Comportamento/Política/Vida

Todos nós sabemos o que é uma família

A desesperada tentativa de definir legal e semanticamente o que é família escancara uma verdade curiosa: pessoas de baixa vibração e interesses estranhos, incapazes de se conectar com outros seres humanos de forma profunda, já perceberam que a batalha está perdida.

Diante do inevitável, a turma da Bíblia, que nas horas vagas exerce mandato na Câmara dos Deputados, decidiu trabalhar freneticamente em um projeto de lei chamado “Estatuto da Família” que define família como a união entre um homem e uma mulher. Uma comissão de deputados muito cristãos aprovou recentemente o texto, para delírio de Eduardo Cunha, o super-cristão que preside a Casa.

Todos nós sabemos o que é uma família, e o que nos liga a pessoas que amamos. Todos nós sabemos que não é necessário haver dois gêneros e papel assinado para que uma família seja formada. Mas as almas pequenas que vagam por esse mundo, angustiadas com a possibilidade de o amor transcender definições, precisam limitar o entendimento de família e esperneiam para o que o que eles percebem como família seja aceito oficialmente.

Os argumentos dessas pessoas não se sustentam por cinco segundos.

Se essa turma estivesse mesmo muito preocupada com a integridade da família – para eles composta por homem, mulher e descendentes biblicamente gerados – ela seria a favor de programas sociais como o Bolsa Família, que ajuda pai e mãe a alimentarem seus filhos e dar a eles uma melhor chance na vida.

Basta ver alguns dos estudos sobre o impacto do Bolsa Família nos bolsões mais pobres do Brasil para entender a importância do programa para “a família brasileira”. Alguns textos e documentos são extremamente comoventes.

Mas uma pesquisa rasa mostraria que os mesmos que “defendem a família” são contra programas sociais.

É assim no mundo todo: os conservadores e tradicionalistas que vociferam em nome do que acham que é uma família se opõe a ajudar famílias mais pobres de modo a permitir que possam se estruturar em um lar digno e minimamente decente.

Fossem mesmo a favor da integridade da família, estariam lutando para que os menos privilegiados tivessem ainda mais ajuda social: como licença maternidade — ou paternidade — remunerada, como escola e creches para quem não ganha o suficiente e precisa trabalhar mesmo tendo filhos pequenos.

Mas essa turma acha que quem não tem dinheiro é porque não dá duro, e não se importa de ver mães em comunidades deixarem suas crianças com vizinhos ou até sozinhas para sairem de casa de madrugada e ir trabalhar.

Fossem mesmo a favor da família estariam lutado pelo alargamento do ensino público e da previdência social, coisas que dão alguma segurança às famílias menos privilegiadas, mas não fazem isso porque na verdade são contra ambos. O que eles adorariam mesmo era ver apenas escolas e previdências privadas.

“Ensino público e Previdência Social são resíduos da perigosa concepção de que estamos no mesmo barco e temos que trabalhar juntos para criar uma vida e um futuro melhor”, escreveu Noam Chomsky em Sistemas de Poder. “Se você tenta elevar ao máximo o lucro ou o consumo, trabalhar juntos é má ideia. Isso tem que ser varrido da cabeça das pessoas” — mesmo que, ao fazer isso, deixemos as famílias mais carentes à deriva, claro.

Essa turma tampouco quer falar sobre controle de natalidade ou aborto, coisas que ajudariam famílias a serem formadas de modo sólido e planejado e evitariam que crianças crescessem desamparadas. Não falam sobre educação sexual, nem sobre aumento de gastos com o social. Em vez disso saem pelo mundo com a Bíblia debaixo do braço, interpretando o texto literalmente, e exigindo que vivamos conforme o entendimento tosco que fazem de um livro sagrado.

Tenho dificuldade de levar essa gente a sério porque eles não têm argumentos minimamente sensatos. É uma batalha perdida essa de se colocar contra o amor e tentar limitar a mais força do universo, a mesma que acendeu as estrelas e que nos move a continuar a despeito de tanta dor e injustiça.

Estamos todos ligados, somos uma coisa só, e teremos evoluído quando entendermos que fazemos parte de uma mesma família. Enquanto uma criança, uma só, morrer de fome, ou “de Guerra”, ou tentando escapar da miséria não estaremos completos.

É hora de alargar a definição de família até o ponto em que ela alcance todos os cidadãos da Terra. Pobre daqueles que, a essa altura da história, se entregam a tentar limitá-la.

4 pensamentos sobre “Todos nós sabemos o que é uma família

  1. o conceito de família se limita sim a homem, mulher e filhos. Ampliar o conceito, vira comunidade. Notei tb um certo ressentimento em relação aos conservadores e tradicionalistas. Menos preconceito por favor. Posições políticas divergentes fazem parte da democracia.

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  2. Entendo todas as liberdades de expressão de pensamento, entendo que numa democracia as idéias são discutidas e por mais antagônicas que sejam sempre algo de novo surge desse debate. Só não entendo as decisões tomadas por grupos tão conservadores que simplemente condenam a sociedade a uma vida de limites, totalmente incoerente com os novos tempos. Existe limite para o amor? Existe limite para o lar que é conquistado á duras penas e cujo objetivo maior é o acolher e cuidar? A Bíblia na sua exata interpretação prega esse amor sem preconceito e universal. Como faremos para “amar o próximo como a nós mesmos” se não respeitamos suas escolhas? Mais um texto brilhante,Milly!

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  3. Essa frase que você escreveu resume bem o que bastaria para um mundo melhor:
    “Estamos todos ligados, somos uma coisa só, e teremos evoluído quando entendermos que fazemos parte de uma mesma família.”
    E aí pouco importa o restante, porque se isso for entendido você trata do verdadeiro sentido de ‘família’, da sua hermenêutica. É o ideal do mundo sem as fronteiras estipuladas por marcações excludentes.

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