Comportamento/Economia/Política/Vida

Quando passa a ser aceitável falar em fascismo?

O ambiente político brasileiro hoje é dos mais vulgares porque, sem espaço para reflexão pública, o que temos por aí são manifestações superficiais carregadas de ira, ódio e preconceito, e feitas por torcidas organizadas. A vulgaridade é tão enorme que até juiz se sente livre para chamar o povo às ruas.

Mesmo aqueles que tentam se aprofundar no debate fazem isso escolhendo um dos lados, como eu. Não há nada de errado em ter lado, muito pelo contrário: mil vezes os que têm lado do que os que fingem ficar num meio termo em nome de uma fictícia imparcialidade. Mas um dos riscos de tomarmos um lado, por mais legítimo que seja, é falharmos na análise do real perigo que nos ronda.

Ao aplaudirmos as ações autoritárias de um sistema judiciário que, tomado pela vaidade, extrapolou seus limites estamos legitimando que as coisas sigam assim antes de piorarem.

É preciso sangue-frio para criticar abusos de poder contra inimigos, mas é exatamente isso o que nos torna dignos. Se hoje as instituições se vestem de uma suposta legalidade para vomitar poder sobre aqueles de quem não gostamos, e nos levam à euforia, é porque não pensamos que amanhã esse mesmo abuso de poder pode ser usado contra cada um de nós.

Quando são criados pretextos — e todos eles passam pela promoção do medo — para justificar que instituições flertem com a ilegalidade a fim de nos controlar e vigiar e censurar e invadir e robotizar inaugura-se uma atmosfera de fascismo.

Historicamente é fácil perceber que o fascismo se instala sempre que o capitalismo fracassa. Como o sistema capitalista tem ciclos e, de sete em sete anos (pouco mais, pouco menos) mergulha em crises que geram desemprego, miséria, medo e terror, há sempre uma brecha para que o fascismo mostre suas garras.

Uma vez ameaçado, o capitalismo se revela pelo que é: um sistema desenhado para gerar enorme riqueza e incapaz de distribuí-la, concentrando-a nas mãos de poucos. E ao se revelar pelas entranhas o sistema é exposto à luz e começa a correr o risco de ser decifrado pela maioria, o que seria o seu fim.

Aí é a hora de entrar com a propaganda e manter o véu da ignorância sobre o sistema.

Ideologicamente não se fala, por exemplo, em como no capitalismo muitos trabalham para gerar a riqueza que vai para as mãos de poucos. O discurso recorrente é: “como temos sorte de que poucos sejam suficientemente bons para gerar empregos para muitos”. É preciso vender essa ideia porque é ela que nos manterá na linha, e de cabeça baixa.

Deixemos para lá a qualidade do emprego, ou a vida que levamos tendo que nos submeter a ele. Temos sorte de ter um emprego, conseguir marromeno pagar as contas e beber alguma coisa com amigos no fim do dia.

Mas é quando o capitalismo começa a ratear que essa realidade emerge para nos bater na cara, e nessa hora o fascismo renasce como mecanismo de proteção do sistema e método para blindar a concentração de renda, o capital e o opressor.

As ferramentas são as mesmas: medo, uns contra os outros, homens brancos endinheirados ditando as regras, necessidade de proteção, censura, povo calado e ameaçado e, a mais grave, a utilização dos meios de comunicação, interessadíssimos na manutenção da concentração de renda e de poder, para executar a mágica de transformar o opressor em oprimido, e o oprimido em ameaça.

É preciso um arsenal midiático para moldar a opinião pública e, assim, fazer com que ela legitime as transgressões legais que visam manter a concentração de renda e de poder.

E então, como num filme de suspense, o bandido passa a ser mocinho e vende a ilusão de que nos salvará. Devidamente robotizados, vamos para as ruas defender apaixonadamente aqueles que nos manterão como reféns – e o sistema. De seu gabinete luxuoso e aclimatizado, separado do povo por enormes janelas de vidro, o capitalista, vestido de instituição, bebe seu whisky e aplaude.

Ontem o abuso foi com Lula, que nem réu é ainda, e dane-se porque, afinal, nem gostamos dele. Que revirem sua casa, chutem portas, o levem para depor de forma coercitiva, instalem escutas em seu quarto e sala, invadam a vida de seus filhos e de quem mais com ele se relacionar. Mas e se amanhã for com você ou com alguém do seu ciclo? Vai deixar de ser divertido porque nessa hora você entenderá a situação pelo que ela de fato é: a semente do fascismo.

