Comportamento/Economia/Vida

A vida não é isso

Como fica a cada dia mais evidente, meu conhecimento a respeito de economia é, para dizer o mínimo, primário. Tudo o que existe em mim é interesse, curiosidade e esforço. Movida por esse trinômio assisti a mais recente entrevista que Noam Chomsky deu à jornalista americana Abby Martin.

Chomsky explica de forma simples – tão simples que até seres humanos intelectualmente limitados como eu são capazes de entender – o que acontece no mundo hoje.

Ele começa dizendo que o spectrum político atual vai do centro até a extrema direita que, de tão extrema, chega a escapar do spectrum. E diz que os republicanos se dedicaram com tanto ímpeto a defender os interesses dos muito ricos que, não sendo mais capazes de conseguir votos da população, tiveram que trazer à cena política grupos que sempre existiram, mas que nunca estiveram politicamente organizados, como os dos líderes religiosos.

E aqui faço um intervalo porque a beleza do discurso de Chomsky é que ele é tão claro e lúcido que fica fácil a gente aplicar à nossa realidade, ainda que até aqui ele esteja falando mais especificamente do que acontece nos Estados Unidos.

Para conseguir algum tipo de apoio popular os republicanos, que Chomsky nem considera mais como um partido político, precisam passar a ideia de que estão tentando tirar o país deles, e com o medo difundido são capazes de fazer com que mais pessoas que nunca se mobilizaram politicamente entrem no jogo. Essa é a base da direita hoje (no mundo todo).

Para Chomsky os democratas de hoje são os republicanos moderados de ontem.

Martin pergunta como se distribuiu o poder na sociedade atual, e Chomsky explica que há estudos de ciência política que mostram a relação entre os desejos da população e as legislações criadas. Ele dá exemplos.

O primeiro: a taxação mais pesadas sobre os muito ricos. Pesquisas teimam em mostrar que a população é a favor de uma maior taxação sobre os ricos, e há anos os ricos seguem sendo menos e menos taxados.

Outro exemplo: por que não existe um programa nacional de saúde pública? Porque, embora o povo queira e precise de um, a indústria farmacêutica e as seguradoras não deixam que isso aconteça.

Chomsky diz que os 70% mais pobre da população não têm nenhuma influência na criação de novas leis, e que quanto mais você sobe na escala da riqueza, mais influência passa a ter na legislação. Trata-se de uma plutocracia em formas democráticas, ele diz.

Ele conta que o FMI fez um estudo para saber de onde vinha o lucro dos bancos, e a resposta foi “do contribuinte”. Chomsky explica como isso acontece.

Existe uma garantia implícita dos governos contra o fracasso de instituições financeiras; ou seja, elas sabem que se acabarem se metendo em encrencas serão salvas.

Não era assim até os anos 60/70, mas essa passou a ser a verdade com o período neoliberal, que diminuiu as regulações federais. Toda a vez que um banco é salvo – e já foram muitas – o salvamento custa bilhões ao contribuinte.

Nesse cenário, as agências de crédito julgam que as instituições financeiras, que merecem essa ajuda infinita do governo, são altamente valiosas, valiosas para muito além do que são, e, portanto, conferem a elas ótima avaliação.

Com ótimas avaliações esses bancos são capazes de conseguir empréstimos baratos do governo e podem se lançar em transações de alto risco – e portanto de alta possibilidade de lucro – sabendo que, se fracassarem, serão salvas. Daí vem o lucro exorbitante delas.

Outro estudo do FMI mostrou que o valor dos subsídios federais dados à indústria da energia no mundo chega a U$5 trilhões ao ano. Os negócios agrícolas também merecem muita e muita ajuda de governos.

Sobre esse tipo de ajuda, uma que governos dão aos ricos, pouco se fala, mas basta que algum governo proponha qualquer ação afirmativa e social – como o Bolsa Família – para que saiam gritando que é um absurdo que façam isso com o dinheiro do contribuinte.

Ou seja: dar para que petrolíferas sigam furando o solo, jogando C02 na atmosfera, destruindo o planeta e enriquecendo acionistas é ok. Dar para quem tem fome já não é ok.

A verdade, segundo Chomsky, é que o mundo dos negócios depende do governo para existir e lucrar.

Em relação aos amantes do Mercado, que sonham com um mundo sem participação dos governos, ele alerta para o que passaríamos a ser: populações vivendo sob a tirania das corporações, que acelerariam ainda mais a destruição do planeta.

