Comportamento/Economia/Política

Nada mais será como antes

Eu não tenho como saber se Lula é culpado de malfeitos. Até aqui nada foi provado e como nesses casos devemos presumir inocência, é o que faço. Tampouco sou contra que se investigue ex-presidente. Sou a favor. Lula não é melhor ou pior do que eu ou você e deve ser investigado. Assim como FH, sobre quem há dezenas e dezenas de suspeitas que, misteriosamente, são ignoradas (dizem que os desvios da privataria tucana, se devidamente investigados, seriam capazes por transformar mensalão e petrolão em roubo de galinha. E há pelo menos dois bons livros repletos de documentos que esclarecem como teriam se dado os desvios, mas nunca houve interesse para que fôssemos a fundo nisso).

Então o meu problema é que se investigue apenas um lado. Meu problema é que pedalinhos e antena de celular e barco de lata entrem para o debate nacional como grandes ofensas e únicas supostas provas que ligariam Lula ao crime e ignorem-se todas as pistas que podem levar a outros criminosos.

Aliás, qual é o crime mesmo? Nada fica claro, os meios de comunicação não se preocupam muito em informar, o que aumenta minha encucação: por que esse desespero para provar que Lula faz alguma coisa errada, mesmo que seja uma besteira? Aceitar presentes? Sim, seria imoral, feio, baixo… mas é crime?

Uma amiga me escreve:

“Tenho em mãos o último livro do Umberto Eco, ‘Número zero’, que é uma verdadeira denúncia do que se transformou a imprensa no Ocidente. [Eco] diz: ‘A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias’. Além disso, mostra como a direita barra-pesada (elites locais + CIA + corporações) mudou de estratégia com o fim da Guerra Fria e a queda do Muro. De lá pra cá, se especializaram em destruir e desqualificar a política — partidos, associações, sindicatos –, enquanto tratam de cooptar e dirigir os sistemas judiciários. A operação ‘mãos limpas’ na Itália foi isso. E permitiu a ascensão do Berlusconi. No Brasil, a Lava Jato tem rigorosamente o mesmo objetivo. É ou não é essa a receita? Somos todos corruptos, nenhum partido presta — especialmente o PT –, e aí vem o Moro (!!!) resolver nossos problemas?”

Eu concordo com ela e com Eco; concordo, aliás, com todas as palavras.

Na sexta-feira, logo depois que 200 policiais foram à casa de Lula e o meteram em um camburão apenas para que ele fosse depor saí a pé para fazer uma série de coisas pela rua, e sempre que encontrava alguém o papo era: “Hoje é um grande dia, não?”. Eu mantinha a calma e devolvia: “Por que?” “Ué, porque o bandido foi preso”. Eu respondia: “Acho que ele foi depor, não foi preso. Mas do que ele é culpado, você sabe? O que faz dele um bandido?”. “Ah, a roubalheira, né?” E eu perguntava: “Foi provado que ele roubou?”, e o conhecido mudava de assunto. Tive esse mesmo diálogo com quatro pessoas do meu ciclo, e nenhuma delas foi capaz de segurar o debate, ou de esclarecer qualquer coisa. Eram apenas robôs que repetiam o que o noticiário havia sugerido como verdade.

Diálogos absurdos também começam com: “Você viu quanto vale o apartamento em que o filho do Lula mora?”, o que me leva a responder: “Não vi, mas parece que os filhos do FH e do Serra moram em mega-mansões, você tá sabendo?”, e a conversa morre.

Ou: “Você viu a adega que tem no sítio do Lula? O cara bebe vinho fino”, e eu respondo: “Não, mas parece que o FH tem várias, aqui e em Paris, e com vinhos muito mais caros, você tá sabendo?”. E a conversa outra vez morre.

Que um seja proprietário de apartamento em São Bernardo, tenha quase comprado um outro no Guarujá e frequente uma chácara em Atibaia é escandaloso; que o outro more em Higienópolis e tenha adquirido imóveis em Barcelona e Paris é apenas adequado.

É preciso um esforço muito grande para deixar de ver o grotesco preconceito em observações desse tipo, feitas todos os dias pela mídia e repetidas a fartar por seus robôs-espectadores. O operário não pode comprar imóveis caros, ou beber vinhos sofisticados, porque isso é altamente suspeito, mas os aristocratas podem e seus elegantes hábitos, nesse caso, não levantam suspeitas.

Claro que é triste que homens e mulheres levemente informados saiam por aí decretando cana, ou comemorando o que, no imaginário deles, tinha sido a prisão de Lula. É a eficácia da manipulação do noticiário, “feito para encobrir”, como escreveu Eco. Quem e o que eles estariam encobrindo nesse nosso Brasil atual?

As pessoas não entendem direito o que acontece, mas repetem sem pensar que Lula é ladrão e deve ser preso. A partir daí não se sabe muito mais. Há os que tentam mostrar que estão apenas do lado do bem e dizem platitudes tolas como: “que prendam todos, de todos os partidos”.

