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Minha visita a uma escola ocupada em São Paulo

Chegando a uma das escolas públicas ocupadas por alunos em São Paulo já me bateu uma certa emoção. Nas grades e muros que separam da rua o colégio Caetano de Campos, que fica na Aclimação, muitos cartazes diziam “Escola Ocupada”. Na portaria improvisada, dois alunos controlavam a entrada e a saída de pessoas. Eu disse que estava ali para dar uma aula de escrita criativa e me deixaram entrar.

Lá dentro, uma outra portaria com outros dois alunos que ajudavam o visitante a se localizar (todos são bem-vindos e os ocupantes encorajam que a população entre e visite as instalações). Como cheguei mais cedo, fui andar pela escola. Pelos cantos, vi baldes e vassouras e soube que os alunos se revezavam na limpeza do espaço todo, que me pareceu bastante limpo. Em períodos normais são quatro moças que fazem a limpeza, e a julgar pelo tamanho da escola fica claro que não é possível que quatro pessoas deem conta de tudo. Mas é o que a administração de Geraldo Alckmin acha correto fazer, então é assim que é.

Existe no Caetano de Campos um laboratório bem equipado que está inativo há alguns anos e uma quadra coberta que hoje é usada como depósito de material escolar (velho e novo). Os alunos não sabem dizer por que o material novo não é colocado em uso se ele está lá empilhado, e também não sabiam dizer por que há salas de aulas fechadas há anos e eles têm que se amontoar para ter aulas.

O Caetano de Campos está ocupado há dez dias, e é uma das quase 200 escolas ocupadas desde que o governador de São Paulo decretou que haveria uma reorganização educacional no estado, uma forma sofisticada de avisar que escolas seriam fechadas e alunos transferidos.

O que os alunos pedem é para que a reorganização não seja imposta como está sendo, para que eles participem de grupos que possam avaliar a melhor forma de se reorganizar o sistema de ensino no estado e ajudem com ideias e informações, para que esse processo comece agora e até que seja concluído nada mude.

Não me parece descabido, muito pelo contrário. Mas descabido me parece alegar que a reorganização é necessária porque existem escolas ociosas. Como pode estar ocioso um sistema que amontoa alunos em salas de aula? Como é possível fornecer ensino de qualidade quando uma sala tem mais de 5o estudantes?

Visitar uma escola ocupada é um ato de cidadania. Em primeiro lugar porque fica evidente o que pensa sobre educação o partido que mais fala em meritocracia no Brasil, o PSDB, que comanda o estado de São Paulo há 20 anos.

Mato por todos os lados, uma horta abandonada, salas de aula fechadas e inutilizadas, laboratório trancado, poucos professores e poucos profissionais de limpeza formam um cenário que fica longe de ser acadêmico e de permitir que jovens aprendam e se desenvolvam da melhor forma possível a ponto de terem a mesma chance na vida de um jovem que estude em escola privada.

Falar em meritocracia quando se tem alguns milhões de reais guardadinhos em um banco é fácil. Já usar duas décadas de poder estadual para construir um sistema de ensino que permita que todos tenham (quase) a mesma chance na vida demanda uma certa dose de boa-vontade e caráter.

Nas palavras do professor de filosofia John Rawls: “A distribuição natural de justiça (riqueza e poder) não é justa ou injusta; nem é injusto que uma pessoa nasça em uma posição particular dentro de uma sociedade. Esses são apenas fatos naturais. O que é justo ou injusto é a forma como instituições lidam com esses fatos”.

Em segundo lugar, e talvez mais importante, visitar uma das escolas ocupadas é um ato de cidadania porque mesmo aqueles que aparecem por lá para dar aulas acabam tendo uma aula, que foi o que aconteceu comigo.

Os alunos do Caetano vivem há dez dias em uma comunidade com requintes anarquistas (e precisamos entender o anarquismo para além do mascarado que atira pedra em vidro de concessionária).

Em assembleias e comissões os alunos decidem quem limpa a escola, quem limpa os banheiros, quem cozinha, quem limpa a cozinha, quem organiza oficinas e palestras, quem organiza as visitas. Não há um líder, ou lideranças, e tudo é votado e acontece por meio de trabalhos voluntários.

Uma das professoras que estava no Caetano na tarde em que eu fui até lá me contou uma história tocante.

