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Nós, os que nunca erramos

Recentemente duas arrobas das quais eu gosto e que respeito entraram numa treta feia no Twitter. Já tive minha cota de tretas tuíticas e sei o que vem com elas: uma chuva de agressões por parte de defensores da arroba A ou da arroba B. Chegamos a um ponto no qual as pessoas sequer tentam entender a treta porque todos já têm um time e, portanto, a única opção possível é xingar a arroba do outro time, a despeito de ela ter ou não razão.

E aí, quando o comportamento de bando ganha solidez, e os times estão fortemente definidos cada um em seu campo, fica mesmo bastante difícil recuar ou pedir desculpas porque isso significaria decepcionar muita gente que já comprou a briga. Também não vale ser do time A e sair em defesa de uma arroba do time B. Se não é para jogar mais pedra, cale-se. Nem pense em apaziguar, não seja pequeno, deixa a treta rolar.

Estamos entrincheirados em nossas certezas, prisioneiros de convicções sobre as quais não refletimos mais porque tudo o que importa é seguir vomitando verdades, as nossas verdades, com as quais fizemos um pacto de vida.

Não há mais espaço para parar e pensar sobre todas as vezes que erramos, não há ocasião para que peçamos desculpas, só temos tempo de — e interesse para — revelar o erro do outro. Se julgássemos os nossos erros com a mesma moralidade com a qual julgamos o erro do outro seríamos capazes de conviver e entender que talvez haja mais de uma verdade, mais de uma certeza, mais de dois times.

Então ficamos dançando uma dança esquizofrênica que nos faz uivar em defesa da liberdade de expressão e da democracia, mas jamais levar em conta a opinião do outro porque a única opinião que vale é a minha, que obviamente é a correta. A opinião do outro eu vou detonar, e vou fazer isso ridicularizando o autor em vez de debater o tema de forma madura porque a real é que não tenho nem tempo, nem interesse, muito menos conhecimento para entrar nessa.

Eu sou a soma de meus erros e tenho por cada um deles um carinho enorme porque eles serviram para que eu melhorasse. Errei dezenas, centenas de vezes na vida. Algumas delas, publicamente. Não sei como outros reagem aos próprios erros, mas eu me acabo. Choro, me tranco no quarto, me envergonho, penso, choro um pouco mais.

Ultimamente dei para escrever sobre economia e, como sou iniciante, tropeço aos montes. Não há clemência. Basta uma pisadinha na bola para que o bullying comece. O mais recente deles foi grandão: estupidamente conferi a Adam Smith uma citação que era na verdade a interpretação que fiz de alguma coisa que ele escreveu. O mundo tuítico caiu na minha cabeça.

Pensando sobre o tropeço entendi uma coisa importante: o problema nem foi o erro, mas a forma babaca como reagi a ele. Confinada em meu castelo de certezas, descartei a possibilidade de estar errada e parti para a reação mais covarde possível: a defesa sarcástica. Que grande besteira, como fui babaca.

Obviamente centenas de arrobas fizeram questão de me dizer exatamente isso, como se meu julgamento sobre mim mesma já não estivesse suficientemente duro. Mas não basta debochar coletivamente, é preciso marcar a pessoa, convidá-la para o baile no qual ela está sendo ridicularizada.

Claro que quando vejo o erro do outro minha tentação também é sair rindo e debochando, especialmente se for alguém “do time de lá”. Quero me juntar aos “do meu time” e apontar o dedo público para a pessoa. Quero humilhá-la, vê-la sangrar. Vale tudo para mostrar que o time A é melhor do que o time B.

O cara escreveu alguma coisa com a qual não concordo? Escreveu merda? Vou acabar com ele em 140 caracteres enquanto reúno os amigos para fazer a mesma coisa. As regras da agressão definem as do revide, e a coisa se escalona.