Para ele o que nos protege de um cenário como esse são, ironicamente, os governos, que ainda são capazes de regular algumas coisas.

O Mercado trabalha incentivando o consumo individual e aos que dizem que uma das belezas do Mercado é possibilitar a liberdade de escolha, Chomsky diz que é verdade: podemos escolher se vamos para casa num Ford ou num Fiat, mas não temos realmente a opção de ir de metrô ou de ônibus.

“O que você quer da vida?”, ele pergunta no final. “Mais e mais gadgets? A vida não é isso”.

Não. A vida não é mesmo isso. Obrigada, Noam Chomsky.

Veja aqui a entrevista completa.

9 pensamentos sobre “A vida não é isso

  1. Sempre me questionei sobre a diferença gritante de investimentos no transporte público e no transporte individual como um exemplo prático dessa distância entre o poder e o real interesse da população. É surreal ver a rapidez com que avançam as opções individuais de transporte e a vagareza no campo dos transportes públicos. Excelente resumo e ótima entrevista. Abs

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  2. “A vida não é isso”. Talvez seja esta a grande questão. Fomos levados a acreditar, seja pela cultura dita popular, seja pela erudita, que a vida tem algum propósito, que de uma forma ou outra temos uma missão. Qual será? a felicidade? liberdade, igualdade e fraternidade? justiça? se estes forem os valores, estamos muito distante, seja por conta da ação individual, quer pela manifestação ou escolha política. O que interessa à pólis, Milly? o que interessa ao homem? gadgets? poder, dinheiro e sexo como quer a trilogia adleriana? temos muitas perguntas boas, antes das respostas. Talvez devêssemos começar pelo não é isso que quero, algo que você faz muito bem em outras postagens. Mas o que a sociedade não quer? Você é a jornalista, nos ajude a investigar.

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  3. Olá Milly, bom dia ! Estou finalmente lhe escrevendo, depois de só ameaçar por umas três vezes … Bom, eu te acompanho à muitos anos através das suas colunas na TRIP/TPM, Folha, blog, etc. Gosto de ler suas colunas exatamente por representarem um pensamento totalmente oposto do meu, mas com lucidez. Bom, eu fiz faculdade de economia na PUC-MG, fui trabalhar com auditoria, e depois fiz Direito na UFMG, me especializando em direito tributário ( só citei as faculdades porque uma é totalmente de direito, católica e tal e a UFMG totalmente de esquerda, ainda que frequentada por pessoas mais ricas que a primeira). Pois bem, hoje eu trabalho defendendo o “lado negro da força”, em especial empresas de transporte (de carga e de pessoas). Eu mesmo, pessoa física, já fui militante do PT e hoje me classificaria como um liberal que defende algum tipo de assistência aos muito pobres. Então, depois de ler “Para entender o poder” e “O controle da mídia” e assistir as entrevistas do Chomsky, me lembrei de uma frase (sem me lembrar do autor), “-para todo problema existe um solução extremamente simples, barata e errada!”. Estive na Filadélfia durante 15 dias em outubro fazendo um curso e devido à solidão de debrucei mais sobre o assunto. Como analista e crítico da sociedade eu acho ele brilhante. E só. Sem me basear em ninguém, ou sem nenhum sustento acadêmico, a minha grande questão é: as pessoas querem toda essa igualdade ? Não seria da natureza humana querer ir embora do trabalho de Ford ou de Fiat, ao invés de metrô ou ônibus. Tenho mais de uma dezena de estagiários, os mais guerreiros são os que vêm de escolas públicas, e lutam mais de 3 horas por dia no trânsito, porque moram muito longe. Ao longo dos anos, percebi que estes são os mais de direita de todos. Todos os esquerdistas do escritório vêm de famílias ricas. Bom, era isso, resolvi lhe escrever por amor ao debate e a minha grande questão é essa: as pessoas não querem mudar as regras do jogo. Elas querem é estar no time que está ganhando. Grande abraço. Luiz Felipe.

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    • Oi, Luiz. Muito obrigada pelo comentário. Concordo com muita coisa, e acho que temos esse tique de querer estar no time que está ganhando sim. A explicação para suas dúvidas finais talvez seja o comportamento da mídia de massa, que não busca informar tanto quanto impedir que as coisas mudem e que o poder do capital privado e concentrado perca a força. Ela atua para moldar mentes, e não para educá-las. É como eu vejo.
      Abraço.

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