Comportamento/Economia/Política/Vida

Fora democracia

Passei pelo aeroporto de Brasília essa semana e notei que o local se transformou no grande hub da aviação brasileira, ligando e conectando vários pontos do país. O aeroporto aumentou muito, ganhou sofisticação e esperando meu voo sair fiquei ali observando o movimento.

De fato aeroportos hoje parecem rodoviárias. Há brasileiros de todos os tipos indo e vindo, de norte a sul, de leste a oeste. O ir e vir de pessoas naquele começo de noite de sexta-feira no aeroporto da Capital era absurdo, mas o caos parecia bastante organizado. Voos decolavam no horário, muita gente comia enquanto esperava o voo sair e tudo funcionava.

Sentada num banco mastigando um sanduíche de peru fiquei pensando que é preciso uma dose exagerada de preconceito para deixar de notar como o Brasil mudou para melhor na última década.

É preciso muita má vontade para se recusar a reconhecer que os programas sociais implementados a partir da primeira administração de Lula deram uma injeção de dignidade em parcelas até então esquecidas da população.

Dizer que a mudança para melhor é mérito de FH é uma meia verdade. Ter aplacado a inflação galopante e valorizado a moeda não foi um trabalho exclusivo dele, mas da administração de Itamar Franco e do grupo de economistas que pensou o Plano Real, um grupo do qual FH fazia parte.

FH ficou com os louros por motivos opostos àqueles que condenam Lula a ser o maior ladrão da história brasileira: um representa a elegância da aristocracia e do poder do capital privado, o outro representa a vulgaridade do povão e o poder das ações sociais.

E embora nada tenha ainda sido provado contra Lula querem dar a ele a medalha de grande patife da República. E eu de verdade não sei se ele é ou não culpado ou responsável ou se sabia de alguma coisa, de qualquer coisa, de tudo, o que sei é que até agora nada foi provado, então é preciso que se respeite a inocência até que alguma prova venha à tona.

Fora isso seria preciso que comitivas de psiquiatras gabaritados estudassem a raiva e a ojeriza que alguns sentem por Lula, e que o mesmo estudo analisasse a adoração dedicada a FH, alguém que fez muito menos do que Lula pelo Brasil e que foi suspeito de participar de crimes ainda mais graves e mais nocivos aos interesses da nação.

A mesma lógica explica que todos os dias investigue-se o suposto enriquecimento dos filhos de Lula, mas tratem como normalíssimo que a filha de Serra tenha recentemente ascendido ao posto de uma das pessoas mais ricas do Brasil (e uso o “suposto” para os filhos de Lula porque embora muito se diga nada ainda se provou, ao contrário da filha de Serra que é oficialmente sócia do homem mais rico da nação); ou o interesse para que saibamos como exatamente um ex-metalúrgico comprou um triplex no Guarujá comparado à completa falta de curiosidade para saber como FH adquiriu o luxuoso imóvel que tem no sofisticado bairro paulistano de Higienópolis.

Outra vez digo: não sei se os filhos de Lula são ricos e, se forem, não sei se enriqueceram licitamente ou não. O que sei é que existe sobre eles um tipo de interesse que não há sobre os filhos de FH e sobre a filha de Serra e reconhecer a diferença de curiosidade passa inevitavelmente por reconhecer a existência de preconceito.

Outra verdade incômoda é que se tornou impossível elogiar o que fez Lula pelo povo brasileiro sem falar dos esquemas de corrupção em que o PT se meteu. A história do partido e de Lula estarão para sempre manchadas diante do que sabemos hoje, a despeito de toda a evolução social dos últimos anos.

Mentes infectadas pelo preconceito acham que os esquemas de desvio de dinheiro público nasceram com o PT, mas qualquer pesquisa rápida mostra que o grande erro petista foi não ter interrompido os esquemões que já havia e, mais grave, feito amplo uso deles.

Não acho menos grotesco que o PT tenha galopado em cavalo já selado, acho tão grotesco se apropriar de um esquema sujo quanto criá-lo, então ter feito uso de esquemas existentes não tira a responsabilidade do partido — e entendo que de alguma forma cause ainda mais indignação que aqueles que sempre bradaram contra a corrupção tenham se juntado a ela.

Faria bem ao PT reconhecer os erros e voltar no tempo.

O comportamento peçonhento do PSDB hoje, buscando inviabilizar qualquer chance de governabilidade e tentando afunda o país em caos para sair vencedor nas próximas eleições – ou até mesmo antes dela – tem paralelos com o que fez o PT durante as administrações FHC.

FHC tinha sido acusado de comprar o Congresso para se reeleger e a privataria mostrava suas garras sujas, mas FH, apesar de tudo, tinha sido legitimamente eleito pela maioria e não conseguia governar tamanho o barulho que a oposição fazia, e a despeito de todas as críticas que pudessem ser feitas à política que implementava.