Ela disse que tinha problemas com um dos alunos que por duas vezes já a havia mandado à merda. Ofendida, ela passou a não dar muita bola para ele em sala de aula. Um dia depois da ocupação, durante uma assembleia de alunos, ela viu pedirem que alguém se candidatasse para limpar os banheiros e esse aluno foi o primeiro a levantar a mão. Emocionada ela foi até ele e disse: “Puxa, não sabia que você era tão legal”, e ele, sorrindo e abraçando-a, respondeu: “Demorou para ver, hein, professora”.

Viver em uma comunidade acaba tirando de cada um de nós o que temos de melhor, e essa mesma professora me disse que todos os dias tem aprendido muito com a ocupação e com a forma como os alunos estão se relacionando.

Desde que a escola foi ocupada os alunos do Caetano de Campos já tiveram palestras e oficinas sobre racismo, feminismo, literatura, fotografia e uma aula sobre América Latina dada por um professor da USP. Nos próximos dias eles dariam início a sessões de documentários.

Os alunos das escolas ocupadas estão dando uma lição a todos nós, e é uma pena que a grande mídia não queira contar essa história.

Que 200 escolas estejam ocupadas já seria em si uma notícia que exigiria atualização diária, talvez com setoristas dentro dessas escolas para melhor contar o que está acontecendo lá dentro.

Jovens que, ao se perceberem privados de uma educação minimamente decente, se revoltam a decidem dar um recado ao chefe do estado merecem aplausos. Qualquer arranjo social que iniba ou impeça que a capacidade criativa do ser humano se manifeste é imoral. Estruturas hierarquicas que façam uso de formas autoritárias de poder devem ser questionadas e combatidas, exatamente como esses jovens paulistas estão fazendo.

Nas palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos”. Portanto, esses jovens que ocuparam as escolas em São Paulo já são mais do que muitos de nós, e certamente mais do que a lastimável e elitista administração de Geraldo Alckmin.

25 pensamentos sobre “Minha visita a uma escola ocupada em São Paulo

  1. Oi Milly,
    Eu tenho 18 anos e também escrevo. Comecei a ler seus textos faz um mês, e sempre saio com novas ideias sobre os assuntos que você aborda. Bom, eu já tenho um livro publicado (100 exemplares pra ver no que dá) e gostaria de dicas pra divulgar meu trabalho e conseguir espaço, sem gastar muita grana. Até porque, a publicação teve um valor bem a cima do que eu esperava.

    Beijos e valeu por ler

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    • Oi, Breno. Que bacana ter a coragem para se lançar assim. Parabéns. Acho que hoje as mídias sociais fazem muito pela divulgação. Mande para pessoas que você gosta e peça para que elas divulguem se gostarem. Acho que é um bom começo. Obrigada por ler o que escrevo. Beijo.

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  2. Ótima idéia. Vou visitar uma escola ocupada para ver e sentir tudo isso que voce escreveu, declarar o meu apoio, e ver se posso ajudar em algo.

    Acho que temas como desigualdade, socialismo e capitalismo, voce domina, e fala de uma forma bem didática. Além disso, tem uma grande relação com esse momento de ocupações. Quando for dar uma aula sobre isso em alguma escola, divulga, que eu quero assistir.

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  3. Eu estudei minha vida inteira em escola pública e infelizmente é isso mesmo citado no texto. O governo fala em meritocracia mas não dá condições para os alunos se desenvolvam e tenham uma vida um pouco melhor, assim vão procurar o que está mais próximo de si.

    Como diz a na letra “A vida é um desafio – Racionais MCs”

    “Tem que acreditar. Desde cedo a mãe da gente fala assim: “Filho! por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor”. Ai passado alguns anos eu pensei, “Como fazer duas vezes melhor, se você está pelo menos 100 vezes atrasado? atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses, enfim por tudo que aconteceu, duas vezes melhor como?”.
    Ou melhora, você é o melhor ou o pior de uma vez, sempre foi assim, se você vai escolher o que estiver mais perto de você, mais perto da sua realidade, você vai ser duas vezes melhor como? Quem inventou isso ai? Quem foi o pilantra que inventou isso ai? Acorda pra vida rapaz.”

