Comportamento/Política/Vida

Por favor, duvidem de mim

Faz alguns anos, eu já atuava como frila, recebi um telefonema um pouco perturbador de um executivo que foi meu diretor num grande grupo de mídia para o qual ele trabalha até hoje. Meu ex-chefe disse: “Há quanto tempo não nos falamos. Estou ligando apenas para dizer que tenho acompanhado seus tweets”. Nada além disso foi falado, até porque eu não soube como reagir e desligamos. Mas a frase ficou em minha cabeça, e a partir desse dia é raro que eu tuíte alguma coisa polêmica sem pensar nesse homem, que era, aliás, cordial e simpático.

Não tenho nenhuma dúvida de que o telefonema amigável foi uma tentativa de me intimidar porque eu andava tuitando bastante contra a grande mídia, e não posso negar que plantou em mim uma semente de dúvida, uma pequena voz que agora me diz: devo tuitar isso?

Conto esse episódio para começar a falar do tipo de manipulação delicada que existe em qualquer empresa de mídia.

Obviamente quando falamos em “imprensa tendenciosa” e insistimos na tese de que não há imprensa corporativa livre não estamos sugerindo um esquema montado por um grupo de jornalistas ou repórteres que antes de levar ao ar uma notícia se reúne e combina como ela será dada. Jogar o debate para esse nível juvenil é uma tentativa de eliminá-lo.

Existem diversas formas de censura, e colocar elegantemente o jornalista em um ambiente de auto-censura é uma delas. Dentro de uma corporação, qualquer uma, muitas coisas não são ditas, mas são sabidas. Posso falar sobre esse assunto? Melhor não, vai dar rolo, sobrar para mim. E a pauta cai antes mesmo de nascer. Esse é um dos muitos filtros usados por grandes corporações para acabar com a voz dissidente. Mas existem outros; muitos outros.

“Dizer que quem decide o que é publicado é o jornalista é como dizer que quem decide quais carros serão produzidos são os trabalhadores do chão da fábrica”, explicou o professor de jornalismo e escritor Justin Lewis no documentário cujo link coloco no final desse texto.

Mas então quem decide o que vai ser publicado na vastidão do mundo da informação? Quem decide o que vai ser filtrado, ou, em mais palavras, o que não vai ser publicado? Aqui entram as pressões institucionais.

Quem é o dono daquela empresa de mídia? Quem são os anunciantes e o que eles querem? Quem são as fontes usadas para opinar sobre determinado assunto e como são escolhidas? Tão importante quanto o que é publicado é o que deixou de ser publicado e por que deixou de ser.

A imprensa de massa hoje, no mundo todo, é formada por grandes corporações. Os donos são pessoas muito ricas e que tendem bravamente para o lado do conservadorismo. Eles não participam do dia a dia do noticiário, claro, mas para dar um exemplo de como a coisa funciona, também mostrado no documentário que está no final desse texto, na autobiografia de um ex-presidente da NBC (uma das maiores empresas de TV americanas), o autor conta que numa reunião o presidente do conselho de acionistas apontou o dedo para ele e disse: lembre-se que você trabalha para a General Electric Corporation.

A visão expressa pela grande mídia (a que prevalece, a que “vaza”, a que chega até você) não escapará de estar perfeitamente alinhada à opinião dos proprietários da empresa de mídia, e as empresas de mídia no mundo todo pertencem a uma pequena e conservadora elite, e pensa como uma pequena e conservadora elite.

Outro importante filtro de notícias: o anunciante.

É virtualmente impossível encontrar alguém com experiência em trabalho dentro de grandes empresas de informação que não tenha testemunhado a influência de grandes anunciantes na pauta. Ela pode ser direta ou indireta, mas ela é uma presença, uma força que paira no ar.

Ou vocês acham que sendo a Volkswagen um dos maiores anunciantes do mundo haveria interesse em continuar a explorar o escândalo das emissões ilegais que chegaram a ser 40 vezes maiores do que as permitidas por lei? A imprensa deu a notícia porque era coisa grande demais, e foi isso.

Não houve entrevistas, programas especiais, investigação, apuração extra… nada além do trivial – e trata-se de um crime contra todos nós, que durante anos respiramos o ar mais poluído por causa de uma decisão de meia dúzia de executivos da montadora, que pretendia deixar os carros mais velozes e, assim, vender mais e lucrar mais. Sem falar no aquecimento global e em outros desajustes ambientais causados por emissões, quaisquer emissões, ainda mais aquelas que se dão em doses ilegais.

Mas para a gente melhor entender o jogo precisa antes entender o que são as empresas de mídia.

Elas são corporações. E, como qualquer outra corporação, vendem um produto para um mercado. O mercado delas é o anunciante, e o produto vendido é a audiência – você e eu.

