Comportamento/Política/Vida

Um continente com 11 milhões de casas vazias que segue chutando imigrantes

O desabamento do prédio ocupado por sem-tetos em São Paulo pode sugerir que se trata de um problema localizado ou até nacional. Não é verdade. No mundo inteiro a questão é crítica e isso apenas evidencia a falência do sistema capitalista, que já não é capaz de resolver suas questões mais básicas e estruturais e segue acumulando riquezas extremas nas mãos de uma dúzia de famílias, que a cada dia passam a ter, claro, mais poder político.

Há alguns anos acompanhamos horrorizados o drama das famílias que tentam sair da miséria da Guerra, ou da fome, ou da opressão e buscam chegar à Europa para começar uma vida nova. Estamos vendo, ao vivo e em cores, pessoas morrendo, crianças entre elas, enquanto tentam cruzar fronteiras que têm sido fechadas por países Europeus. Estamos vendo repórteres chutarem pais com crianças no colo numa tentativa cruel, ridícula e fascista de tentar evitar a migração.

Por outro lado estamos também vendo manifestações de afeto e amor de cidadãos Europeus que querem ajudar, querem receber essas famílias, querem que seus governos abram as fronteiras.

Mas as lideranças políticas europeias não parecem muito dispostas a atender o desejo da população. Revelam, aqui e ali, a disponibilidade de acomodar alguns, num gesto simbólico que soa como um “aquietem-se porque quem sabe das coisas somos nós, os intelectuais poderosos, e não vocês, o povo”.

O Papa abriu as portas de sua luxuosa mansão para duas famílias. Duas. E pediu que suas paróquias fizessem o mesmo. Já é alguma coisa, mas soa hipócrita diante do cenário real.

Vamos entender qual é esse cenário.

Existem na Europa mais de 11 milhões de lares vazios. Vou repetir esse número: existem na Europa hoje 11 milhões de casas abandonadas. O dado é do Guardian, que diz que essa quantidade daria para abrigar toda a população de sem-teto do continente duas vezes.

Apenas na Espanha existem 3 milhões de casas vazias. Dois milhões de lares na França e na Itália, 1,8 milhão na Alemanha e quase um milhão no Reino Unido.

Muitas dessas casas estão vazias porque com a crise de 2008 as famílias foram obrigadas a devolvê-las aos bancos. Essas casas foram então compradas pelos muito-muito ricos, que não pretendem ocupá-las.

Pois vejamos: trata-se de um sistema econômico que ergue muros, constrói cercas elétricas, militariza a vigilância nas fronteiras, chuta e até mata pessoas que tentam imigrar, mas que ao mesmo tempo tem lares vazios em números capazes de abrigar mil vezes a quantidade de pessoas que busca uma coisa apenas: abrigo e trabalho.

É preciso um sistema perverso para, além de não oferecer soluções, tentar convencer o cidadão de que o crime está em lutar por moradia, invadindo e ocupando, e não em deixar de oferecer soluções porque, afinal, não há como lucrar com a situação. O capitalismo é, hoje, um sistema desumano e cruel e só encontraremos um arranjo melhor e mais justo quando tivermos coragem para reconhecer isso.

Texto atualizado em 2 de maio de 2018

6 pensamentos sobre “Um continente com 11 milhões de casas vazias que segue chutando imigrantes

  1. Coloca essa informação junto de outra que diz em algo como 30 a 40% de desperdício de comida nos países ricos e 2 dos 3 principais elementos essenciais à vida poderiam estar disponíveis mas estão, na verdade, desperdiçados de propósito em nome do lucro e segurança da propriedade. Adicione as informações sobre lavagem de dinheiro e sonegação de impostos e fica claro que dinheiro para pagar salário das pessoas também haveria. Coloque isso tudo junto e a única conclusão que sobra é que pobreza e, sobretudo, miséria, são apenas parte de um grandíssimo negócio. E eu não sou comunista, só para constar. Sou bastante liberal. Só não sou cego.

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  2. Morei um tempo em Portugal e vi o mesmo em várias cidades: muitas casas vazias, muitas inclusive sob usufruto governamental. E muitos portugueses e imigrantes sem lugar, outros resistindo em ocupas como os que visitem no Porto. Tanto teto pra pouco afeto.

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  3. Estive pensando um pouco mais a respeito dessa situação e uma coisa me intriga e me faz repensar isso tudo. Que existe uma xenofobia crescente na Europa não há dúvidas. Mas por que essa corrida desenfreada dos refugiados sírios para a Europa, onde não são bem quistos? Por que eles não se dirigem aos outros países árabes que desfrutam de uma boa condição financeira como o Catar, a Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes etc.? Todos esses países são ricos e poderiam perfeitamente abrigar os refugiados que, no mínimo, teriam uma identidade cultural, idioma e religião comuns. Esses países árabes ricos citados, todos eles, sem exceção, impõem uma série de restrições e exigências de vistos para seus irmãos sírios. Tudo isso me parece incompreensível neste momento.

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