Comportamento/Política/Vida

Como nasce um monstro

Meu primeiro impulso foi dar a esse texto o título de “a arte de apontar o dedo”, essa que nos cai sempre tão bem. Mas fiquei com a ideia tirada de frase dita pelo diretor de uma organização humanitária que advoga em nome de excluídos na Europa, Asim Qureshi.

Qureshi, falando a respeito de um dos clientes do CAGE (a organização de advogados que trabalha para incluir os marginalizados) que foi visto há alguns meses em vídeo decapitando um jornalista americano disse: “Quando vamos finalmente aprender que ao tratar o ser humano como um excluído ele vai inevitavelmente se sentir como um excluído e procurar inclusão em outros lugares?”

O raciocínio é simples, mas muita gente prefere não fazê-lo e exigir que combatamos o terror com mais terror.

Qureshi falava em entrevista coletiva a respeito de Mohammed Emwazi, um dos decapitadores dos monstruosos vídeos que o ISIS disponibiliza depois de assassinar inocentes.

A história de Emwazi, 26 anos: nasceu no Kwait, foi ainda muito pequeno para a Inglaterra, onde ganhou cidadania e se formou em computação. Depois de umas férias na Tanzânia em 2010 passou a ser parado sempre que tentava entrar ou sair na Inglaterra, até ser proibido de viajar ao Kwait, onde iria se casar e tinha arrumado um trabalho.

Ele procurou o CAGE pedindo ajuda, mas continuou a ser vigiado e impedido de deixar o país. “Me sinto preso sem estar em uma cela”, disse. Até que um dia ele não foi mais visto e apareceu nos vídeos do ISIS.

Como Emwazi há muitos outros que não se sentem incluídos, mas talvez a história mais comovente, das que chegaram até a gente, seja a do garoto iemenita de 13 anos que foi assassinado por um drone americano pouco tempo depois de dar uma entrevista ao Guardian (recomendo muito que vejam o vídeo e leiam o texto da entrevista. Link abaixo).

O título da matéria era “Sonhamos com drones” e nela Mohammed Tuaiman falava da vida em sua vila bombardeada regularmente por drones americanos.

Tuaiman disse que as crianças da vila acordavam com pesadelos no meio da noite. Por lá quase não há crianças que tenham deixado de ver familiares morrerem queimados depois que as bombas jogadas pelos drones explodem. Um dos familiares que Tuaiman viu morrer agonizando em chamas era seu pai.

O ativista e linguista Noam Chomsky, colocando tudo em perspectiva, diz que ficamos consternados ao ver vídeos de homens sendo decapitados e que essas pessoas ficam consternadas ao verem corpos de familiares queimando.

O menino iemenita morreu pouco tempo depois de dar a entrevista, vítima de uma bomba lançada pelos americanos, mas eu não me surpreenderia se ele tivesse crescido para se tornar um terrorista.

Do mesmo jeito que ao jogar uma bomba sobre um hospital afegão no começo de outubro o exército americano talvez tenha criado mais uma dúzia de terroristas; aliás poucas coisas me parecem mais grotescas do que jogar uma bomba sobre um hospital. Não chamamos isso de terrorismo apenas porque fomos acostumados a achar que atitudes de nossos aliados não são atitudes terroristas, quando na verdade elas se encaixam perfeitamente na definição de terrorismo.

O que pensaríamos se uma bomba do ISIS caísse sobre um hospital em Paris e matasse dezenas de inocentes?

“Ah, mas havia a possibilidade de estar no hospital um suspeito de terrorismo”, podem alegar os monstros do ISIS exatamente como alegam os americanos quando matam inocentes tentando acertar um suspeito no oriente (suspeito, e por favor entendamos que suspeito não é culpado ainda, e que são eles os alvos da campanha de drones de Obama).

O exercício de se colocar no lugar do menino iemenita é necessário. Para ele o que eram os americanos? Apenas terroristas.

Por tudo isso a ideia de, diante do horror em Paris, fechar as fronteiras é a pior delas. Criar mais excluídos é apenas alimentar o que disse o diretor do CAGE: o ser humano vai procurar inclusão em outro lugar. E encontrará.