Já fiz isso mais vezes do que gostaria de admitir e me policio para não fazer mais, mas é de fato um controle fino porque por impulso quero rir, debochar, ofender. David Foster Wallace escreveu que a verdadeira liberdade está em educar o pensamento, e ele tem razão. É o que nos separa de uma maçã que, madura, não tem alternativa e despenca ao chão: ao contrário da maçã podemos controlar impulsos e necessidades mesquinhas. Temos a obrigação de fazer isso.

E de entender que somos todos parte de uma mesma coisa, feitos de uma mesma substância, capazes de erros medonhos, mas também de enormes gestos de amor e compaixão. Capazes de pensar de maneira diferente sobre um assunto, mas de concordar em outros. Capazes de mudar de opinião. Capazes de ficar amigo de alguém de quem a princípio parecíamos não gostar. Capazes de admitir um erro, de pedir desculpas e de perdoar.

Enquanto ficamos aqui regredidos e nos espetando por tolices a turma que detém o poder – e não falo do poder político, naturalmente – se diverte porque tudo o que é preciso para que as coisas sigam como estão é que continuemos ocupados com bobagens. Assim não paramos para refletir sobre o mundo, sobre o sistema, sobre como melhorá-lo. O único debate aceitável é o menor deles: em quem vamos votar nas próximas eleições, se no candidato A ou B, e nenhuma outra além dessa é aceitável.

Ocupadíssimos em nos xingar e ridicularizar deixamos de perceber que esse é o menor problema em um mundo que beira a catástrofe climática e no qual 70 homens têm a mesma riqueza da metade da população do planeta. Que pena. Que desperdício.

13 pensamentos sobre “Nós, os que nunca erramos

  1. Ao q podemos responsabilizar esse tipo de comportamento? Falta de escola? Falta de cultura? Falta de educação familiar? Egocentrismo? Imediatismo?……

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    • Não sei, Paulo. Mas acho que somos em certa escala encorajados a agir assim. Nossa distração é essencial para que as coisas continuem como estão, e isso só interessa ao poder concentrado do capital privado e a mais ninguém. Políticos continuarão se alternando no poder, é um jogo que eles sabem jogar. E a gente continuará pagando essa conta.

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  2. Se 10% das pessoas que discutem no Twitter, Facebook e afins seguissem o que vc escreveu aqui, Milly, o efeito já seria extraordinário, gigante. Vivemos ainda na pré-história da comunicação virtual, mas textos como este indicam um bom caminho para evolução. Abraço!

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  3. Grande Milly, a humildade é a estratégia dos seres inteligentes, pois esta atitude permite o real aprendizado em tempo real. Como dizia o nosso querido e educador Paulo Freire, que “viver é um ato pedagógico”, e todo o teu texto acima fala sobre isso, assim estamos “errando” (se quizermos assim classificar …) o tempo todo e como resutado estamos acertando o tempo todo, também … A vida é maravilhosa e todos os dias nos oportuniza só temos que ser humildes na prática …

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    • Que mensagem mais linda, Vilson. Muito obrigada. O jornalista se educa em público, talvez mais do que outros. Mas é isso: viver é um ato pedagógico.
      Obrigada por ler e comentar ❤

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  4. Eu tenho os jornalistas que acompanho todos os dias, você está super incluída e das minhas leituras sobre cada artigo faço minhas reflexões. Seus textos são reflexivos, coerentes e embasados. Escrever, compartilhar, aprender, um exercício diário de um jornalista. Assim quero trilhar minha carreira. Bjs

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  5. Não obstante, você continua reagindo da mesma forma. Bateu o pézinho com o Leo Monasterio dizendo que Los Angeles teve um acréscimo de 942000 moradores de rua, não corrigiu a postagem e também que Roosevelt não pediu dinheiro para os bancos. QUEM LER OS COMENTÁRIOS VERÁ QUE VOCÊ NÃO MUDOU NADA.

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  6. Não concordo com tudo o que você diz, mas gosto do seu jeito de escrever e sinto falta de seus artigos.
    Por favor, cuide-se: autocrítica exacerbada pode levar a depressão, não faça isso a si mesma.
    Um grande abraço!

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