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Sobre os supostos vinhos caros de Lula

Existe uma pergunta mais fundamental do que “Qual a real relação de Lula com o tal sítio?” que é “Por que a mídia e a Polícia Federal se preocupam tanto com o sítio usado por Lula, mas ignoram a casa dos Marinho erguida ilegalmente em área de preservação?”

A resposta esclarece um universo de coisas.

Virar nossos rostos para o sítio que seria usado por Lula é o que quer a grande mídia. Desde que as investigações a respeito do sítio começaram já li artigos supostamente sérios sobre o que dona Marisa teria plantado na horta e sobre os vinhos caros que seriam de Lula na adega do sítio. Deixar de ver o preconceito em colocações desse tipo revela de duas, uma: alienação perturbadora ou maldade.

Embora a relação de FH com empreiteiras fosse tão ou mais íntima do que a de Lula nunca na história desse país foram atrás de descobrir como ex-presidentes conseguiram os imóveis que têm e/ou usam. Muito menos seus filhos.

E se FH tem vinhos caros em suas adegas é porque um homem fino como ele combina com vinhos caros. Já um cabra nascido em Garanhuns não pode, claro, ter vinhos caros.

FH ter um filho fora do casamento é normal; Lula ter um filho fora do casamento é um escândalo.

FH ser visto carregando na cabeça um isopor seria apenas exemplo de simplicidade singular (ainda que a cena seja inimaginável), mas a imagem de Lula carregando um isopor não o associa à simplicidade, apenas à vulgaridade.

Se você ainda não foi capaz de detectar a quantidade de preconceito que mora nas entrelinhas do noticiário é porque ele também está em cada uma de suas células.

Os grupos de mídia que controlam a distribuição da informação no Brasil pertencem e meia dúzia de famílias. São famílias bilionárias que, por razões óbvias, não se interessam por coisas como taxação sobre grandes fortunas, reforma da mídia, redistribuição de renda, e que portanto não farão alarde sobre isso. São famílias que estão muito felizes com as coisas como elas estão hoje e lutam arduamente, manchete após manchete, para que a concentração de renda e de poder sejam mantidas.

Nos Estados Unidos a coisa não é diferente. Noventa porcento da mídia pertence a seis corporações (Viacom, News Corporation, Comcast, CBS, Time Warner e Disney). Quase todas apoiam Hillary Clinton, e deixam isso claro doando bastante dinheiro para ela.

O monopólio midiático, aliás, só existe por lá porque Bill Clinton, em 1996, assinou o “Telecommunications Act”, lei que passou a permitir fusões e que mega-corporações pudessem comprar canais de mídia pelo país.

A lei foi aprovada depois de lobby das corporações de mídia, e, segundo o Fairness and Accuracy in Reporting (FAIR), foi essencialmente “comprada” pelo lobby realizado por essas corporações.

Nesse cenário altamente pró-Clintons o socialista Bernie Sanders, que quer taxar corporações e bilionários e acabar com o monopólio da mídia, jamais alcançará na imprensa a plataforma necessária para ter suas ideias divulgadas. É o velho ditado: “mídia rica, democracia pobre”.

Então é fundamental que ao ler o noticiário a gente mantenha o olhar crítico e não se deixe levar sem refletir. Sair por aí comentando o sítio do Lula como se esse fosse o maior problema do Brasil, ou exemplo máximo da corrupção nacional, faz de você um robô das grandes corporações.

É óbvio que se Lula aceitou receber um sítio de presente de empreiteiras, mesmo depois de deixar a presidência, ele teria cruzado uma fronteira moral, e isso é condenável. Se aconteceu, não há como defendê-lo aqui. Mas o problema do Brasil passa longe de um sítio que teria sido dado de presente a um ex-presidente por empreiteiras. O problema do Brasil, e do mundo hoje, é a tentativa desesperada das mega-corporações e de seus donos bilionários de desviar nossa atenção das coisas que realmente importam.

Enquanto a população estiver passiva e apática, direcionada ao consumismo e ao ódio pelos mais vulneráveis, os poderosos podem seguir agindo como bem entenderem, diz Noam Chomsky.

É precisamente o que estamos vendo a mídia fazer com o sítio usado por Lula. Continuar a falar dele, e a usar abundantemente a máquina e a verba pública para investigá-lo, é seguir manipulando a massa para que ela não olhe para o lado e veja o real problema: a enorme concentração de renda e de poder que hoje está na mão de meia dúzia de bilionários que querem tudo menos ver o Brasil mudar.

Para saber sobre a casa dos Marinho erguida em área de preservação clique aqui.

5 pensamentos sobre “Sobre os supostos vinhos caros de Lula

  1. Os “socialistas”, no Brasil, estão no poder por mais de 2 decadas. Por quê, até hoje, as grandes fortunas nao foram taxadas? A RF sabe ate a cor da cueca q uso em determinado dia do ano mas nao consegue ver o que esta sendo escancarado por uma investigação simples. Isso q eu chamo de parcialidade, não fofocas.

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  2. Pingback: Sobre os supostos vinhos caros de Lula « Associação Rumos

  3. Isso, toda a mídia vai virando com a mão o rosto da galera pro lado, em uma única tarde você consegue observar dezenas de noticiários sobre as riquezas ilegais e/ou amorais da família lula, mas e as outras famílias poderosas? Hahaha, sempre se escondendo atrás do guarda chuva de acusações. O mais duro é ver amigos queridos esbravejando mil espadas em direção a essas acusações e quando confrontados com o: mas ele não fez isso sozinho, tem um pessoal mal intencionado aí que ajudou e agora tá ó, lavando as mãos, eles simplesmente desconversam e apontam outros crimes, como se um crime justificasse o outro.

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