Há em todos nós a capacidade de sermos monstros e santos. “Sou homem e nada do que é humano é alheio a mim” escreveu Terêncio há centenas de anos. Não me imagino decapitando uma outra pessoa, mas não sei responder o que faria se fosse o garoto do Iêmen e tivesse sobrevivido.

Esse tipo de análise faz nascer a Sheherazade que mora dentro de certas almas e imagino que algumas delas pedirão que eu adote um terrorista. É exatamente esse o tipo de pensamento (ou a falta dele) que nos conduziu para a lama em que estamos hoje. Optar por não se informar e não refletir é sempre a pior alternativa.

Não há violência maior do que deixar de reconhecer a humanidade no outro, e ao impedir que alguém cruze uma fronteira estamos dizendo que aquela é uma pessoa inadequada, estamos deixando de reconhecer sua humanidade.

Claro que é infinitamente mais fácil olhar para o horror causado pelos terroristas do ISIS em Paris na noite de 13 de novembro e gritar: vamos nos vingar! Vamos matar esses monstros. Essa é a saída simples, é a reação mais imediata e natural, teria sido a minha se alguém que eu amo tivesse sido assassinado pelo ISIS.

Difícil mesmo é não apontar o dedo e olhar para as nossas atitudes. Essa é a saída dolorosa, mas me parece que só vamos conseguir resolver todo esse horror se optarmos por ela.

“Existe uma maneira fácil de combater o terrorismo: parar de participar dele” (Noam Chomsky).

Texto do Guardian sobre o garoto iemenita aqui.

11 pensamentos sobre “Como nasce um monstro

  1. Texto excelente. O difícil é colocar-se no lugar do outro. Este é um dos problemas centrais do mundo contemporâneo, talvez a maior violência, geradora de todas as outras. Grande abraço.

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    • Haha. Pode sim, sempre. Concordo com você em relação à aspa de Chomsky. Ele usa “fácil” em vez de “simples”. Já alterei. Muito obrigada por ler e comentar ❤

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  2. Sim concordo plenamente que só paramos com a guerra parando a guerra, mas se não fizerem a guerra contra os terroristas, o que eles irão fazer com as fabricas de armas e bombas/, qual empresario se atreve a parar essas fabricas e perder essas montanhas de dinheiro???

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  3. Milly, como sempre você é perfeita naquilo que escreve. Sabemos que não se pode combater o terrorismo da forma que esses governos vem fazendo, bombardeiam matando muito mais civis. Sabemos que o EI foi criado e treinado pelos americanos e países parceiros, com intuito de derrubarem governos “não gratos”, deu no que deu, o monstro se revoltou contra os criadores. O combate ao EI terá que ser realizado com envolvimento da maioria das nações e por terra com a inteligência Russa e Americana, não podemos mais aceitar que continuem a bombardear esses países e achar normal matarem em sua maioria civis (crianças são as maiores vítimas) dessa loucura. O mundo precisa de amor e paz, somente! Chega de um país querer intervir no outro. Para que serve então o conselho de segurança da ONU?

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  4. Por tudo isso a ideia de, diante do horror em Paris, fechar as fronteiras é a pior delas.

    Fechar fronteiras é realmente a pior coisa que os franceses podem fazer numa situação dessas? Eu consigo imaginar medidas muito piores, todas elas importadas diretamente da Alemanha dos anos 30.

    Não me imagino decapitando uma outra pessoa, mas não sei responder o que faria se fosse o garoto do Iêmen e tivesse sobrevivido.

    Os mandantes desse tipo de ataque militar geralmente têm nome, sobrenome e endereço, mas eu nunca ouço falar de terroristas viajando até Washington para um acerto de contas. Curiosamente, a vingança deles sempre recai sobre civis indefesos.

    Não há violência maior do que deixar de reconhecer a humanidade no outro, e ao impedir que alguém cruze uma fronteira estamos dizendo que aquela é uma pessoa inadequada, estamos deixando de reconhecer sua humanidade.

    Então um de nós tem de ser trancado num hospício, pois eu tenho certeza absoluta de que matar uma pessoa é uma violência muito maior do que não reconhecê-la como gente.

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  5. Pingback: Como se cria um monstro « Associação Rumos

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