Comportamento/Economia/Política

A crescente decadência do império americano

Quando Obama veio a público com seu já celebrado último discurso do State of The Union, que a grande imprensa brasileira considerou muitíssimo bom, ele disse, entre outras maravilhas, que durante as suas duas gestões a taxa de desemprego caiu de 10% para 5%. Aplausos e mais aplausos foram ouvidos. Dito assim parece mesmo um feito.

O que Obama omitiu, mas que o economista Richard Wolff não deixou passar durante uma recente aula dada em Nova York, é o seguinte.

A desigualdade social aumentou demais nos últimos oito anos, ou durante as duas administrações de Obama. “Qualquer análise econômica que omita isso é no mínimo estranha”, disse Wolff (o vídeo da aula está no final desse texto).

Há muitos índices que comprovam o que diz Wolff, e eu já escrevi a respeito aqui mesmo, mas nem é preciso uma avaliação científica: basta que se ande por qualquer grande cidade americana para ver a perturbadora quantidade de moradores de rua. Muitos deles, como revelou pesquisa recente, são pessoas que até trabalham, mas que não ganham o suficiente para bancar um lar – embora entrem na estatística de “cidadãos empregados” da qual Obama se gabou.

Outras omissões no discurso: a enorme instabilidade econômica dos últimos oito anos, as crises e falsas recuperações, e as injustiças de um sistema que resolve problemas causando outros.

Wolff deu o exemplo da cidade de Flint, um subúrbio da falida Detroit, que quebrou depois que as maiores montadoras americanas perceberam que produzir carro em países “em desenvolvimento”, pagando muito menos para o trabalhador e em impostos, seria mais lucrativo– só uma das belezas de um sistema econômico perverso que permite que 20 executivos decidam, em nome do lucro, o destino de dois milhões de seres humanos (segundo Wolff a população de Detroit hoje está reduzida à metade).

Na  falida e abandonada Flint a classe política achou que seria econômico deixar de usar a água do lago Eire, que é limpa, e passar a usar a água do rio Flint para abastecer a população. Ocorre que o rio Flint foi, por décadas, usado como depósito de lixo das montadoras que um dia habitaram Detroit e suas águas estavam, portanto, contaminadas. Resultado: a população de Flint começou a ter sintomas de variadas doenças e algumas crianças agora têm danos dos quais jamais se livrarão.

Outro claro sinal da decadência: com Obama, a dívida estudantil americana ultrapassou pela primeira vez a casa do 1.3 trilhões de dólares, o que significa dizer que 70% dos recém-formados já entram para o Mercado de trabalho devendo para algum banco.

Desses apenas 37% estão conseguindo pagar a dívida; o restante está rolando e vendo o buraco crescer. Trata-se, nas palavras de Wolff, de um desastre, e alguns economistas chamam o débito estudantil de “a nova bolha” (quem quiser saber mais a respeito do desastre pode assistir o documentário Torre de Marfim.)

Claro que nada disso foi analisado por Obama em seu celebrado discurso, muito menos amplamente debatido por aqui porque ainda temos a necessidade de manter uma imagem sólida e saudável da nação que justifica, contra todas as evidências, a beleza do capitalismo.

Só que quando a análise é feita como Wolff costuma fazer fica evidente a razão pela qual o azarão e socialista Bernie Sanders ameaça o reinado de Hillary Clinton na corrida por uma vaga na disputa presidencial pelo partido democrata: a noção de que o sistema faliu até mesmo no lugar onde ele por mais tempo reinou – a América – já ganhou as ruas, e o único candidato que, como diria meu amigo Jão, “marromeno” traz alguma proposta de transformação social é Sanders. Por muito menos desigualdade social Luis XVI perdeu o trono e a cabeça.

Veja aqui a aula de Richard Wolff.

Um pensamento sobre “A crescente decadência do império americano

  1. Já não vou aos States há mais de 10 anos. Estive por lá uma dúzia de vezes e hoje não há nada que me interesse nos EEUU além do Blues. Sempre que me permito uma viagem internacional o meu destino é invariavelmente um país europeu. Adoro cidades como Londres, Berlim e Porto. O que me lembro dos EUA é uma classe média anestesiada com um razoável padrão de conforto. O que eu não consigo entender é como eles conseguem manter, não sei até quando, a qualidade de vida e uma infraestrutura que funciona com esse nível de endividamento e com o aumento da desigualdade social. Pra mim é um mistério.
    P.S. Há tempos que não visito o seu blog (se arrependimento matasse…-já o fiz com outro nick: Zapper). Mais pessoas deveriam prestar atenção ao que vc diz. Abs.

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