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Um dia histórico

Dilma tem sido uma enorme decepção. Fez uma primeira administração ruim e está se superando em descaso com o meio ambiente, com minorias e em austeridade nessa segunda, o que ajuda a nos afundar um tico mais. Para usar apenas uma palavra: lastimável. O PT deixou de fazer as reformas necessárias e sucumbiu aos esquemões de corrupção que há muitas décadas destroem o país. Só verdades.

Mas a passeata desse domingo 13 de março não tem nada a ver com Dilma, ou com Lula, ou com a nobre luta contra a corrupção e acho que a história tratará de colocar as coisas em seus devidos lugares e dar a elas os nomes que elas têm.

Se os problemas fossem Lula, Dilma e o PT acho que veríamos o resto dos povos vivendo razoavelmente bem. Países considerados de primeiro mundo estariam em paz e prosperando. Não é o caso.

Nos Estados Unidos a desigualdade bate recordes. Passei os últimos dois anos em Nova York e a população de mendigos chama a atenção de qualquer um. Há estudos e estudos a respeito de como as grandes cidades americanas enfrentam a crise dos sem-teto, sobre o aumento da desigualdade, sobre a população que hoje mora nas ruas, sobre famílias e crianças que não têm o que comer. Aqui mesmo nesse espaço há muitos textos sobre o tema.

O planeta inteiro vive essa crise e falar que a crise é apenas brasileira é dar a informação pela metade e sem contexto, e dar a informação pela metade e sem contexto é manipulação pura e simples. Não mudaria a narrativa se ficasse claro que a crise é mundial e não apenas nossa? Não seria interessante tentar entender por que o mundo inteiro passa por isso? Por que quando se fala da crise brasileira ela nunca é colocada em contexto? Não nos elevaria a um lugar de mais significado buscar essas respostas?

A desigualdade atinge todos os cantos e estamos mergulhados em dívidas e guerras e crises. Diariamente milhões de seres humanos tentam escapar da misérias de suas realidades, bombardeadas pelas grandes “democracias” do mundo, e vagam por aí sem pátria, sem nome, sem passado e sem futuro. Não é a toa que o zumbi é o personagem do momento.

Em larga escala somos todos zumbis, mortos-vivos comandados por corporações que se vestiram de instituição para fazer leis e comandar governos e polícias.

No meio desse barulho todo fica difícil encontrar resposta para a pergunta: o que de fato importa?

Certamente não coisas como desenvolvimento espiritual, felicidade, liberdade e criatividade – algumas das essências da natureza humana. O que importa nas sociedades atuais é crescer economicamente, e quem mede isso é o PIB. O sucesso de uma sociedade é medido pelo PIB, e nada mais.

O PIB é um troço que leva em conta gastos com saúde, por exemplo. Quanto mais gastos, melhor para a economia. Em outras palavras: quanto mais miséria e doenças melhor para o PIB, até porque não existe possibilidade de lucro em sociedades saudáveis e que vivam na mais harmônica paz.

Então a Guerra é outro grande estimulador do PIB: vamos bombardear e depois ganhamos na reconstrução. A paz não interessa porque não se ganha dinheiro com ela.

O sistema carcerário americano é privatizado e tem ações na bolsa: quanto mais pessoas presas melhor para o valor da ação

Que nome dar a um sistema adoentado como esse? Um que nos priva de nossa mais essencial necessidade: a de sermos livres e criativos.

“[O capitalismo] Rouba do homem seus direitos, aturde o seu crescimento, envenena o seu corpo, o mantém na ignorância, na pobreza, na dependência, daí institui caridades que medram sobre os últimos vestígios do auto-respeito humano”, escreveu Emma Goldman há décadas.

No mundo inteiro o capitalismo estrebucha, e o efeito colateral desse fracasso se chama fascismo. Basta que olhemos para a história: sempre que o capitalismo mostra sua ineficiência surgem líderes fascistas que, usando o medo como arma, nos jogam uns contra os outros em nome de defender o sistema, e a concentração de renda e de poder.

Em troca pedem que a gente entregue liberdades, e a gente faz de bom grado. É quando passa a ser aceitável que um juiz faça o papel de justiceiro e que polícias se transformem em polícias políticas e invadam casas e comunidades e privacidades.

Assim nascem Trumps, Le Pens, Bolsonaros, Alckmins.

Um sistema que depende do consumo e da exploração do planeta para sobreviver e que tem como inimigas a eficiência, a sustentabilidade e a preservação não pode servir a nossos sonhos.

De tempos em tempos o capitalismo mergulha em uma crise e precisa se perguntar como fazer para que as pessoas sigam com os mesmos hábitos de consumo — que é, afinal, o que sustenta o sistema — diante da crescente pobreza da maioria e de tantas evidências de que estamos acabando com o planeta.

