Comportamento/Economia/Política/Vida

“Austeridade é luta de classes”

Temer é suspeito de inúmeros malfeitos, está cercado de suspeitos de outras dezenas de crimes, é parsa de Eduardo Cunha “em todas as picaretagens” como disse Ciro Gomes, mas talvez o maior crime de Temer seja outro.

Quando Henrique Meirelles, o ministro interino da fazenda, veio a público gritar o tamanho do rombo nos cofres públicos – de fato enorme, ainda que haja indícios de que foi superfaturado – a mídia corporativa não pensou meio segundo para divulgar os bilhões da dívida.

Divulgar sem checar ou contextualizar é um trabalho de assessoria de imprensa, mas acho que esse debate caducou: qualquer pessoa com um mínimo de poder cognitivo já entendeu o papel da mídia corporativa na conspiração para derrubar Dilma.

Então, este blog localizado na periferia do mundo internético, vai tentar dar essa contextualizada, um esforço colossal porque economia me é tão familiar quanto política externa para o Serra.

Quando a dívida pública é esfregada na nossa cara da forma como foi a intenção é a de nos preparar e nos manter calminhos para as medidas de austeridade que estão sendo tomadas. Austeridade é diminuir o tamanho do estado no jogo aumentando impostos para a massa ao mesmo tempo que se cortam benefícios.

Para que o povo engula uma atrocidade desse porte é preciso uma narrativa dramática, e o governo golpista acreditar ter descolado a ideal.

Mas por que o governo está tão endividado? Essa resposta precisa envolver um cenário mais amplo do que apenas o nacional.

Faz muito tempo que os ricos entenderam que não podem simplesmente dizer “não queremos pagar impostos” porque isso não pega bem. A única forma de fazer isso é convidar toda a sociedade a ecoar o discurso de revolta contra taxações, explica o professor de economia Richard Wolff.

Um governo sem dinheiro deixa a massa exposta a serviços podres, e uma massa exposta a serviços podres pode facilmente dizer “pagar impostos por esse tipo de serviço? Tô fora”, e é assim que nascem os inocentes patos amarelos e a narrativa que os muito ricos precisam para seguir sem ser incomodados. Deixando o governo incapaz de prover serviços você está angariando o apoio de pessoas que vão evitar que haja aumento de impostos para todos, inclusive os ricos, que é o objetivo final.

Vamos contextualizar um pouco mais.

Wolff explica de que maneira governos de direita apresentam a austeridade como solução para a saída da crise.

Ele diz que todas as populações do mundo querem que o governo preste bons serviços, como oferecer estradas e parques e segurança e hospitais etc, mas não há quem se disponha a pagar impostos. Ninguém quer pagar mais impostos, então políticos se encontram na situação de ter que prover alguma coisa – porque querem se reeleger — mas de não ter dinheiro para isso. Da onde eles tiram a grana sem precisar aumentar impostos e deixar todo mundo puto? Eles pegam emprestada. De quem? De quem tem: os muito ricos, que cobram pelo empréstimo juros salgados.

Claro que vai chegar um ponto dessa história que governos estarão tão endividados que os ricos dirão “Tá doido. Não empresto mais. Sua situação é uma calamidade e o risco de você não pagar é enorme”. E nessa hora um governo de direita decide impor a austeridade, e prejudicar o povo, em vez de peitar os bilionários e tentar uma saída pela esquerda, como aumentar os impostos dos ricos e de suas corporações bilionárias.

O jornal El País recentemente noticiou que se voltássemos a tributar juros e dividendos os cofres públicos seriam engrossados em 43 bilhões. Tributar juros e dividendos seria, claro, “ferir” os muito ricos, e eles não querem isso. E apenas como curiosidade, foi Fernando Henrique, em 1995, que presenteou os ricos com a benção da não-taxação sobre lucros e dividendos.

(No final desse texto vou colocar um link para o video com a explicação de Wolff para a austeridade).

Mas sigamos contextualizando o rombo.

Há no mundo hoje cinco países que vivem sem estarem mergulhados em dívidas: Macau, Ilhas Virgens, Brunei, Liechtenstein e Palau. Os demais têm que lidar com o problema da dívida pública e da falta de vontade dos ricos de pagar impostos mais salgados.

Nas palavras de Yanis Varoufakis, ex ministro das finanças da Grécia, a austeridade tem sido usada para encobrir a velha luta de classes contra os pobres, e essa é a mesma opinião de Noam Chomsky. “Falar em reduzir o tamanho do estado quando na verdade o que você está fazendo é reduzindo impostos como os cobrados sobre heranças e ao mesmo tempo cortando benefícios [do povo] é luta de classes”, diz Varoufakis.

É o que estamos vendo no Brasil, em doses diárias e cavalares. Dilma estava longe de conseguir realizar uma saída pela esquerda para a crise, mas esse nível de austeridade ela não teria sido capaz de alcançar.

Então, de todas as crueldades de Temer e sua gangue, talvez a maior não seja continuar parceirão de Cunha, ou manter Jucá na sala ao lado, ou conspirar contra Dilma, mas impor, sem nenhum apoio popular, a austeridade brutalmente sobre todos nós, protegendo assim o santo lucro de seus colegas empresários. O golpe, aliás, foi dado também para isso.

Link para o vídeo de Richard Wolff

2 pensamentos sobre ““Austeridade é luta de classes”

  1. É assim mesmo. Por que taxar os mais ricos quando se pode cortar benefícios dos mais pobres? A lógica das classes mais privilegiadas é não pagar impostos para poder financiar o governo e faturar ainda mais. É muito difícil romper esse sistema quando a elite detém o poder da comunicação e manipula a informação. Isso em todo o mundo. No Brasil as coisas só poderão melhorar quando a Globo for devidamente enquadrada. Brizola dizia que, se eleito, o seu primeiro ato de governo seria fechar a Globo. Só assim.

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