está entornando, buscam uma saída na forma de fazer e gerar negócios. Usam termos como capitalismo-verde, ou capitalismo-consciente para entender esse novo lugar econômico, deixando claro terem percebido que o que temos hoje não funciona mais.

Se por um lado me alegra muito ver gente jovem, com grana nas mãos e cheia de boas intenções batalhando uma saída, por outro me entristece o fato de não conseguirem desapegar de termos como “livre-mercado”, “menos estado” e de citar Adam Smith para justificar coisas que Smith talvez nunca tenha tentado justificar.

Sempre que vou a um desses encontros me pego pensando que quando a escravidão começou a dar sinais de esgotamento – porque mais pessoas podiam finalmente enxergar a desumanidade do sistema  – dois grupos se formaram. O dos que diziam: “Gente, tá errado o sistema porque não podemos tratar outros seres humanos dessa forma. Precisamos dar roupas adequadas, e alimentos melhores e bom dia e boa noite”; e um outro grupo que ficava horrorizado com esse primeiro porque pensava: “Vocês não entenderam nada. O errado não é como os tratamos, o errado é que haja escravos!”.

É preciso aceitar o óbvio: o capitalismo não conseguirá distribuir a riqueza que é capaz de gerar e não perceberá que é impossível achar que continuaremos a explorar ilimitadamente um planeta de recursos finitos sem acabar com a vida na terra.

O sistema não pode ver coisas tão óbvias porque tem apenas um objetivo: o lucro. E o lucro rápido e cada vez mais largo, a despeito das vítimas que fiquem pelo caminho.

Muito se fala em democracia, mas quem manda no mundo hoje –  política e economicamente – são gigantescas corporações e a vida dentro de uma corporação é anti-democrática por princípio: 20 pessoas mandam em dezenas, centenas, às vezes milhares. Ninguém as elegeu para esses cargos tão poderosos, elas foram nomeadas por um grupo ainda menor de homens. Essas 20 pessoas poderosas dão as ordens, dizem como a coisa será feita e quem não estiver feliz pode se retirar.

Não há como existir democracia num mundo tirânico e ditatorial como esse. Capitalismo e democracia são opostos, e Noam Chomsky tem algumas palestras e livros sobre o tema que valem ser vistos e lidos.

Então, até podemos continuar a debater Dilma e Lula e Aécio e Cunha, mas estaremos debatendo uma das pequeninas consequências do problema e deixando passar a oportunidade de debater o problema em si.

Um mundo que não consegue gastar com ações humanitárias, ou investir conscientemente em países miseráveis para que suas populações não precisassem fugir da distopia em que vivem e que prefere torrar 1 trilhão de dólares por ano em publicidade, mais alguns trilhões para equipar suas policias a fim de proteger os “que trabalham duro” dos “vagabudos” e outros bilhões na construção de muros que separam pobres de ricos não deveria ser o mundo no qual gostaríamos de viver. A batalha tinha que ser contra tudo isso, e essa é uma batalha acabaria nos unindo e não nos separando.

Aqui uma curta palestra de Noam Chomsky que explica por que o capitalismo não comporta a democracia.

7 pensamentos sobre “Acorde cedo, trabalhe duro e tudo ficará bem. Ou não

  1. Faz uma semana que te “conheci” e estou vidrada nos teus textos – que leio sempre ao final do dia, pra dar leveza entre tantas outras coisas. Virei Fã!

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  2. Vc dispensa comentários e ainda assim não consigo deixar de dizer o quanto faz diferença em nossas vidas. Continue bússola pra que a gente não se perca nesse mundo tão confuso…

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