Comportamento/Futebol/Vida

Corinthians e São Paulo: um jogo cheio de violências

Quando o juiz Luiz Flávio de Oliveira interrompeu o clássico Corinthians e São Paulo para que o capitão corintiano pedisse que a torcida retirasse as faixas de protesto a emissora que tem os direitos de imagem do Campeonato Paulista, a Rede Globo, deveria ter feito o que se espera de um veículo de comunicação: informar.

Quem estava vendo o jogo pela TV de casa, e sem acesso a redes sociais, simplesmente não ficou sabendo sobre o protesto que valeu a interrupção da partida.

São vários os absurdos aqui.

O primeiro é que seja proibido que a torcida proteste pacificamente e sem ofender grupos específicos. Era exatamente isso o que fazia a Gaviões durante o jogo de ontem. As faixas protestavam contra a CBF, contra a Federação Paulista, contra a Rede Globo e contra o desvio da verba da merenda escolar nos estado de São Paulo.

Passou da hora de entendermos violência para além de atos de delinqüência. É violência proibir um protesto pacífico em arquibancada. É violência pedir que se recolham as faixas. É violência desviar verba da merenda escolar. E é violência não informar o telespectador sobre a verdade dos fatos.

A hipocrisia de se gastar horas debatendo a violência quando grupos de torcedores se enfrentam fora do estádio ou jogadores se agridem em campo, mas de tratar como natural e normal a censura que vimos ontem é também uma tremenda violência. Uma violência praticada contra todos nós.

É evidente que não é das coisas mais agradáveis do mundo mostrar a seu público um protesto dirigido a você, mas é precisamente disso que trata a liberdade de expressão: dar voz a quem pensa diferente da gente. Porque dar voz a quem pensa igual a gente ou apenas nos faz elogios (“Filma eu, Galvão”) é coisa que até Kim Jong-Un, o ditador norte-coreano, sabe fazer.

Se a partida não tivesse sido interrompida por causa das faixas seria também aceitável que a emissora simplesmente não mostrasse o protesto, mas uma vez que o jogo parou é dever jornalístico informar o motivo.

Canais de TV são concessões federais e é apenas ético que eles, antes de qualquer outra coisa, nos apresentem os fatos. Deixar de informar deveria ser considerada atitude gravíssima. Quem via o jogo pela Globo não foi informado do protesto, e a isso podemos dar o nome de manipulação.

Até agora eu também não encontrei nada sobre os protestos no portal de esportes da emissora. Quem quiser saber o que houve ontem precisa acessar canais como os da ESPN.

O episódio do protesto censurado por FPF, Luiz Flavio e Rede Globo é apenas mais um desses que nos obriga a parar e pensar.

Tão importante quanto questionar criticamente aquilo que nos é mostrado pelos veículos de comunicação é se perguntar por que, afinal, algumas coisas não são exibidas e publicadas, e o que desejam os grupos de mídia com essas omissões.

A omissão de ontem foi dessas que salta aos olhos, mas quantas outras acontecem no dia a dia, noticiário após noticiário, e sobre as quais nem ficamos sabendo?

O acesso aos fatos deveria ser um direito, não um privilégio. E qualquer coisa que fuja disso é uma violência.

8 pensamentos sobre “Corinthians e São Paulo: um jogo cheio de violências

  1. Olá Milly,
    Sou sua leitora assídua. Apesar de não concordar com quase nada do que você escreve, tenho que admitir, você tem toda a razão sobre o evento de ontem.
    Ponto positivo!
    Abraços
    Mirelle

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  2. Olá Milly.
    Menina, como vc escreve bem!!
    Teus textos são aulas de sociologia, política, às vezes de economia e muito mais coisas, mas, sobretudo, uma redação gostosa de ser lida. Travei um primeiro contato com teu blog quando vc escreveu Eu imploro por um pouco de verdade. Li, reli, indiquei e virei teu fá.
    Obrigado pelos textos.
    Siga em frente, contribuindo com o sonho de termos uma sociedade mais justa, igualitária e respeitosa.

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