Comportamento/Economia/Política/Vida

Adoro minha vida, detesto o PT

Depois de dez dias de viagem cheguei da Cidade do Cabo por volta das cinco da tarde e embarquei num táxi para uma corrida de quase 200 reais entre Guarulhos e Pinheiros, o que de fato explica que minha batalha contra economias como as que o Uber representa é bastante ingrata, mas essa é outra história. Quero reproduzir aqui a conversa com o taxista porque é dessas coisas que dizem muito sobre o momento atual, e um daqueles episódios leminskianos de “preste bem atenção nas coisas que não digo”.

Depois de um período de silêncio, sempre apreciado por mim, meu condutor resolveu começar a falar. Estávamos na ponte do Pacaembu, passando em frente ao Fórum Criminal.

“Quer saber uma coisa que me deixa maluco?”, ele perguntou ciente que me diria mesmo que eu não quisesse saber. “Esse prefeito. Olha o que uma chuva de três minutos faz com os semáforos! “, disse apontando para um semáforo que piscava em amarelo. “Sabe por que?” seguiu deixando claro que era um adepto do modo “Palaia” de interagir. “Porque esse maravilhoso prefeito que nós temos decidiu que não ia trocar nenhum semáforo. Colocou um milhão de radares, mas não trocou nenhum semáforo. Sabe o que ele diz? Que os radares nos deixam seguros. Deixa quem seguro? Não me deixam seguros, nem um pouco”.

Estivesse eu na fase antiga, muito mais confrontadora, teria respondido que os radares me deixam sim mais segura e que fico muito feliz de saber que há radares pela cidade toda, assim como radiante com as novas velocidades das Marginais que nem precisam de estatística para que saibamos como foram capazes de melhorar o trânsito. Mas nessa minha nova fase zen não disse nada e balancei a cabeça como quem concorda.

“É uma tristeza o que o PT está fazendo com o Brasil, sabe? Faz pouco tempo levei minha família de férias para Nova York e posso dizer: que lugar! Sabia que lá quando tem tufão os semáforos seguem funcionando? Então. Quero que minha filha vá morar fora. Ela tem sete anos e já detesta o Brasil, então acho que ela vai mesmo”

“Que bom que o senhor pôde passar férias em Nova York”, disse já bastante amuada.

“Ah, isso é mesmo. Foi uma delícia. Que cidade incrível. Que malha metroviária!”

“Passei os últimos dois anos lá. Tem mesmo uma malha metroviária grande, mas eles não renovam a infraestrutura há muitos anos e é bastante difícil usá-la nos horários de pico. Teve dias que eu precisei sair a pé debaixo de muita neve porque o metrô não atendia à demanda. Hoje o transporte público na cidade é um problema por lá”

“Ah, mas eles têm, né? Olha nossos ônibus. E agora essa ciclovia! Olha a distância entre o meu carro o  ciclista”, disse apontando para nosso lado esquerdo para que eu pudesse constatar o horror. “O código nacional de trânsito obriga a que ciclista e motorista respeitem uma distância segura, e essa distância não está sendo respeitada. Amanhã mato um folgado e a culpa vai ser de quem?”

“Em Nova York há ruas nas quais as ciclovias são entre uma faixa de outra de carro. A distância é a mesma ou menor. E eu andei muito de bicicleta por lá já que o metrô me deixava à deriva”

“Mas lá eles têm a cultura de respeitar um ao outro”

“O senhor não acha que talvez eles hoje têm a cultura porque um dia tiveram que começar a conviver?”

“Pode ser. Mas veja quando isso começou. Na década de 80. Faz 30 anos”

“E a nossa está começando agora. Melhor começar atrasado ou nunca começar?”

“Eles são diferentes”

“São?”

“Mais civilizados”

Nessa hora eu entendi que o zen que me habita não tem uma tolerância assim tão alta para tonterias. Resolvi ser mais direta.

“Hoje em cada esquina por lá tem pelo menos um morador de rua. E estou fazendo uma conta baixa para não acabar demais com seu idealismo. A população de moradores de rua aumentou estupidamente por lá em anos recentes. E isso em todas as grandes cidades americanas. Sem falar nessa mania cultural de entrar armado em lugares públicos e sair atirando e matando, uma realidade com a qual sua filha terá que conviver quando for morar lá. O senhor não acha que em muitos aspectos somos o povo mais civilizado?”

“Olha, moça, não sei. O que sei é que comprei meu sitiozinho aqui perto de São Paulo, construí uma casa linda, crio galinhas, tenho vacas, planto shimeji, vendo bem e que isso me dá paz de espírito. Minha família e eu vamos todos os finais de semana para lá porque é o que nos salva”

“Que bom que o senhor tem esse privilégio. Não dá para reclamar da vida, né?”

“Ah, isso não dá mesmo. Vida boa demais”

28 pensamentos sobre “Adoro minha vida, detesto o PT

  1. Afi, seu Zé, no final das contas a vida boa é no paraíso que vc construiu mesmo! E é esta construção que precisamos mais e nos libertar das chatices de viver outras culturas que nao são as nossas!

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  2. V voltou com um tremendo humor,isso sim! Só de aguentar elegantemente um cara desses no seu ouvido,convenhamos… Morri de tanto rir da burrice misturada com ignorância fatídica do camarada.Adorei seu texto, como sempre.Sou fanzoca sua.

