Comportamento/Economia/Política/Vida

Quem é o inimigo?

Olhando o que aconteceu na Alemanha durante os anos 30 e 40 com a perspectiva histórica que temos hoje tudo o que enxergamos é incredulidade. Como a população deixou que um monstro daquele tipo chegasse ao poder? Como a população aceitou passivamente ser dominada e cometer crimes inimagináveis contra compatriotas? Como vizinhos se voltaram uns contra os outros apenas por compartilharem de diferentes credos e raízes?

Mas talvez não tenha havido, desde Hitler, momento mais adequado para que entendamos como o horror ganha vida e adeptos. Olhando o que acontece no mundo hoje, com a completa polarização política, fica fácil perceber em que circunstâncias nascem os monstros.

Para o linguista e ativista Noam Chomsky, Hitler chegou ao poder em um momento histórico similar ao que vivemos hoje, o que, para ele, explica a popularidade de Donald Trump.

O que nos faz entender que um maluco como Trump, e seus adversários nas primárias republicanas, sejam levados a sério, para Chomsky, é o medo e a falência da sociedade durante o período neo-liberal, esse que se sedimentou quando o mundo esteve sob o domínio do dueto Reagan/Thatcher. “As pessoas se sentem isoladas, sem esperança, vítimas de forças poderosas que elas não entendem e sobre as quais não têm influência”, diz Chomsky.

Ele lembra que embora a pobreza e o sofrimento fossem ainda maiores nos anos 30 havia também, entre a população mais pobre e desempregada, uma sensação de esperança que está em falta agora em parte porque existia, naquela época, forças políticas que não pertenciam à polarização ideológica.

Mas atualmente, no mundo todo, os extremos ganham força e passam a normalizar absurdos e horrores como muros e cercas elétricas sendo construídos entre nações, policias militarizadas que lutam uma guerra contra a população de minorias e de pobres, corpos de refugiados, pessoas que não têm para onde ir  e morrem tentando escapar de suas distopias, chegando aos milhares a praias europeias, líderes que acham natural algemar e espancar estudantes que protestam legalmente, governos que aprovam leis que visam manter a população passiva e submissa (como as chamadas “leis anti-terror”), o domínio total da força midiática por meia dúzia de corporações que noticiam aquilo que convém à perpetuação da concentração de força, riqueza e poder, a venda de recursos naturais para essas mesmas mega-corporações, a espionagem em massa que governos e corporações fazem sobre seus cidadãos, a caça a ativistas que ousam tornar público os crimes praticados pelo dueto governos-corporações.

Fazendo uso da distância histórica que hoje temos de Hitler fica fácil saber quem, entre nós, teria se juntado a ele nos anos 30. É apenas assustador ver vizinhos que até ontem pareciam cordiais e educados fazendo eco a discursos fascistas como os de Trump e sua patota republicana, Marie Le Pen e sua gangue separatista, Alckmin e sua turma de machos-alfa.

Há décadas George Orwell escreveu sobre os perigos de um estado paranoico que seria dominado pela obsessão com o terrorismo. O problema é que fizeram uso da obra de Orwell como material propagandista contra o comunismo e isso nos impede de entender que ele falava a respeito do que estamos vivendo agora.

Orwell, que lutou ao lado de anarquistas e comunistas durante a Guerra Civil Espanhola, falava dos perigos que um estado como esse traria às nossas vidas, sendo um deles a total falta de privacidade.

Não adiantou que Manning, Assange e Snowden provassem que estamos vivendo a distopia imaginada por Orwell em 1984 porque a mídia de massa, dominada por meia dúzia de famílias bilionárias, não quer que esse recado chegue até você, então é importante vender Manning, Snowden e Assange como traidores e pessoas perturbadas, e nada além disso.

Uma nota de rodapé ainda que o rodapé esteja distante: a propósito de tudo isso recomendo fortemente que leiam Snowden, um Heroi do Nosso Tempo, do cartunista Ted Rall lançado recentemente pela Martins Fontes.

Voltando ao tema: o envenenamento é tão poderoso que tenho escutado com regularidade pessoas dizerem que não se importam com a falta de privacidade porque não têm nada a esconder.

Duas observações sobre a perigosa colocação acima:

  • Nas palavras do articulista conservador do New York Times, David Brooks, que dessa vez acertou em cheio: “É preciso que dentro de cada pessoa haja uma zona íntima que os outros não vejam. É preciso que haja uma zona na qual pensamentos em formação e emoções delicadas possam crescer e se desenvolver sem serem expostos ao olhar brutal da avaliação pública. É preciso que haja um espaço particular dentro do qual você possa compartilhar dúvidas e segredos, expor suas fraquezas com a expectativa de que ainda assim será amado, perdoado, apoiado”.
  • Espionagem é um ato que se pratica contra o inimigo apenas.

E essa segunda explicação talvez esclareça as coisas de forma apavorante: há de fato um inimigo solto por aí como governos “democráticos” tentam nos fazer crer. E ele somos todos nós: a população.

O livro de Rall termina com uma declaração de Snowden que a mídia preferiu não ecoar. Em entrevista dada em abril de 2015 a John Oliver, Snowden foi perguntado se sentia saudade de casa. Ele deu uma resposta contundente, mas só a primeira parte dela foi alardeada pela imprensa. Na primeira parte ele disse: “Sinto falta do meu país, da minha casa, da minha família”.

A parte que não foi repercutida dizia: “Mas meu país é algo que trago comigo. Ele não é só um território geográfico”.

Aqui a entrevista na qual Noam Chomsky compara o momento atual ao da ascensão de Hitler

4 pensamentos sobre “Quem é o inimigo?

  1. Muito interessante porque ontem mesmo eu falava com uma amiga comparando este Trump ao Hitller!!! Como esta sociedade se permite chegar nisso? E os republicanos? Nada a esperar!!! É o fim da linha política para eles! Aonde mais vão chegar? Que cheguem bem no fundo do poço e respeitem a democracia e a evolução da sociedade! Só isso!

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  2. Esse discurso é bem parecido com o que ele usava para defender o Khmer vermelho. A humilhação pública por conta do consenso de que 1,5/2 milhões de assassinatos foram perpetrados pela turma que o Chomsky apoiava e esforçou-se em defender nuca foram superados. A maioria dos negacionistas sumiram no constrangimento. Ele continua combatendo o ocidente civilizado buscando uma forma de redenção e conforto psicológico. A civilização ocidental é um monstro, seja ela ou não.

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  3. Pois é Milly, o comentário do Marcus Dias só ratifica o que vc escreveu. Que tempos tenebrosos! Como as coisas se repetem. É desalentador.

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    • Concordo! A turma da esquerda repetindo as mesmas coisas esperando resultados diferentes – e chamando quem discorda de fascista.

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