Aí entram empréstimos e a propaganda, essa distribuída por duas vias: publicidade e noticiário. O ser humano (especialmente o endividado) é facilmente condicionado a comportamentos que sejam adequados à manutenção do sistema.

O que estamos vendo no mundo todo, com partidos de extrema direita ganhando cada vez mais adeptos, é resultado desse completo fracasso do sistema capitalista.

Um mundo no qual 60 pessoas têm a mesma riqueza de 3.5 bilhões, no qual a cada minuto cinco crianças morrem de fome, no qual milhões de pessoas perdem a vida tentando escapar de suas nações miseráveis, no qual governos que ainda têm dinheiro gastam erguendo muros para que refugiados não entrem é um mundo em completo estado de putrefação e desespero.

E o ser humano desesperado acaba aceitando ser comandado por fascistas na esperança de que haja aí uma solução para seus problemas, nem que seja em detrimento de minorias.

Engana-se quem ainda acha que o destruidor do planeta, o grande causador de violências, e da pobreza e da miséria é um governo corrupto, ou uma corporação. O causador de todos os problemas é o sistema dentro do qual vivemos. Esse é o contexto que nos é escondido pelas corporações de mídia, essa é a narrativa que está faltando. Por que? É importante se fazer essa pergunta.

E quem for às ruas nesse dia 13 com a ilusão de que está indo protestar um governo corrupto estará apenas marchando lado-a-lado com líderes fascistas e empresários de baixa índole a quem interessa apenas manter as coisas como elas sempre foram.

A ilusão de que ao tirar Dilma estaremos tirando do poder toda a corrupção é letal porque o que estaremos eliminando com isso é uma coisa muito mais importante do que uma presidente inábil: a democracia.

Caberia justamente aos mais privilegiados, portanto àqueles que tiveram as melhores oportunidades na vida, o papel de ser responsável e desafiar os sistemas econômicos que funcionam doutrinando a massa e nos privando de liberdades. Mas a classe privilegiada estará amanhã nas ruas em nome da manutenção de todas coisas: a passeata desse domingo é uma desesperada tentativa de manter vivo e operante esse sistema que concentra a renda e o poder nas mãos de poucos.

Acho que esse 13 de março entrará para a história como mais um dia da infâmia, e a manifestação será mesmo eternizada como a marcha dos corruptos, uma na qual, em pouco tempo, muitos dos presentes jurarão que jamais fizeram parte.

26 pensamentos sobre “Um dia histórico

  1. Milly, como eu já disse em outro comentário: concordo com 99% do que vc escreve.e estou procurando o 1% que discordo. Ainda não achei.

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  2. Milly concordo com vc; mas, na minha visão, todos os sistemas funcionam da mesma maneira. Esquerda, direita, e seus entremeios, fracassam a medida que deixam a corrupção gerir e justificar interesses, que começam como legítimos, para depois se transformarem em individuais ou oligopólios. Governos de direita, esquerda, teocratas, fascistas todos tem o viés da corrupção e ganância pelo poder.
    Todos tem uma dificuldade imensa de tolerar oposição, culpam a imprensa. Todos são, a sua maneira, elites e reacionários. A visão depende de que lado se esta do prisma.
    Agora a manifestação do dia 13 (apesar de eu ser contra o impeachment, pois as opções são piores tanto quanto) acho importante para demonstrar descontentamento e exercício democrático, vejo com os olhos mais amplos, apesar da dicotomia burra das redes sociais, que nada mais são que espelhos de todos nós.
    Temos que lembrar que a democracia brasileira é recente no contexto histórico. E é importante exerce-la.
    Lembro do meu contentamento em 2002 com a vitoria da esquerda. Acreditei que viriam conquistas sociais realmente profundas, não superficiais, que se embasavam justamente , por mais paradoxo que seja, no capitalismo!(Os bancos bateram records de lucro).As conquistas foram basicamente de consumo.(legitimo também, claro). Mas não foram no acesso real para a saúde e principalmente para a educação. Essa sim mal tratada por todos os governos. Pois o beneficio é demorado vis a vis os interesses eleitorais.
    Haverá gente que sairá para protestar contra a corrupção e que compra produto pirata ou contrabandeado. Haverá gente que sairá porque detesta a esquerda; que quer os militares no poder, que quer aparecer como militante no facebook,… em fim, com todos os desejos que são comuns também no “outro lado”,como num espelho, igual, mas ao contrario. Mas acredito que também sairão pessoas pensando como eu, querendo mostrar descontentamento com esse cenário político, querendo mostrar a seus filhos que é importante manifestar-se democraticamente. Querendo mostrar que desaprova que um partido, com a historia do PT, compactue com as forças mais funestas da política e usar dos mesmos meios, que sempre criticou, para ficar no poder! Mostrar que desaprova o discurso raso do “eles contra nós”. Afinal no PT também tem uma elite forte, tem reacionários, tem muitos com pensamento fascista!
    Não saio para que o partido acabe, mas para que a manifestação mostre que o partido não pode ter dono. O partido tem que representar a sociedade e não o contrario. Não pode ser refém de um único nome!
    Lula é inteligentíssimo politicamente, um mestre na articulação política, na retórica… além de ter grandes amigos. Que o PT acorde para ter outras lideranças, é importante que o partido continue.
    É por isso que sairemos no dia 13. Mas creia, também sairei para pedir investigação da merenda em são Paulo, dos trens do metro, para gritar contra a sonegação das informações de segurança. Por isso acredito que será um dia histórico.
    São muitas as mazelas em nossa política, penso ser importante mostrar que o povo deixou de ser acomodado, de reclamar só na sala de casa ou no boteco.
    Oxalá isso faça que respeitemos o exercício do voto. Que palhaços não sejam os mais votados do país. Do contrario , a máxima do “cada povo tem o governo que merece”, se perpetuará. Sairei não contra um partido, mas a favor de um inicio de conscientização política de nós, povo brasileiro.
    Um grande abraço Milly

