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Com todo o respeito aos otimistas, vai piorar

Enquanto a gente batalha para manter no cargo um governo ruim mas democraticamente eleito, é prudente não deixar de olhar o panorama maior porque se a luta pela democracia é sempre válida, o que temos hoje no Brasil  – e em quase todo o mundo – não é bem uma democracia, mas uma plutocracia, sistema de governo dentro do qual o poder é exercido pelo grupo mais rico.

Quem votou em Dilma votou pela continuidade das políticas sociais. Não foi o que aconteceu, mas acho que está bastante longe de ser tão catastrófico quanto o que pode acontecer com uma administração de valores neoliberais como a que o dueto Michel Temer e seu fiel escudeiro Eduardo Cunha farão.

Pois vejamos: estamos prestes a entregar o país a um fanático religioso como Eduardo Cunha, o grande e leal parceiro de Temer há anos. Claro que há os otimistas que acreditam que Cunha não durará muito no cargo porque, com tantas acusações graves contra ele, será colocado para fora. Todo o respeito ao otimismo, mas nada indica que isso vá acontecer. O que parece mais razoável imaginar é um cenário dentro do qual os bandidos de sempre seguirão reinando e a Lava-Jato vai morrer um pouco todos os dias até desaparecer.

Dilma está pagando caro por guinar à direita e se associar a pessoas erradas, mas ela não é a única “esquerdista” a guinar à direita. Fraçoise Hollande, o socialista que comanda a França, acaba de propor uma nova lei trabalhista que aumenta a escala semanal de trabalho e diminui o valor pago pela hora extra, para delírio das corporações. Quem conta a história é o professor de economia americano Richard Wolff. Esquerdistas vão dando passinhos para a direita porque acabam se submetendo à força do poder econômico, a favor de quem as leis são criadas.

No mundo atual, quando um governo começa a olhar para os direitos dos trabalhadores, ainda que de forma tímida, e segue sendo reeleito, a elite econômica se inquieta porque, viciada em lucrar, não pode imaginar coisas piores do que o contínuo aumento do salário mínimo, de direitos trabalhistas e de incentivos sociais aos mais necessitados. Lula fez isso como nenhum outro, e Dilma, nessa administração, começou a cortar alegando falta de caixa.

Enquanto governos dizem que estão em dívida e por isso não têm mais dinheiro para investir no social a gente fica sabendo que a elite mundial segue escondendo seus trilhões em paraísos fiscais. E nem precisaríamos dos Panama Papers para entender o tamanho do buraco.

The Hidden Wealth of Nations, livro lançado pelo economista Gabriel Zucman, mostra como os paraísos fiscais não param de crescer e de ferir a economia no mundo. Nos últimos cinco anos, Zucman conta, a riqueza escondida nesses paraísos aumentou em 25%. Em moeda estamos falando de 7.6 trilhões de dólares escondidos e livres de taxação, ou de 8% da riqueza do mundo. Tudo isso está no livro que tem prefácio de Thomas Piketty.

Até uma imbecil como eu pode calcular que se esse dinheiro estivesse em seus países de origem, sendo submetido à devida taxação, governos talvez tivessem caixa para investir no social.

Mas claro que não há nenhum interesse político para que esse tipo de crime seja investigado, ou para que as leis mudem e sejam capazes de fechar o cerco em relação à evasão fiscal, porque na maioria dos casos governantes são também os tais grandes empresários e acionistas das corporações que evadem divisas.

Parece ser o caso do primeiro-ministro britânico David Cameron, do presidente argentino Mauricio Macri e de nosso Eduardo Cunha. Mas não é o caso de Dilma, que nunca sequer foi acusada de nada parecido.

Isso já deixa clara a diferença entre eles e torna absurdamente revoltante que estejamos dando força ao que foi acusado de evasão e de outras dezenas de crimes para que ele siga com seu plano de se livrar daquela que não foi acusada nem disso, nem de outro crime qualquer.

O aspecto “religioso” da nova direita no mundo é outro horror a ser considerado – e Eduardo Cunha é apenas mais um desses personagens que falam em nome de Deus para defender o que entende como família e valores sagrados. Mas é nesse ambiente que a hipocrisia do sistema talvez melhor se revele.

