Comportamento/Economia/Política/Vida

Chicos, Alvarinhos e nossa morte lenta

O rapaz que abordou vulgarmente Chico Buarque na saída de um restaurante faz parte de um grupo de pessoas que acha que tudo está errado com o Brasil e que o ideal de uma sociedade é ascender ao patamar americano, abraçando a forma de capitalismo praticada pelo país mais rico do mundo e depois disso acelerar sem olhar para trás. Se deu certo lá, eles pensam, tem que dar certo aqui; imitemos.

De fato “deu certo lá” por muito tempo, mas faz um tanto de anos que não dá mais certo lá.

A medição de “não deu certo” deixou de ser empírica. Fome e pobreza aumentaram em algumas das maiores cidades americanas, e com elas a população de moradores de rua.

A constatação vem de estudo recém divulgado pela U.S Conference of Mayors, uma comissão de prefeitos de 22 cidades que se propôs a analisar o aumento do número de moradores de rua no período de um ano – de setembro de 2014 a setembro de 2015.

A análise Hunger and Homelessness Survey (link no final desse texto) mostra que as cidades que mais tiveram aumento de moradores de rua foram, pela ordem, Washington, Seattle e Los Angeles.

Um dos motivos apresentados por alguns dos entrevistados para ter ido morar nas ruas ou recorrido a abrigos público noite após noite foi o de ter um emprego que paga mal.

Essa é, entre todas as razões, a mais chocante porque ela indica que há pessoas morando na rua que estão empregadas, mas o emprego remunera tão miseravelmente que elas não podem bancar um aluguel.

São pessoas que não entram na lista de “desempregados” e quando se comemora a queda dos índices de desemprego nos Estados Unidos comemora-se esse tipo de coisa: o ser humano está empregado, mas ainda assim vive na miséria, e sobre isso não se fala.

Outros dados assombrosos da mesma pesquisa:

Uma em cada três crianças em Washington D.C mora em uma casa que tem dificuldade em colocar comida na mesa;

O percentual de famílias morando nas ruas de Washington aumentou 60%;

18% da população de Washington, DC, vive na pobreza;

Um quarto da população de Chicago vive na pobreza (a população é de 2.8 milhões);

Mais de um terço da população de Cleveland vive na pobreza;

O percentual de indivíduos que mora nas ruas de Dallas aumentou em 50%;

O percentual de indivíduos que mora nas ruas de Los Angeles aumentou 16%;

30% da população de Providence (que é de 80 mil pessoas) vive na pobreza;

Pedidos de abrigo em Santa Barbara, uma das cidades mais ricas da California, aumentaram tanto que hoje os abrigos estão tão cheios que é preciso acomodar os moradores de rua em cadeiras e pelos corredores.

Esse é o atual retrato do país mais rico do mundo, um no qual 40 milhões de seres humanos vivem na pobreza. Esse país ainda é usado como exemplo de esplendor econômico, o ideal de milhões de Alvarinhos.

Chico foi moralmente agredido enquanto saía de um restaurante sofisticado no Rio porque é um homem de esquerda e petista. Que alguém de esquerda tenha dinheiro e vá a restaurantes caros é inaceitável para Alvarinhos, um tipo que não sabe que a ideia de que socialistas/comunistas não podem frequentar lugares caros e chiques fica no jardim da infância da cognição político-econômica.

É hora de começarmos a olhar para o capitalismo como um sistema econômico capaz de gerar riquezas fantásticas mas incapaz de distribuí-las.

Um sistema econômico que nos conduz para a realidade distópica de um mundo no qual 60 homens têm a mesma riqueza de 3.5 bilhões de pessoas não deu certo. Não deu certo lá, nem aqui, nem em lugar nenhum.

O que vai substituir o capitalismo ainda não temos como saber, mas já sabemos que é preciso que um novo sistema econômico nasça, e nasça logo. A alternativa é morrermos uma morte lenta e terrível, e agredindo-nos uns aos outros.

Link para o estudo Hunger and Homelessness Survey aqui. Eu recomendo que acessem.

6 pensamentos sobre “Chicos, Alvarinhos e nossa morte lenta

  1. a grande questao para mim , é que o projeto desenvelvimentista implementado pelo PT, ao longo de seus mandatos, não foge disso. hj, nos debatemos entre uma direita (chamemos assim para fins didáticos) de burrice ideológica, e uma esquerda partidária (chamemos assim p mesmos fins) de burrice pragmática -que nao se debruça sobre problemas esruturais importantes. e isso nos gera uma grande perda…

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  2. Boa noite,

    Eu concordo completamente com com a parte final do seu texto. O Capitalismo, na sua forma atual, falhou. Junta-se, portanto, ao modelo comunista implementado no séc. XX. É necessário algo novo.

    Mas percebi um problema em seu artigo.

    Enquanto você diz que “Esse é o atual retrato do país mais rico do mundo”, no próprio estudo aparece que “These cities do not constitute a representative sample of U.S. cities, and the data reported reflect only the experience of the cities responding to the survey. This report, therefore, should not be interpreted as a national report on the
    problems of hunger and homelessness”.

    Pode parecer um preciosismo da minha parte, mas acredito que uma linha argumentativa deva ser integralmente sólida.

    Fica mantida, contudo, a incompatibilidade entre o “título” de país mais rico do mundo e os números apresentados pelo estudo.

    Na esperança de ter contribuído ao menos um pouco para a discussão, me despeço.

    Cordialmente,

    Carlos Pinheiro

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  3. Valeu Mily, como sempre muito lúcido teu texto, que bom ver esta estatística da realidade do “império”, e também que estão aperfeiçoando os “modelos de acumulação da riqueza”, certamente esta atitude gananciosa e voraz vai acelerar a bancarrota deste “modelo perverso” tão cultuado pelos Alvarinhos e tantos … zinhos que não sabem quanto custa um quilo de pão, assim não sabem nada da vida, pois estes seres de nada valem são uns páreas sociais, e logo, logo vão ter que ir para miami pois aqui vai ficar difícil para eles … !!!

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  4. Bom, lá pode não estar mais dando certo, como diz vc, mas continua com um milhão e meio de brasileiros morando lá. Os mexicanos continuam tentando atravessar a fronteira e os cubanos continuam atravessando a nado. Nunca soube de um norte americando tentando atravessar para o mexico, nem ir nadando para cuba ou dando o jeito de se mandar para governador valadares. Nem nunca soube que o real influenciasse o dolar….É o dolar que vale quatro reais e não vice versa.
    Boas festas.

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