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Um encontro histórico que a mídia escolheu ignorar

No dia 25 de março, em Tucson, no Arizona, um encontro entre três homens que estão ajudando a escrever nossa história fez muito menos barulho do que seria razoável dada a importância do debate ali travado.

O ativista Edward Snowden, o linguista Noam Chomsky e o jornalista Glenn Greenwald estiveram reunidos por quase duas horas falando a respeito de privacidade no mundo atual. Num arranjo social isento de interesses corporativos que visam apenas o lucro e a concentração de poder econômico, o histórico encontro estaria nos primeiros cadernos e manchetes de TVs e de portais, mas esse não foi o caso. A julgar pela reação da mídia corporativa tratou-se de um encontro secreto.

Era a primeira vez que os três gigantes estavam reunidos, e falar a respeito da importância de cada um deles para nossa história é desnecessário, mas vale passar rapidamente pelo que foi ali dito.

Chomsky começou explicando como o Pentágono, com dinheiro do contribuinte, financiou pesquisas que levaram à criação da Internet para depois entregá-la à exploração da iniciativa privada em nome do lucro. Disse que a ideia dos arquitetos originais era criar uma rede que permitisse a troca de informações totalmente livre e sem custo, mas que a comercialização da Internet mudou tudo.

Escutar Chomsky falar é um enorme privilégio e há sempre comparações sagazes como: “A tecnologia é neutra, você pode usá-la para oprimir ou libertar da mesma forma que um martelo pode ser usado para construir uma casa ou estourar uma cabeça”.

Depois disso, Greenwald explicou por que decidiu trocar o direito pelo jornalismo e por que só consegue conceber um tipo de jornalismo: aquele que ajuda a evitar que estado e os economicamente poderosos atuem de forma opressora. Quando perguntando se preferia ser chamado de jornalista, de ativista ou de outra coisa ele disse que se sentia à vontade com qualquer uma dessas denominações, e brincou que tudo bem até chamarem de traidor porque o que importava era saber que estava fazendo o que devia ser feito.

Snowden, que entrou via link de algum lugar da Russia, fala com desenvoltura a respeito do por que decidiu tornar público uma série de documentos que comprovam como o governo americano, através da Agência de Segurança Nacional, a NSA, espiona seus cidadãos.

Como a mídia corporativa não dá voz a ele, muita gente ainda ignora a verdadeira extensão da espionagem praticada pelo governo americano em parceria com empresas como Microsoft, Apple, Google, Youtube, Facebook etc etc etc.

Escutar os três debatendo é como ganhar uma senha para entrar em um mundo quase clandestino de informações que nos são negadas pela grande mídia.

Snowden explica com detalhes como todas as atividades que realizamos dentro de nossas casas são coletadas e armazenadas pela NSA. A palavra “todas” é grifada muitas vezes por ele e por Greenwald, que diz que quando absolutamente tudo é coletado e armazenado fica bastante difícil discernir nesse grande bolo o que é, de fato, atividade terrorista, que é, afinal, a desculpa inicial para que estejamos sendo espionados. Snowden emenda explicando como o recente atentado terrorista no aeroporto de Bruxelas poderia ter sido evitado se as agências de segurança nacionais estivessem espionando apenas suspeitos, e não todos nós.

Greenwald completa dizendo que se o governo americano estivesse espionando apenas suspeitos de atividades terroristas jamais teríamos escutado o nome de Edward Snowden, mas que a espionagem é em massa. “Todos são espionados, tudo é registrado para o caso de um dia isso precisar ser usado”, diz Snowden. Greenwald cita 1984, de George Orwell, lembrando que o grande trunfo dos espiões ali não era estarem de fato espionando em massa, mas fazer com que as pessoas se comportassem como se estivessem sendo espionadas o tempo inteiro porque é assim que tendemos a ser mais passivos e obedientes.

Se a espionagem em massa não é feita para evitar o terrorismo, como já está provado que não é porque ela é nula nesses casos, para que estamos sendo espionados?, os três perguntam esperando que reflitamos a respeito.