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    • Os que saírem hoje nos protestos estarão contribuindo, uns conscientes, outros involuntariamente, para a implantação de um sistema nazista. O nazismo não caiu das nuvens, foi sendo construído. Hitler começou a sua ascensão na Alemanha lutando exatamente contra a corrupção e o comunismo (são sempre esses os pretextos, 1964 que o diga). Foi capa da Time como a Personalidade do Ano (isso remete ao Moro?)Teve a seu favor uma precária situação econômica, como aqui, e conseguiu angariar o apoio popular, inclusive de muitos judeus no início. Os judeus de então são os nordestinos de hoje por aqui. O ódio crescente nas redes sociais são prova disso. Os que saírem às ruas hoje em protesto, néscios ou mal intencionados, estarão fazendo história, mas na História estarão do lado dos nazistas. A História se repete, como farsa ou como tragédia.

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    • Obrigada pelo comentário, Carlos. Estamos passando por tempos difíceis. Gostaria de acreditar que trata-se de uma conscientização, mas não me parece ser assim. Parece estar mais para manipulação. Espero estar errada 😦
      Abraço.

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      • Olá Milly, grato por responder.
        Não creio que seja questão de certo ou errado. Você tem seus argumentos embasados e fundamentados na sua formação cultural, intelectual, coerência ideológica. Posso não concordar completamente, mas respeito sua opinião.
        Ontem vi de tudo; desde um sujeito. aparentando seus 55/60 cheio de adesivos “Bolsonaro para Presidente”, pessoas passando por cima de jardim para não ter que esperar a vez de passar etc … mas também pessoas que se manifestavam contra a maneira de se fazer política, estavam contra a presidente e seu partido, mas também fora Cunha , fora Renam. “Expulsamos” Alckmim”, não era coerente ele estar lá, tem muito oq explicar, as pessoas sabiam isso. Do modo que vejo, nem todos estavam manipulados. É claro que meu espaço amostral foi muito pequeno diante do tamanho do evento. Seria leviano e arrogante afirmar qualquer coisa. Mas ainda acho que não foi golpe oq vi ontem.
        O impedimento não virá das manifestações, cabe ao congresso. Mas acredito firmemente que a semente da importância de manifestar-se politicamente, livre e ordeiramente, foi lançada. Espero que consigamos fazer que germine; que sufraguemos congressos e assembléias melhores. Que votemos e nos manifestemos sempre, contra ou a favor, mas democraticamente.
        Bjo.

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  3. Pingback: Um dia histórico « Associação Rumos

  4. Olá Milly,
    acompanho o se blog há uns 2 anos e graças a você passei a conhecer figuras como Noam Chomsky, Richard Wolff, Danid Harvey e Robert Reich.
    Obrigado!

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  5. A classe média estará nas ruas para mudar tudo isso, pois, os que estão no poder , juntamente com a elite empresarial,fazem a manutenção de tudo que existe de ruim no Brasil.

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  6. Obrigada Milly, por sempre conseguir ampliar de forma muito clara nossa visão. Sua capacidade de analisar de forma global- o que parece local- é uma luz pra todos nós….

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  7. Sou fã de seu blog há mais de um ano, acompanho avidamente cada postagem, mas acho que nunca comentei… lamentável. Você é simplesmente espetacular. De uma clareza, uma coerência impressionantes. Pena, PENA, que o jornalismo não aceita profissionais desse nível nos grandes meios de comunicação. Perdemos todos. Obrigado por existir! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

  8. Pingback: Que Brasil a gente quer? – She Sent Postcards.

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