Assim, vendedores e compradores terão sua visão de mundo – e nenhuma outra visão – difundida por essas empresas via noticiário, esse é o jogo do qual participamos.

Então, quando estiver lendo/vendo o noticiário lembre-se sempre que você é o produto sendo vendido por aquela indústria – isso ajudará a colocar as coisas em contexto.

Vez ou outra a empresa precisa dar a notícia que a incomoda porque, como no caso da VW, a notícia se dá praticamente sozinha de tão grande, mas sempre há uma reação por parte do anunciante, e, a fim de não criar mais tensões com o anunciante, o assunto morre para o noticiário tão abruptamente quanto nasceu. Quem trabalha ou trabalhou em empresas de mídia pode facilmente comprovar isso.

E temos o filtro da fonte.

Para manter a suposta imparcialidade um jornalista não deve expressar opinião, diz o manual. Assim, para que haja opinião na matéria o jornalista recorre a uma fonte, escolhida por ele. Quem é essa fonte? Que opinião ela vai expressar? Se a gente começar a reparar as fontes não mudam muito de perfil, embora aqui e ali possamos ver fontes que tendem para a esquerda política, mas de forma geral as fontes representam o lado mais conservador.

Tudo isso está detalhadamente exposto, com percentuais inclusive, e quem quiser saber mais pode assistir o documentário abaixo ou ler Manufacturing Consent, de Noam Chomsky, que carrega uma indústria de evidências.

Outro filtro importante: o limite de linhas e de tempo, que cai bem a sistemas de poder porque se você leva alguém para ser entrevistado em um desses programas que os canais de noticias oferecem e a pessoa diz por exemplo: “árabes são terroristas”, ela não precisará se explicar porque é usualmente aceito pelos conservadores e pela opinião pública que árabes podem ser terroristas.

Mas se você diz: “Os Estados Unidos são terroristas” você terá que se explicar e provar – e há um mundo de documentos que podem ajudar você a defender a afirmação – mas não há na TV, nem na mídia impressa, tempo ou espaço para que você se explique coerentemente, então a voz da opinião dissonante sempre soará meio amalucada, que é o que a corporação de mídia quer.

O livro de Chomsky e o documentário abaixo estão recheados de exemplos e de fatos de como esses filtros atuam na manipulação da notícia que chega até você e eu, mas vou falar de um: a preocupação dos Estados Unidos com a democracia e os direitos humanos no mundo.

Todos nós crescemos escutando o mito de que as guerras promovidas pelos Estados Unidos têm apenas esses dois objetivos. Não importa que haja toneladas de evidências do oposto, o noticiário segue defendendo essa tese, e faz isso não mostrando evidências e fatos e imagens que provam justamente o contrário.

Um dos fatos contra os quais é difícil duelar é que as vozes mais a esquerda são abafadas pela mídia. Procurem saber quantas vezes Noam Chomsky, para muitos o maior intelectual vivo, foi usado como fonte ou entrevistado pelo New York Times. Se não for zero, como eu acho que é, fica perto disso. Soa no mínimo absurdo, não?

Então, quando falamos que não existe uma grande empresa de mídia que seja totalmente livre, ou quando falamos em manipulação, não estamos falando de um grupo de repórteres concorrentes que, antes de levar uma notícia ao ar, se reúne num boteco e decide como fazer isso, alinhando a pauta a interesses maiores. Essa é uma imagem infantil que funciona para quem quer, por um motivo ou por outro, deixar as coisas como estão.

Interpretando Chomsky: em ditaduras o controle se dá pela força; em “democracias”, pelo noticiário.

(Nas palavras dele, “propaganda” em vez de “noticiário”, mas não uso propaganda porque o sentido dela na língua portuguesa ganhou significado um pouco diferente. A propaganda a que Chomsky se refere é política e inclui o noticiário).

Mas por favor, não me levem a sério e duvidem de tudo o que está escrito acima.

Façam isso e entreguem-se a sua própria pesquisa, levantem as fontes usadas, visitem a mídia independente para ver o que fica fora do noticiário da mídia corporativa e perguntem-se “por quê isso não deu no NYT?”, escarafunchem a verdade com suas mãos. É uma viagem linda, mas fica o alerta: não tem volta.

Concluo com Malcolm X: Se você não for cuidadoso os meios de comunicação farão você amar o opressor e odiar o oprimido.

Aqui o link para o documentário que cito no texto. A imagem é ruim, o som idem, mas vale o esforço.

9 pensamentos sobre “Por favor, duvidem de mim

  1. Pingback: Por favor, duvidem de mimídia – por Milly Lacombe | Número Zero

  2. Pingback: O rebanho desorientado foi outra vez domesticado | Blog da Milly

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