Para citar um exemplo pouco usado vou falar da indústria pornográfica, um negócio de quase 100 bilhões de dólares no mundo.

Só nos Estados Unidos a arrecadação anual desse mercado chega a 13 bilhões de dólares. Como se trata de um negócio de bilhões, governos tendem a fazer vista grossa para realidades como “nossas crianças estão sendo sexualmente educadas através da pornografia”, até porque a direita religiosa não aceita sequer falar a respeito de coisas como a necessidade de se educar sexualmente crianças nas escolas, e os neoliberais seguem vomitando o “quanto menos governo melhor”.

A psicoterapeuta americana Harriet Fraad revelou em entrevista a Richard Wolff a gravidade do que acontece quando crianças a adolescentes são expostos à fartura de pornografia que temos no mundo hoje.

Algumas das adolescentes que a Dra. Fraad atende em seu consultório acham que sexo envolve coisas como estrangulamento e espancamento, e muitos meninos, educados através da pornografia heterossexual, essa que desconsidera o prazer feminino, acreditam que uma mulher quando diz “não” está dizendo “sim”, e quando diz “sim”, está dizendo “anal”. Para eles, sexo forçado é simplesmente sexo.

Se o foco fosse o ser-humano e a família, e não o lucro, já teríamos olhado para a questão da pornografia sendo usada para educar sexualmente crianças e adolescentes e pensado em estratégias para que governos intercedessem criando legislações que favorecessem a educação sexual nas escolas.

Para a Dra. Fraad, educar sexualmente crianças e adolescentes é educar o ser-humano para se relacionar com o outro de forma madura, plena e sincera e, com isso, formar famílias menos fragmentadas e com valores mais sólidos, sem falar na importância de se permitir que uma mulher engravide apenas quando – e se – achar adequado fazê-lo, podendo amadurecer antes de ser mãe. Se fizéssemos isso certamente viveríamos em uma sociedade mais harmônica e plena, com verdadeiros valores familiares.

O curioso é que aqueles que mais vomitam o blá dos “valores da família” são também os que negam às famílias, especialmente às de baixa renda, o direito de existir plenamente.

Mas esse é um problema que não é sequer comentado porque no sistema capitalista a eficiência é medida pelo tamanho do lucro, e a indústria pornográfica é, sob o parâmetro capitalista, um dos negócios mais eficientes do planeta.

Eficiência nesse sistema maluco não é medida em valores humanitários, não leva em conta coisas como relações entre pessoas, conexões, gentilezas, amor. Eficiência para o capitalismo é lucro, mesmo que ele venha em detrimento de pessoas, de relações e do planeta. E apenas como curiosidade, a Dra. Fraad diz que o Estado americano que mais consome pornografia é também o mais religioso: Utah.

Então, ao tirar Dilma por um crime de responsabilidade fictício, estamos abrindo caminho e dando poderes para dois representantes do que a política mundial tem de pior atualmente: o defensor das maravilhas da concentração de renda e do uso do fanatismo religioso como moeda de legislação.

Que Dilma e o PT tenham escolhido para sua linha de sucessão um dos grandes porta-vozes da concentração de renda e do poderio econômico no Brasil, “parceiro de todas as coisas erradas de Eduardo Cunha”, como disse Ciro Gomes, foi um erro que vai custar muito caro a todos nós. Dilma estava longe de fazer um governo voltado para as minorias e para valores sociais sólidos como seria adequado a um partido que se diz de esquerda, mas também está bastante longe de ser tão nociva para o povo brasileiro quanto promete ser a dupla Temer/Cunha.

12 pensamentos sobre “Com todo o respeito aos otimistas, vai piorar

  1. Milly, e já estamos pagando por esta “leve virada a direita”, imagina se fosse “larga virada a direita”?! Não estou nada otimista, seja qual for o caminho a ser trilhado nesta segunda-feira, nos trará grandes desafios a serem resolvidos: a polarização constante, os ritos mundiais a favor do capitalismo selvagem que já nos apontam mitos(jovens pregadores que levam muitos as ruas, juízes salvacionistas), radicais bolsonaros a espreitar nossa liberdade, bancada BBB atravancando o estado laico, mídia sedenta de manipulação pra preservar seus interesses insanos, empresas vorazes em acumular lucros para uma minoria, tentativa de privatização, diminuição de direitos trabalhistas, corrupção que abarca a maioria do sistema politico, judiciário tendencioso.

