Comportamento/Economia/Política/Vida

Histeria e ignorância nos impedem de refletir sobre o futuro

Estamos entregues a uma novela política de altíssimo apelo. O único debate possível no Brasil hoje é o da corrupção. O teatro da delação nos fascina, e tudo o que fazemos é torcer para que mais bandidos sejam presos. Os do time de azul torcem para que nomes de bandidos vermelhos sejam jogados aos leões; os do time vermelho torcem para que os nomes dos bandidos de azul sejam a cada dia mais revelados.

O noticiário estimula nossa ira, nos inunda de informações e manchetes, e concentra-se em falar apenas disso.

“A maneira inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar ao máximo o campo da opinião aceitável, mas permitir um caloroso debate dentro desse campo”, disse Noam Chomsky.

E é exatamente o que estamos vendo. Conduzidos como gado para o pasto do debate aceitável – o da corrupção – deixamos de notar o real problema do mundo hoje, que é o poder nocivo e opressor das corporações sobre todos nós.

Os partidos que se revezam no poder são partidos que defendem a classe empresarial e a concentração de renda. Somos levados a acreditar que eles são muito diferentes entre si, mas eles não são. Eles trabalham para manter o poder e o capital concentrado nas mãos de poucos e em detrimento de muitos.

Dilma conduz o Brasil para anos de austeridade, mesmo sabendo que no mundo inteiro a austeridade não foi capaz de beneficiar a população.

Nos Estados Unidos a pobreza se alastra e a chamada recuperação econômica deixa claro que os únicos que de fato se recuperaram da quebradeira de 2008 foram CEOs e acionistas. Noventa e cinco porcento dos ganhos econômicos nos três primeiros anos pós-2008 foram para as mãos do 1% mais rico da população.

A Grécia é obrigada a cometer suicídio para salvar os bancos privados europeus que, querem nos convencer, foram os que salvaram a Grécia, embora todos saibamos que a Grécia não foi salva.

O norte da África se afunda em guerras e miséria e a população tenta escapar mesmo sabendo que a chance de morrer tentando é grande. O Mediterrâneo hoje é decorado por corpos, o retrato do fracasso de um sistema econômico que explora infinitamente um planeta de recursos finitos.

A Europa, assolada pelo desemprego criado pela austeridade, fecha suas portas e começa a fazer uso de discursos temerosos que explicam que os miseráveis estão vindo para tirar os poucos empregos de quem tem direito a eles, que são os “verdadeiros” europeus.

O nacionalismo se agiganta, governos convencem suas populações de que elas precisam ser protegidas e, para isso, devem se render à vigilância. O extremo desse filme a gente já viu antes, mas parece não ter aprendido nada. “O medo, o racismo e o fundamentalismo são as formas de conquistar o apoio das massas para políticas concebidas para oprimi-las”, escreveu Chomsky.

Enquanto a gente vai se matando uns aos outros e aceitando ser confinados ao campo do debate da corrupção, as corporações ganham status de cidadãos: têm todos os direitos que temos e quase nenhum dever.

Um acordo que aglomeraria em poucas mãos quase metade da economia mundial está sendo conduzido secretamente por uma dúzia de nações poderosas. O TPP, o tratado entre governos e corporações sobre o qual quase nada sabemos porque eles nos é escondido, daria às grandes corporações do mundo amplos poderes sobre nações (ou sobre todos nós). O WikiLeaks revela trechos do tratado, mas a imprensa ignora porque a imprensa é, também, uma corporação.

O universo corporativo é justamente o oposto da democracia. O universo corporativo é tirânico e ditatorial por princípio. Poucos mandam em muitos, e esses poucos não são eleitos pelos muitos, são nomeados por outros poucos. Nele não há espaço para pensadores, inovadores, criadores, motivadores.

Ainda assim preferimos tudo a debater a falência do sistema. Histeria e ignorância nos impedem de tentar entender o que poderia substituir o capitalismo, que tipo de acordo sócio-econômico seria capaz nos devolver a dignidade e o espírito de comunidade.

No pasto do debate aceitável, o da corrupção, nos pegamos cuspindo uns nos outros.

A beleza do sistema é ele nos fazer acreditar que esse é um debate fundamental porque governos a gente pode mudar, mas a verdade é que o que a gente pode mudar é o nome do governante porque hoje todos eles representam apenas um grupo: o do poder concentrado do capital privado. Ocupados em nos ofender e agredir, deixamos de olhar para os lados e as corporações, sobre as quais não temos poder de voto, seguem reinando.

“O ser humano experimenta a si mesmo, seus pensamentos, como algo separado do resto do universo – numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior” (Einstein)

10 pensamentos sobre “Histeria e ignorância nos impedem de refletir sobre o futuro

  1. Ha paises q ja vivem o futuro com a social democracia….mas sao paises q plantaram isso no passado. Pq nao podem servir de exemplo?

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  2. Ei Milly!

    São tantos posts que elucidam a realidade que deixamos passar todos os dias em nossa frente. Tanta transparência, uma forma simples e forte que nos envolve a cada leitura, como se ficássemos insaciáveis em busca da verdade que nos é omitida a cada dia.

    Não caberia um livro sobre o assunto? Algo da mesma forma arrebatadora que os posts que vemos aqui no blog.

    Pense com carinho, rs. Existe um punhado de gente que acorda cedo e vive a vida no automático, sem se dar conta do contexto onde foram inseridas, e que ficariam de queixo caído quando entendessem o papel que elas estão cumprindo inconscientemente.

    Seria um excelente combustível para iniciar o necessário debate sobre o assunto, já que aqui no Brasil esse assunto ainda é tão desconhecido.

    🙂

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  3. Arthur tem razão. Todos esses textos dariam um excelente livro. Um livro daqueles obrigatórios. Que podem mudar a forma de pensar e ver o mundo. Estaremos esperando, Milly.

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  4. Aleluia !!!! Faz muito tempo que me sinto asssim, como um peixe fora dágua, quase um extraterrestre, sabia que tinha muita coisa estranha no ar, até sabia mais ou menos oque, mas me faltava ouvir ou ver alguém com um comentário como este do teu texto para acordar de um pesadelo, tinha até perdido a vontade de viver, mas estava nesse caminho de amar a natureza, oque nos resta, o sol, a noite das estrelas, a lua que ainda não nos roubaram, o mar, as montanhas, as florestas, os rios… e principalmente as pessoas, que na sua inconsciência são lindas por dentro, mas não podem viver sem a natureza apesar de nem desconfiarem disso bah, acho que estou espichando demais a conversa. Obrigado Milly, você salvou meu dia e quem sabe de quanta gente mais. Um abraço bem grande !

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