É triste ver aquele que já foi um grande jornal colocar panfleto em editorial, chamando para o impeachment e Lula de “o chefe do bando”. Triste ver o mesmo jornal dar voz ao outro ex-presidente, tão ou mais suspeito do que Lula, e tentar pintá-lo como estandarte de todas as coisas íntegras e certas.

O operário e o sociólogo: era apenas natural que o preconceito acabasse por tratá-los com essa diferenciação, ainda que a presidência do operário, a despeito de todas as suspeitas, não possa ser comparada em qualidade à do sociólogo. Desconfiamos que todos eles tenham feito coisas erradas, mas sabemos exatamente o que fizeram de correto e, nesse jogo, Lula ganha de FH de goleada.

Não reconhecer que a Lava Jato até aqui é uma operação desenhada para pegar Lula é problema de cognição. O que não quer dizer que Lula seja inocente – talvez não seja -, mas uma operação altamente tendenciosa como essa perde a lisura e a credibilidade logo na saída. Por que tanto esforço para pegar apenas um homem? O que ele representa? Por que a necessidade de calá-lo na marra?  Por que ignorar todas as pistas que levam a Aécio, FH, Serra…? Pensar sobre essas respostas pode ajudar no entendimento do que está acontecendo.

Dois dias depois da espetacular condução coercitiva de Lula a Congonhas fica claro que houve um tremendo erro de cálculo por parte dos arquitetos da operação. Lula talvez use o episódio para renascer e sair mais forte; já escutei amigos ex-petistas dizendo que, depois dessa sexta-feira, estavam voltando a ser petistas.

Me parece que chegamos, graças a ação destrambelhada de Moro na condução de Lula a um simples depoimento, a um ponto a partir do qual não há volta, nem mais meio-termo ou a figura do isentão. É hora de escolher um dos lados, e as máscaras não vão mais se segurar coladas à face.

Entrincheirados, vamos para a batalha: de um lado os que querem Lula preso, Dilma impedida e o partido que melhor representa os anseios da elite de volta ao poder. Do outro, a rapa; formada pela militância, claro, mas também pelos que ainda teimam em pensar por conta própria e buscam a verdade, seja ela qual for, doa ela a quem doer.

E eu, que nunca fui petista, digo que se nada for provado contra Lula, e se ele decidir sair candidato em 2018, vou para as ruas fazer campanha.

46 pensamentos sobre “Nada mais será como antes

  1. Milly, é realmente incrível como as pessoas repetem o que a grande mídia repercute e não e seuqer tentam pensar de forma autônoma uma única vez. É evidente que o alvo é o Lula, mas o que causa perplexidade são os argumentos reicidentes em cada discurso e que vão de pedalinho a barco de lata. A construção do cenário para levá-lo a força para depor foi algo orquestrado tão claramente e é espantoso que poucos tenham se dado conta de uma jogada tão cantada.
    É pavoroso sentir a iminência de um golpe e a a elite apoiá-lo com tanto empenho. Desde o escândalo do mensalão, ainda no primeiro mandato do Lula, deixei de ser petista. Com o vazamento seletivo de quinta-feira que construiu o momento oportuno para a condução coercitiva do ex presidente, também faço do Lula o meu candidato em 2018. É hora de dar um basta nessa impressa unilateral, manipuladora e golpista.

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  2. Milly, muito lúcido. Sua experiência é muito parecida com a de muitos brasileiros,inclusive eu. Minhas palavras com uma amiga no sábado: ” Neste contexto, se Lula se candidatar,tenho que voltar nele e ir para as ruas.” Não porque eu tenha certeza de que ele fez ou não fez tudo que dizem. Mas sim pela tratativa do problema, visando apenas o PT. É muito claro para nós que houve planejamento para as manobras. E é claro que corremos o risco de ver a direita maquiavélica, sedenta de poder, se apossar do salvacionismo. Não sei se vc viu o documentário: https://www.catarse.me/pt/listadefurnas . É apenas um dos exemplos de como a justiça está agindo em nosso país: a serviço de forças dominantes e manipuladoras, ou sendo a própria dominação.

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  3. Não existe justiça seletiva: ou ela serve para todos, ou é instrumento de coerção, atendendo a interesses de grupos. Eu não sou petista também, mas não aceito a volta daqueles que tiveram (e ainda tem) o poder nas mãos apenas a serviço da elite. Estou muito decepcionada com os rumos que o governo do PT tomou, mas não sou ingênua de acreditar no noticiário e sair por aí igual a um papagaio (triste isso). Estou muito preocupada com a política brasileira e com as eleições de 2018…lamentável.

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  4. Milly, porque “que prendam todos, de todos os partidos” seria uma “platitude tola”? Devemos desistir de esperar que a justiça seja igual para todos, ou simplesmente aceitar a maldade inerente ao ser humano e tolerar qualquer erro?

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    • Oi, Gabriel. Considero tolice porque impede que a gente entenda o que está acontecendo. Uma investigação que investiga apenas um lado não quer nos salvar, apenas nos afundar – a despeito da culpa que Lula e outros possam ter. Dizer “que prendam todos” joga a possibilidade de entendimento da gravidade do que está acontecendo para as favas. É o clima ideal para que deixemos de perceber e enxergar o que está acontecendo, e como estamos sendo manipulados.