É o preço que se paga pela democracia: tem horas que vence aquele que vai implementar políticas com as quais não concordamos e resta esperar a próxima eleição para interromper o curso. O “Fora FH” de antes hoje se transformou em “Fora Dilma”, e ambos são igualmente paranóicos e aos meus ouvidos soam como “Fora democracia”.

Que um partido político se comporte como facção, como bando, só interessa a quem quer o poder a todo o custo e não está nem aí para processos democráticos, e acontece sempre em detrimento do bem-estar social.

E ainda que eu esteja detestando a gestão de Dilma ela pelo menos está fazendo o que seus antecessores parecem não ter feito: “deixando” que se investigue doa a quem doer.

Morreu de uma vez a figura do “engavetador geral da República” e o que estamos vendo é gente graúda, seja do setor público ou privado, começando a pagar por seus crimes. Talvez por isso haja tanto interesse político para que Dilma saia antes de terminar o mandato.

Precisando se reinventar talvez fizesse bem ao PT resgatar esse tempo de “Fora FH” e se desculpar com todos nós pelo comportamento de bando. Como também faria bem jogar no lixo a tal da governabilidade que tão caro está nos custando agora que o PMDB perdeu todas as máscaras.

Pensava nisso enquanto olhava a movimentação no aeroporto de Brasília e via tanta gente e tantos sotaques diferentes passando por mim. As coisas não andam bem, o país parece estar caminhando para trás, a economia vai mal etc e tal. Tudo isso eu sei, como também sei que muitas coisas deverão ser feitas para que a gente volte a evoluir.

E a solução para voltar a crescer não pode ser investir menos no social, a solução tem que ser investir mais, muito mais no social. A solução não pode ser dar ainda mais espaço e crédito para Vales e Samarcos fazerem o que quiserem, mas sim olhar para o meio-ambiente e para as populações oprimidas. O solução não pode ser criar consumidores, mas sim criar cidadãos.

A crise está entre a gente, claro, mas ela não é tão grotesca nem tão regional quanto pintam os veículos de massa; o mundo inteiro ainda chacoalha ao ritmo da derrocada financeira de 2008, quando o contribuinte foi obrigado a resgatar da falência alguns dos bancos mais ricos do mundo. É apenas uma das idiossincrasias do neoliberal, que grita por “menos estado” quando o tema é social, mas não se importa em  ver o dinheiro do contribuinte ajudando ricos.

Seja como for, de tudo mesmo o que fica para mim é o que vi na Capital Federal essa semana: os aeroportos do Brasil hoje mais parecem rodoviárias, e é lindo que seja assim.

7 pensamentos sobre “Fora democracia

  1. Também acho lindo que seja assim. Também acho lindo termos saído do mapa da fome, apresentado pela ONU, na gestão Lula. Mas para a classe média isso é irrelevante. Relevante é o pobre e negro frequentar o mesmo avião como já sabíamos e ficou nítido no incidente desta semana num avião da TAM.
    Milly, me identifico com as suas ideias. Ano que vem utilizarei alguns dos seus textos em minhas aulas. Ou recomendarei como lição de casa a leitura do seu blog. rsrs Beijos!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Adorei o texto, Milly!! Amei!!!
    Só fiquei com uma pulguinha atrás da orelha….. me diz: o aeroporto de Brasília foi entregue para o capital privado. Não será melhor se ele voltasse para o Governo? Assim, todo o lucro iria para a população e não para o setor privado. Os serviços serviços seriam com certeza melhores e mais baratos! O que você acha? Faz sentido?
    Beijocas,

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  3. Milly, FHC nao fazia parte do grupo que fez o Plano Real: ele constituiu o grupo que elaborou o plano, ele convidou todos os seus integrantes para elabora-lo. O PT fez tudo para boicotar o Real, inclusive entrando com acao junto ao STF, assim como fez tambem com relacao a Lei de Responsabilidade Fiscal. Vc pode imaginar como estaria o Brasil hoje sem essa lei, seguramente estaria como a Venezuela estah.
    Dizer que ele integrava o grupo eh desonestidade intelectual

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  4. Quem conhece o Lula pessoalmente, quem teve o desprazer de trabalhar com ele, quem teve o desprazer de ser representado por ele quando encabeçava o sindicato dos metalurgicos, sabe exatamente quem é o Lula e os seus. Quem nao o conhece coloca um monte de “ses” ou usa aquela maxima de inocente até que se prove o contrário. Não duvide. Tenha certeza de tudo o que é falado contra ele. Ah, e o fato de eu estar escrevendo isso, não quer dizer que gosto do FHC, de suas politicas ou de seu partido.

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