    Seja quem for assumir, e espero que seja o governo atual, menos pior, mas legitimado pelo voto, terá estes pontos a serem tratados. E eu não sei se isso seja possível cuidando apenas da ponta do iceberg(o que se vê). As camadas do iceberg, logo abaixo e no mais profundo, só serão desvendadas com uma profunda reforma política e com uma profunda análise e mudança no sistema econômico mundial.

    Ou seja, não depende só do Brasil, não depende só de partido político, não depende só do judicário, não depende só de combate a corrupção.

    Meu alento é ver o povo nas ruas e estar com o povo nas ruas. Quem sabe a gente consegue acudir o atual governo, dá-lhe uma segunda chance de trilhar à esquerda, tão somente à esquerda.

    Depois, quem sabe, possamos cuidar das outras questões, da parte debaixo da ponta do iceberg, invisíveis, mas atuantes em nossas vidas todos os dias, todos os minutos. Estas que interferem no ar que respiramos, nos rios e mares, nas florestas, na nossa alimentação, na nossa relação com as pessoas de todo o mundo, no respeito ao próximo, na distribuição da renda.

    Faz necessário uma reforma mundial, um colegiado que possa tratar do planeta de uma forma conjuntural, sem materialismo cartesiano, sem maniqueísmos e sem interesses particulares de pessoas ou nações.

    Poxa, é muita questão para pouca consciência crítica e humanitária.

    De qualquer forma, sigo meu lema: “que aconteça o melhor para todos” ” tento fazer a minha parte”.

    Obrigada pelo texto, me oferece catarse e reflexão, além de me confortar: não estamos sozinhos.

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  2. “Quem votou na Dilma votou no Temer, tinha a foto dos dois na urna eletrônica…”

    e? o Temer estava na chapa como vice, não como presidente

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  3. Estou muito pessimista.
    Se conseguirem o golpe, acho que vai haver uma convulsão social.
    E se não tiver golpe, acho que não vai ser o suficiente para acordar a Dilma e o PT. Vão continuar apanhando e tentanto agradar a quem bate neles.

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    • quando vamos acordar e perceber que o lula, o dirceu, o mercadante, a dilma… todos eles nos traíram ! conquistaram o poder na confiança e mantiveram na enganação… um dia eu disse que o Lula foi o melhor presidente do Brasil, hoje eu enxergo a desgraça que ele foi. A dilma é quase uma clandestina no navio… o presidente era pra ser o Dirceu..
      cade o Dirceu ??? só tomando muita pinga pra acreditar na inocência do pt.

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  4. vai piorar muito… mas as vezes é preciso abrir a ferida, limpar bem, medicar observar a longa cicatrização.. então, estaremos curados ! alias, sera necessária muita fisioterapia na economia brasileira… talvez seja até a oportunidade de deixar de lado rinchas sobre espectros políticos e pensarmos em um bem comum. ‘fora dilma’ é só o primeiro passo, temer/cunha/renan são os próximos.. muita coisa mudou da eleição pra cá.

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  5. Oi Milly, excelente post…você esqueceu de falar sobre a aposentadoria, que é temerosa – você “arrecada” uma certa quantia por ano e, quando para de trabalhar, essa quantia é dividida em salário/mês de acordo com sua expectativa de vida. Se você vive muito e o dinheiro acaba…E o auxílio saúde também é difícil de usar: você paga e a empresa reembolsa uma determinada quantia, mas se não tem a grana para pagar… já era!

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  6. Obrigado Milly, como sempre seu texto tonifica nossas fragilidades políticas para respirarmos e fortalece a “sabedoria” para entender a triste realidade que estamos vivendo … Depois de tantos anos de fé de esperança na possibilidade da “utopia”, innfelizmente temos uma realidade com um resultado catastrófico – do momento e do futuro próximo, pois se houver o afastamente por 180 dias da atual Presidenta estaremos recuando para um mundo de atrocidades antes mesmo do 1964 … assim, mais uma vez agradeço seu texto por ajudar nas “sofridas reflexões” do aqui e agora !

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