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  3. Que taxista é esse??!!! Taxista de SP que consegue passar férias em NYC e ainda tem um “sitiozinho” onde construiu uma “casa linda”… Se fosse taxista em NYC n dava para tanta regalia social…

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  4. Então quer dizer que o cara deu duro, enfrentou a guerra que é o trânsito de São Paulo, sabe-se lá quantos assaltos ou tentativas de assalto pelos quais ele passou e depois de uma vida de trabalho, as coisas boas que ele conseguiu ele deve ao PT?????? É isso mesmo, produção??? Para mim, isto se chama uma palavrinha que você e sua turma detestam: meritocracia! Nela eu acredito!!!

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    • Pois é, ele não conseguiu isso antes, porque antes ele era vagabundo? É isso?Ora, ninguém é uma ilha isolada que não dependa da interação com as condições ao redor. No caso do taxista, possivelmente ele teve acesso a mais linhas de crédito e financiamento, mais pessoas se tornaram usuárias de táxi, que antes eram mais caros etc.

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    • Muita meritocracia para conseguir uma vaga de taxista no Aeroporto de Cumbica! É só mostrar que é um taxista esforçado que ganha uma vaga, não é!

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  5. “Eu não divido comida.” Não preciso ler mais nada. Amor ao próximo não existe. Há epenas egoísmo. Melhor é dar que receber.

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  6. Hoje um combatente vendedor, diga-se representante comericial combatente da corrupção numa troca de ideias afirmou que a esposa e filha do Cunha ja estavam presas, eu não frente do computador, digitei no google, ele deu certeza que viu e ouvi. Aí eu pensei tem gente demais encabrestada e ainda pior estão simulando situações que não existem.

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  7. Milly, o que você consegue fazer é um milagre ! Falar de economia sem ser chata é entediante! É sempre um prazer estar por aqui!
    Bjs! Reginaldo

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  8. Milly, o que você consegue fazer é um milagre ! Falar de economia e política sem ser chata e entediante! É sempre um prazer estar por aqui!
    Bjs! Reginaldo

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  9. Fia, não há mais uma família em SP sem desempregados em casa. Essa estória sobre taxista milionário não cola mais. Só na cabela do Lulla os pobres viajam de avião com ojeriza dos ricos.

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  10. Há pessoas que veem sem enxergar ou vice-versa; deixam-se levar pelas interpretações alheias para formar um juízo de valor sobre algo. Parece ser o caso desse taxista. Eu, hein!

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  11. Entro nessa conversa deixando lados.

    O primeiro ponto interessante do seu texto é que me parece um privilegio falar com você, de acordo com as expressões do seu pensamento, então como falar de que devemos começar a aprender a conviver se o simples fato de uma pessoa puxar assunto já lhe dá vontade de cortar os pulsos?

    E essa foi minha entrada para provocar toda sua fúria e raiva, não leve para o lado pessoal.

    Mas de qualquer forma, o socialismo não vai garantir menos mendigos na rua, como também não o capitalismo. Digo isso pois moro ao lado da Venezuela e posso te levar lá para você ver as filas para se comprar papel higiênico. Viva la revolucion!

    De qualquer forma, pode sim existir um regime socialista que dê certo, como também um capitalista, desde que a pessoa no poder realmente se importe com a população, pois a forma que se leva o Estado é apenas uma forma, e todas tem seus defeitos.

    O ponto é que o Socialista não vê o defeito dele e perpetua injustiças, assim como o Capitalista. O problema é de quem manuseia as ferramentas.

    Assim, é errado de fato querer queimar o PT quando na verdade o problema está nos petistas, não na ideologia, e vice-versa.

    O que devemos fazer é acabar com a corrupção, e infelizmente essa loucura toda começou do seu lado, mas não se preocupe que um dia vai chegar no outro lado. Político não tem lados, eles tem contas! E o dinheiro que um dia estava com alguém do PT, passou pro PSDB e vão chegar lá.

    Ative mais seu modo zen e espere.

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  12. Há, e muitas, controvérsias sobre a relação entre o numero de acidentes nas ruas de SP e a diminuição dos acidentes. Afinal, nas estradas de SP, onde nao houve diminuição do limite de velocidade, também houve o decrescimo nos acidentes. Prefiro acreditar, especialmente sobre as Marginais, que muito da diminuição dos acidentes se dá pela diminuição do numeros de caminhoes trafegando por lá – e de pessoas que simplesmente mudaram seu itinerario – do que pela medida paliativa do prefeito de SP.

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    • Pois é, Bruno. É um desafio seguir sendo contra, mas eu sigo 🙂
      Na verdade, sou contra o tipo de economia que o Uber representa, que é essa que socializa o risco e privatiza o lucro. Mas os taxistas fazem ser um enorme desafio ficar ao lado deles. Deus meu.

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  13. Eu tento ser zen mas não consigo,este taxista é o exemplo de tolerancia zero, tem tudo na vida e continua pensando no seu umbigo.Se ele conseguisse pensar um pouco no próximo…seria muito bom.O problema é que só assistem a globo e não procuram outras informações para entender um pouco o que está acontecendo.
    Adoro ler suas matérias,obrigada.
    .

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