Meu medo é que quando finalmente passar a ser aceitável chamar de fascismo tudo o que se comporta como fascismo então já será tarde demais.

Reconhecer e destruir formas de autoridade que não possam se justificar – e poucas delas se justificam – deveria ser missão de todo o cidadão. É o que Noam Chomsky define como anarquismo. Essa talvez seja uma boa hora para a gente entender isso.

10 pensamentos sobre “Quando passa a ser aceitável falar em fascismo?

  1. Costuma-se dizer que “de onde menos se espera é que não sai nada mesmo”. Mas, como toda regra tem exceção, o Ministro Marco Aurélio Mello hoje é a exceção. Ainda, como dizia Martin Luther King “…o que me preocupa é o silêncio dos bons”.

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  2. Incrível falar em facismo,e defender lula, que igualidade que quer pro Brasil se assemelha a da Venezuela e Cuba. Onde a riqueza se concentra nas mãos de quem governa, uma piada fazer um discurso sobre capitalismo, onde nosso governo, esse defendido por vc faz leis e legisla para os banqueiros, onde se cria impostos e mais impostos, com a promessa de melhoria na saúde e dão prioridade a copa e olimpíadas enquanto seus cidadãos morrem na fila de um hospital, hipocrisia pra não dizer heresia, cria uma lei de incentivo a cultura,e favorecer aqueles que não necessitam, e os que necessitam fica anos com seu projeto parado porque precisa dar dinheiro para Cláudia leite escrever um livro. Se no mínimo tivéssemos saúde e educação de qualidade, e olha que é o mínimo acreditaria que vc fala sério, mas por enquanto ,acho que é só mais uma querendo alguma vantagem desse governo hipócrita e corrupto!!!

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    • Olha Márcio, não tenho procuração pra defender a Milly, quem nem conheço pessoalmente, mas penso que ela não está procurando alguma vantagem por defender este Governo. Penso que ela teria muito mais vantagens se alinhando com a grande mídia. Certamente teria mais espaço e um bom salário seja na Globo, na Veja ou qualquer outro veículo. Afinal, capacidade ela tem demonstrado que não lhe falta..No mais concordo com vc que o Governo petista fez muitas concessões à plutocracia e hoje paga por isso.

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      • O correto na última frase de meu comentário é: “No mais concordo com vc que o PT no Governo, mesmo com inúmeros avanços alcançados, fez muitas concessões à plutocracia. E hoje paga por isso”. (é que dá responder de bate pronto). Abs.

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  3. Pingback: Quando passa a ser aceitável falar em fascismo? « Associação Rumos

  4. Milly, como sempre seus textos são claros e bem escritos. Concordo absolutamente com você no que tange as limitações do sistema atual. Sem dúvida tem distorções que não permitirão que se sustente por muito mais tempo (basta olhar para a Europa e ver muros sendo construídos, gente morrendo em barcos, etc..). Mas me permita discordar diametralmente sobre sua ilação a respeito da “semente do fascismo”. A semente foi gerada não por quem hoje aponta culpados a revelia, mas sim por quem tinha a obrigação de manter um sistema de governo que fosse fiel as suas bases e as suas raízes. A semente do fascismo foi gerada por aqueles que se distanciaram dos propósitos sociais do governo, aproximando-se de quem sempre foi fascista por essência e por natureza (precisamos dar exemplo melhor que Maluf e Collor ???), em nome de “governabilidade”. Essa é a raiz, Milly. Faltou dignidade e humildade a Lula, Dilma e PT para reconhecer os erros e quem sabe “despolarizar” o país. Só eles podiam ter feito isso (e ninguém teria mais cacife político para fazê-lo do que Lula). Essa mesma humildade que falta a quase totalidade desse país para reconhecer que o “nós ou eles” só nos vai levar mais longe de qualquer solução para essa m…. toda.

    Um abração

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  5. Recebi o texto sobre fascismo esta semana (início de jan/2017) e fiquei impressionada na facilidade que se tem em substituir a palavra capitalismo por socialismo ou comunismo! Encaixa perfeitamente. O ser humano só funciona em sociedade se mantiver o espírito crítico, aberto a críticas alheias e permanentemente auto crítico. Não há modelo que salve a humanidade. Só a humanidade salva a humanidade. Com controle, punição, premiação e respeito.

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