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  4. Obrigada pelo artigo, Milly. Enquanto professora da rede pública do estado de SP fiquei muito feliz com o seu olhar sobre esse movimento dos alunos. Essa “reorganização” imposta, cabendo somente a nós professores, pais de alunos e alunos sabermos para onde iremos precisa ser combatida, mas infelizmente esse combate não é tratado com o devido valor pelos meios de comunicação. Impressionante como números, dados estatísticos e a fala técnica de quem não vive na sala de aula está legitimado a tantos anos neste governo. Está tão legitimado que há colegas da educação concordando com esta reorganização. Qual o problema de ter escolas com poucos alunos?? Salas com poucos alunos? Eles (os especialistas do governo), por mais que não admitam, sabem que a qualidade do ensino melhoraria bastante se tivéssemos menos alunos por sala. A qualidade do trabalho do professor também seria bem melhor. Mas não…o que vale é a porcaria (queria dizer outra coisa) do dinheiro, dos gastos, dos índices, do SARESP. Para esse atual governo, alunos, pais e professores não sabem nada. Mas a ocupação está aí para esfregar na cara deste governo que somos sujeitos ativos no processo educacional. Agradecida mais uma vez. Estela

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  5. Milly, bem legal seu texto, algumas partes, discordo, principalmente pela notícia de ontem, onde quebraram uma escola inteira, não vejo como uma quebradeira destas fazer a diferença. Mas sim, as pessoas que estão dispostas a mudar o mundo, tem que começar por elas, independente da idade.

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  6. Primeiro gostaria de agradecer o texto e divulgar a ocupação da escola, até agora vi muito pouco espaço na mídia para essa ação incrivelmente corajosa e com a guarra que todo estudante deve ter. Eu estudei durante toda a minha vida em escolas da rede Estadual do Estado de São Paulo e em muitas vezes tive momentos diferentes, mas tenho muito a agradecer aos meus professores do ensino médio da Escola Estadual de São Paulo, muito graças a eles, hoje faço parte o corpo de graduandos da UFABC, na Grande São Paulo. Esses professores foram importantíssimos para a minha formação como aluno e como cidadão. Durante esse período pude estagiar, através da FUNDAP na E.E. Caetano de Campos, mesma escola que você visitou, conheci muitas pessoas lá inclusive amigos que tenho até hoje, e pude conviver com o dia a dia desta escola, que já foi modelo de ensino na cidade, hoje a situação é outra. Infelizmente não consegui visitar a ocupação do Caetano, mas fui em uma escola em Santo André, onde moro atualmente. Mesmo com os últimos acontecimentos e declarações do governo, eu ainda espero que aja uma conversa e que os alunos possam enfim ser ouvidos.

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  7. Quem foi prejudicado (como eu) na praça da República em 2014, época de período eleitoral, por ”professores” escolhe a PM.
    E acho que Alckmin ainda está muito bonzinho com professor que sabe fazer greve mais não sabe dar aula, com alunos da periferia que fumam em sala de aula, ouvem funk ostentação e com alunos da USP que sempre aprontam das suas.

    Tive professor que incentivava a bagunça e fez graça do Covas levando pedrada de professor. Anos mais tarde(2012) fui em reunião escolar do meu irmão, e os 35 alunos eram representados por 10 pais. 12 anos antes a sala ficava cheia.

    Li o projeto e acho bom , quem não leu critica.

    É muito fácil criticar o estado pela péssima educação, mas temos em sua maioria professores corporativistas, alunos indisciplinados e pais que tratam filhos como amigos.

    Entre Pm contra vândalos, eu fico com a PM.

    Moro na periferia, perto do Heliópolis e estou no limbo: não sou rico para receber empréstimo do BNDES nem pobre o suficiente para receber bolsa família.

    Leio e ouço jornalistas de esquerda e direita , junto a realidade que vivo, daí formo a minha opinião.

    Grato

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    • Rafael, com base em qual tipo de avaliação você pode dizer que os professores não sabem dar aula? Sabemos fazer greve mesmo, inclusive é um direito e a história mostra que muitos avanços tiveram em razão das greves de várias categorias. Acho que a sua vida poderia estar muito pior se não houvesse greves. Agora, o projeto não foi apresentado e dialogado com outros atores sociais da esfera educacional (professores, alunos e pais), mas sim imposto. Este é ponto conflitante. Realmente as escolas apresentam muitos problemas que são reflexos da sociedade (não considero o funk um problema), então a mudança é a longo prazo e com muito investimento do governo na educação para ajudar professores e gestores a amenizar problemas como droga, por exemplo. A escola não consegue resolver tudo, nunca espere isso.

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      • É um direito do professor grevista atirar pedra no Covas? É direito atrapalhar o direito de ir e vir dos demais trabalhadores na praça da República ás 4 da tarde?
        É um direito taxista parar o viaduto do Chá ao meio dia e ferrar a cidade inteira?

        Tenho base suficiente para avaliar professor pois estudei durante os anos 90 em escola estadual.