Chomsky dá pistas sugerindo que quando alegam que a espionagem se dá em nome de proteção e segurança isso não é necessariamente uma mentira porque há muitos tipos seguranças e proteções; a segurança para o poder do estado e a proteção à concentração de poder econômico, por exemplo.

O debate entra para o campo filosófico ao discutir o que é privacidade, e fica ainda mais interessante. Chomsky lembra Pascal ao dizer que a raiz de toda a infelicidade do homem está na falta de um cômodo dentro do qual se possa sentar sossegado e sem ser incomodado.

Greenwald diz que levamos em consideração necessidades básicas como a de uma moradia, comida e saúde mas tendemos a não dar bola para a privacidade e conta que escuta muita gente dizer que não liga para isso porque, afinal, não faz nada de mau. É um “podem me espionar, não sou terrorista nem faço coisas erradas”.

Ele conta, para delírio do auditório, que sempre que alguém diz isso ele pede para que a pessoa então abra para ele todas as suas senhas de email e de mídias sociais porque ele gostaria de dar uma espiada nas atividades dela já que, afinal, ela não é uma má pessoa e não tem nada a esconder. “Até hoje ninguém nunca aceitou me dar as senhas”, completa.

Mas fica com Snowden a explicação mais contundente a respeito da importância de respeitarmos a privacidade humana.

“É o direito a nós mesmos”, ele diz. Para ele privacidade é o direito que está acima de todos os outros direitos, o direito ao pensamento livre, a conseguirmos entender quem somos e o que pensamos sem ser influenciado pelo que é popular ou por conceitos herdados, e que dizer que quem não tem nada a esconder não tem nada a temer é um discurso originalmente usado pelos nazistas.

E depois conclui de forma arrebatadora: “Dizer que não liga para a privacidade porque não tem nada a esconder é como dizer que não liga para a liberdade de expressão porque não tem nada a dizer”, e a plateia vai ao delírio.

Há muito mais do que isso no debate e esse resumo não faz a menor justiça ao que ali se passou, portanto por favor não fiquem apenas com ele. Tratam-se de duas horas que têm a capacidade de expandir os portais de nossa consciência e a forma como enxergamos o mundo. Não consigo pensar em duas horas melhor gastas. Aqui o link.

2 pensamentos sobre “Um encontro histórico que a mídia escolheu ignorar

  1. Milly, mais uma vez fico agradecida ao ler um artigo seu. Me tonei uma solitária, muito pouco me concedo aos outros pois se esgotou minha paciência para a mesmice gerada exatamente pelos mesmos mecanismos que promovem a falta de privacidade – e de individualidade.
    Não se trata de se achar melhor que os outros, é tão somente falta de tempo. Cada vez mais escasso, não posso me dar ao luxo de desperdiçá-lo com o que não me enriquece e, sim, me irrita.
    Eu aprecio imensamente uma reunião com pessoas criativas, autênticas, mas não aguento mais estar com pessoas que rezam pela cartilha da massificação burra a que estamos paulatinamente sendo levados nessa campanha que se utiliza da invasão de nosso espaço para achatar nossas personalidades.
    Acabei de assistir a um vídeo que tem uma forte relação com tudo isso, embora não fale necessariamente da falta de privacidade, mas a raiz acaba sendo a mesma. Foi muito interessante sair daquele vídeo e, pouco tempo depois, ler seu artigo.
    Fico sempre feliz de ler o que você escreve, pois faz eco em mim e me reitera a confiança de que a resistência inteligente persiste.

    Este é o link para o video, em inglês, legenddo em português, caso tenha curiosidade: https://www.facebook.com/alkaisersrock/videos/597188507098816/

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  2. Meu inglês (básíco) não me permite assistir a entrevista sem legendas =/
    Salvei o vídeo nos meus favoritos ^^
    Estou ansiosa para assisti-lo.

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