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      • Como assim, só investiga um lado? Tem políticos de diversos partidos, além de alguns dos empresários mais poderosos do país.

        Resumindo, está na operação quem estava no poder àquele momento. E ela claramente foi planejada pra chegar ao chefão, usando a técnica “follow the money”. É que tudo indica que é o Lula que está na ponta…

        Estranho seria se não fosse, depois de 80% do partido e seus companheiros mais próximos estarem condenados, re-condenados e presos.

        O resto é chororô.

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  5. Milly, faz algum tempo que, por motivos diversos, não lia os seus posts e não tenho o hábito de comentar. Este, como todos os outros que já li, comprova que vc é uma das vozes mais lúcidas do momento.Saúde e Sorte!

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  6. Pingback: Nada mais será como antes « Associação Rumos

  7. Milly, bom dia ! Sabe, durante muitos, muitos anos fui eleitor do PT e até da pseudo-esquerda brasileira. Talvez por ter inciado minha vida profissional como metalúrgico em 1985 em uma grande industria em Sto. Amaro. Era natural que o discurso daqueles que estavam em cima de um caminhão, na porta da fábrica, fizesse sentido para mim. Pois bem, para fazer curta uma longa história, las pelos idos de 2000 e alguma coisa, a foto que vejo estampada nos jornais é a do ícone desta época abraçado com Malufes, Collors, Sarneys e afins. Hoje, sem assumir nenhuma culpabilidade prévia, o vejo as voltas com Odebreches, Camargos e afins. Assim como nosso ex não cansa de dizer que seu caráter foi formado pela sua mãe humilde, o meu foi formado por meu pai não menos simples e que me dizia sempre: “diga-me com quem andas e te direi quem és”.
    Olhando por esta ótica simples, Milly, para mim o discurso se a imprensa é isso ou aquilo, se a apuração é unilateral ou não me parece uma grande bobagem.
    Quem disse que não podia errar, errou na essência do que sempre pregou.

    Um abração !

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    • Concordo com você Marco, Fui bancária na década de 80, fiz parte do sindicato, acampei em Brasília, fiz passeata etc, Vi um partido que realmente clamava e falava a voz do povo, esse partido já não existe mais, uma pena, o poder, dinheiro, etc o corrompeu, esse partido e seus mais ilustres líderes viram e aprenderam, gostaram e aperfeiçoaram todo o tipo de manobras corruptas, apesar de ter tirado milhares de pobreza extrema, o que fica hoje? Um país em pedaços, me preocupa a máxima que vi mas entrelinhas de vários comentários: tudo bem, rouba mas faz , a justiça precisa ser imparcial e começar por algum lugar que ela possa estender seus tentáculos para todos os setores que usam de má fé, do roubo, da mentira, que todas as cabeças possam cair, que todas as máscaras sejam arrancadas , não quero ver no poder ninguém que estão circulando; Dilma, Aécio, Lula, FHC, quero sim acreditar que esse país tem jeito, que pode ser grande dentre os grandes, que seja justo com o seu povo, que possa de levantar alguém que possamos confiar.

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  8. Pingback: Zika e microcefalia trazem o aborto ao debate | Acerbo aos Domingos

  9. Mais um excelente texto. “Pena” que é grande e quem precisa ler não irá ler. O Pessoal que só le manchetes sensacionalistas nem chega perto de um texto tão bem escrito e esclarecedor. Parabéns.

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  10. Talvez Lula tenha algum esqueleto no armário. É difícil não ter, afinal é político e não santo. Querer que um político seja santo é como procurar uma virgem na zona. No entanto, até agora não foi encontrado nada e olha que ele é, provavelmente, o cara mais investigado nos últimos 12, 13 anos. O grande problema, a meu ver, é o método nazista que vem sendo empregado. Quando há um crime procura-se investigar para se identificar o criminoso que o cometeu. No caso do Lula é o contrário. Ele já foi taxado de culpado e agora se busca por um crime que ele tenha cometido. É um total nonsense. Uma inversão de valores absurda.
    P.S. Milly, concordo com 99% do que vc escreve.e estou procurando o 1% que discordo. Ainda não achei.

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  11. Mily, texto nada lúcido. Na verdade tendencioso. O que vc ainda não percebeu é que o fim desta história (prisão dos envolvidos )só trará a melhoria nosso país. Chega de impunidade. Que sirva de exemplo para todos, até para o PSDB.

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  12. Que texto excelente! Parabéns, Milly. E eu não conhecia essa análise do Umberto Eco. Absolutamente precisa, cirúrgica!

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  13. deixa eu entender…. compraram uma refinaria nos eua em 2006, bem acima do preço e ninguem sabia? tudo foi um mal entendido: gastaram 1,18 bilhoes de dolares do meu, do seu, do nosso suado dindim numa empresa que valia 42,5 milhoes!!
    ninguem é culpado por isto? é assim mesmo q deve ser? vc poderia me explicar?

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    • Lizzy querida,
      Eu até poderia, mas acredito que, diante da sua dificuldade em entender o que eu quis dizer com um simples texto, talvez não valha o esforço.

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