Comportamento/Economia/Vida

Três cenas de um mundo distópico

Embarquei para Nova York no dia 24 de dezembro saindo de São Paulo. Imaginava que, dada a tal crise tão comentada pela imprensa, o vôo estaria meio vazio, mas ele estava completamente lotado. Chegamos ao JFK, um dos aeroportos da cidade, às 5h40 do dia 25 e o comandante avisou que teríamos que esperar até às 6h dentro da aeronave porque a Imigração ainda estava fechada.

Fomos liberados às 6h e a mesma coisa aconteceu com três outros vôos vindos da America Latina: dois do Brasil e um do México. Dos mais de 30 guichês disponíveis para a entrevista de estrangeiros na Imigração apenas quatro estavam funcionando, o que nos obrigou a ficar numa fila enorme, dessas que ziguezagueia por metros e metros.

A fila mal andava e depois de mais de uma hora em pé algumas pessoas começaram a passar mal, mães que precisavam amamentar sentaram no chão e pais com crianças pequenas tentavam administrar a inquietude.

Bem na minha frente uma menina de uns cinco anos perguntou ao pai o que eles estavam fazendo ali. Ele disse: “viemos passear” e ela começou a gritar: “Não quero passear! Não quero passear! Quero a minha casa”.

Quando finalmente chegou a minha vez de ser entrevistada eu tinha ficado um total de duas horas e vinte minutos em pé na fila, tempo durante o qual a massa se manteve passiva e conformada.

Ficar duas horas em uma fila de órgão público no Brasil faria com que a mesma massa se revoltasse, mas na gringa a tormenta parece apenas aceitável.

De volta ao Brasil, fui fazer compras no Extra do Itaim, em São Paulo. Lá dentro um calor ancestral fritava cérebros. Ao passar pelo caixa, suando, perguntei a ela por que estava tão quente: “Dizem que o ar quebrou”, respondeu a moça do caixa. “A que horas?”, perguntei. “Desde o começo do verão”, ela disse baixinho.

Inconformada, saí pelo estabelecimento para confirmar com outros a informação.

Falei com seis funcionários, que disseram a mesma coisa: “Todos os dias eles dizem que quebrou”. Uma senhora, que pediu para não ser identificada, como todos pediram, implorou para que eu fizesse uma reclamação por escrito. Um empacotador, rindo, me instigou a ir ver se o ar condicionado dos executivos do Extra também estava quebrado.

Perguntei a uma das funcionárias por que eles não se uniam para exigir que o ar fosse ligado ou consertado, e ela disse: “Tá maluca? A gente tem medo, dona. Precisamos do emprego”.

Não é preciso ser muito inteligente para especular que um grupo de diretores, vendo a conta de luz ficar a cada dia mais cara, decidiu que seria razoável, em nome do lucro e do bônus, desligar o ar-condicionado a despeito do sofrimento diário que o calor pudesse causar aos funcionários.

Dias depois, no metrô da Consolação, em São Paulo, o fim de tarde de uma segunda-feira chuvosa me fez enfrentar uma fila de meia hora para recarregar o bilhete único. Uma solitária funcionária fazia a recarga e ao lado dela havia dois guichês vagos.

Estivessem os guichês ocupados é de se imaginar que a fila poderia ser reduzida a menos da metade. Também fica fácil supor que máquinas que fazem a recarga automática poderiam diminuir a fila, mas a única máquina de recarregar automaticamente o bilhete estava quebrada. Enquanto a plataforma ia ficando abarrotada a voz do alto falante pedia que utilizássemos moedas “para diminuir o tempo de fila”.

Culpar o cidadão pelas mazelas da vida é uma das belezas do capitalismo. Somos gordos porque não nos exercitamos o bastante, e não porque os alimentos baratos e disponíveis são abarrotados de açúcar. Somos pobres porque não nos esforçamos o suficiente, e não porque o sistema é desenhado para concentrar a renda na mão de pouquíssimos. Temos Zica ou Dengue porque deixamos água parada em casa, e não porque nossos governos foram incapazes de tratar o assunto com a seriedade que ele merecia quando tudo estava começando.

Ao passar pela catraca, notei que embora não houvesse pedacinhos de chão à mostra já que o espaço estava coberto por milhares de pés em movimento, havia uma faxineira, vestida de faxineira e com uma redinha na cabeça, varrendo o chão.

Nem vou comentar a esquisitice que é ver uma pessoa fantasiada de faxineira do século 18 em meio ao caos do sistema de transporte público de São Paulo, mas me pareceu absurdo que a administração do metrô considere essencial que alguém vestido de faxineira varra o chão, especialmente em horário de pico, mas não pense em colocar mais guichês, catracas e máquinas. Não sei se quem cuida da limpeza do metrô é uma empresa contratada, pode bem ser dada a paixão do PSDB pela privatização de todas as coisas, mas nem isso eliminaria a distopia da cena.

Trata-se de um mundo que pegou um desvio para o lugar errado, um no qual tudo é feito em nome do bônus e do lucro para os bolsos de uma dúzia de pessoas e em detrimento da saúde e do bem-estar de milhões, e também do planeta.

A consciência de que alguma coisa precisa mudar, e rápido, está ganhando popularidade. Falta apenas que a massa entenda que, uma vez unida e uníssona, não há nada que possa detê-la. Como antecipou Marx, a gente não tem mesmo nada a perder a não ser as correntes.

 

6 pensamentos sobre “Três cenas de um mundo distópico

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