        E chegando ao ensino médio constatei que os melhores professores eram aqueles que destinavam os 50 minutos de aula ao ensino, não a interesses corporativistas, fazendo campanha eleitoral em sala de aula. Se isso não é ter base…………….

        Em nenhum momento culpei e nem generalizei os professores pela educação em São Paulo.

        Entendo que comparando o estado, os pais, os alunos e professores de 1995 com 2015, o nível caiu, sobretudo os pais.

        Senhora Estela, menos corporativismo, por favor.

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  8. Pingback: Minha visita a uma escola ocupada em São Paulo « Associação Rumos

  9. Acho muito bom que os estudantes finalmente estejam defendendo suas escolas pois eles já deveriam estar fazendo isso há muito tempo. Todavia, preferiam depredá-las, pichá-las, quebravam suas cadeiras, mesas, etc. Agora talvez os pais desses mesmos estudantes passem a dar valor ás escolas onde seus filhos estudam. Nem chego a sonhar com uma realidade como a verificada nas escolas japonesas, onde os estudantes fazem toda a limpeza e a manutenção , mas os brasileiros devem começar a cuidar melhor de sua escola. Lá , os pais acompanham com todo o rigor o que é ensinado aos seus filhos, inclusive opinam sobre o conteúdo do que é ensinado.
    Aqui os pais deveriam começar a prestar atenção também, pois o conteúdo do que é ensinado é impregnado de ideologias totalmente ultrapassadas.
    Me preocupo também com a qualidade do ensino, pois tenho assistido alguns porta-vozes dos alunos se expressando com ” nóis vai ficar aqui”, “nóis semo unido”, etc. Será que os estudantes escolheram os mais analfabetos para representá-los ou todos eles se expressam dessa maneira? Será que seus pais se preocupam com isso também?
    Você citou o caso da professora que foi xingada pelo aluno. Duvido que ele tenha simplesmente a mandado à merda, pois creio que os termos devem ter sido muito mais graves. Será que isso seria tolerado na Finlandia, na Coreia do Sul ou mesmo na China comunista? Os professores, para poderem transmitir o conhecimento , precisam e merecem o respeito de seus alunos. Infelizmente nos últimos anos eles têm sido agredidos física e moralmente, desrespeitados dentro e fora das salas-de-aula, etc. tudo isso por um salário geralmente indigno de seu esforço.
    Ainda bem que os problemas educacionais acontecem sómente em São Paulo, não, Milly? Afinal, nossa pátria é educadora e, nos demais estados, principalmente naqueles governados pelo PT, a educação é de nível quase cubano, isto é, de primeiro mundo.

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  10. Acho muito bom que os estudantes finalmente estejam defendendo suas escolas pois eles já deveriam estar fazendo isso há muito tempo. Todavia, preferiam depredá-las, pichá-las, quebravam suas cadeiras, mesas, etc. Agora talvez os pais desses mesmos estudantes passem a dar valor ás escolas onde seus filhos estudam. Nem chego a sonhar com uma realidade como a verificada nas escolas japonesas, onde os estudantes fazem toda a limpeza e a manutenção , mas os brasileiros devem começar a cuidar melhor de sua escola. Lá , os pais acompanham com todo o rigor o que é ensinado aos seus filhos, inclusive opinam sobre o conteúdo do que é ensinado.
    Aqui os pais deveriam começar a prestar atenção também, pois o conteúdo do que é ensinado é impregnado de ideologias totalmente ultrapassadas.
    Me preocupo também com a qualidade do ensino, pois tenho assistido alguns porta-vozes dos alunos se expressando com ” nóis vai ficar aqui”, “nóis semo unido”, etc. Será que os estudantes escolheram os mais analfabetos para representá-los ou todos eles se expressam dessa maneira? Será que seus pais se preocupam com isso também?
    Você citou o caso da professora que foi xingada pelo aluno. Duvido que ele tenha simplesmente a mandado à merda, pois creio que os termos devem ter sido muito mais graves. Será que isso seria tolerado na Finlandia, na Coreia do Sul ou mesmo na China comunista? Os professores, para poderem transmitir o conhecimento , precisam e merecem o respeito de seus alunos. Infelizmente nos últimos anos eles têm sido agredidos física e moralmente, desrespeitados dentro e fora das salas-de-aula, etc. tudo isso por um salário geralmente indigno de seu esforço.
    Desejo que, doravante, esses estudantes comecem realmente a defender suas escolas com dignidade.

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