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Morrer de desamparo

Sob qualquer ângulo que se olhe o que a prefeitura de São Paulo está fazendo com os moradores de rua é um crime. Se levarmos em conta a ideologia do prefeito Fernando Haddad, um homem de esquerda, tudo fica ainda mais absurdo.

Ao permitir que a Guarda Civil Metropolitana faça uma varredura pelas ruas tirando dos sem-teto coisas como papelões, cobertores e até colchões a prefeitura de Haddad se iguala em horror ao que fizeram higienistas como Andrea Matarazzo e José Serra, que mandaram construir rampas anti-mendingo debaixo de viadutos.

A distopia é tão real que ao argumentar que com a medida tenta-se evitar a privatização do espaço público a prefeitura acrescenta absurdo ao ridículo. O espaço público, aliás, está “privatizado” em frente a Fiesp há semanas e semanas, e nada é feito. E um prefeito de esquerda deveria sempre trabalhar com a noção de alargamento do espaço público e encolhimento do privado, e não com o oposto.

Mas Haddad argumentou que não se pode permitir a favelização do espaço público. E em nome desse argumento estapafúrdio e elitista seres humanos estão morrendo congelados em São Paulo.

Num mundo justo não haveria moradores de rua; num mundo menos escroto a prefeitura distribuiria cobertores e colchões e sopa e o que fosse preciso, favelizando tudo em nome de uma vida.

Não se vai morar na rua por ideologia, por gosto ou por amor. A rua é o último recurso de um homem ou de uma mulher desamparados pelo estado e pelo sistema. E não se recusa o abrigo que a prefeitura oferece por capricho ou mimo. Sobre isso o jornalista Alceu Castilho já escreveu brilhantemente, e o link para o texto segue abaixo.

A administração de Fernando Haddad era até aqui muito acima da média, mas não há como desviar o olhar do que ele e a GCM fizeram nas últimas semanas, e não há como, uma fez encarando o horror, deixar de se sentir devastado.

Um ser humano que morre de frio nas ruas de uma das cidades mais ricas do continente é um ser humano abandonado por todos nós. Um sistema que nos obriga a alugar nosso tempo a terceiros, e pelo emprego receber algum trocado, mas é incapaz de permitir que todos consigam fazer isso é um sistema apodrecido. Uma sociedade que não se revolta quando um ser humano morre de frio é uma sociedade adoentada.

Li algumas pessoas sugerindo que o Estado fizesse como fazem “os países desenvolvidos” e abrissem o Metrô para a população de rua durante a madrugada. Deixar o pensamento divagar por esse subsolo é ao mesmo tempo simplista e tosco. Os tais países desenvolvidos também deixam que seus moradores morram de frio no inverno; simplesmente porque não se trata de uma questão administrativa apenas, mas da falência do sistema capitalista como um todo.

Na Inglaterra em 2015 houve um aumento de 30% de mortes relacionadas ao inverno, sete mil delas atribuídas à pobreza. E Nova York, 60 mil pessoas vivem sem abrigo, o maior número da história. De acordo com o Center for Disease Control and Prevention, cerca de 35 pessoas congelam até a morte todos os anos nas ruas da capital mundial da cultura, e quase 30% dos que frequentam abrigos têm empregos, mas não recebem o suficiente para pagar um aluguel. O metrô da cidade funciona 24 horas e recebe moradores de rua, verdade, mas o frio lá embaixo não é muito diferente do frio lá de cima, e muitos sucumbem.

Um sistema capaz de gerar tanta riqueza e incapaz de distribui-la é um sistema doente. Enquanto houver pessoas morrendo de frio nas ruas de cidades ricas não poderemos nos vangloriar de muitas coisas.

E, como escreveu Viviane de Holanda no Twitter, não se morre de frio, morre-se de falta de oportunidade e de ausência do estado. Morre-se, no fim das contas, de desamparo.

Aqui um excelente texto sobre por que moradores de rua recusam o albergue.

Aqui um texto em inglês sobre a situação dos moradores de rua no inverno novaiorquino

2 pensamentos sobre “Morrer de desamparo

  1. Milly, sobre NY vc escreveu: “24 horas e recebe moradores de rua, verdade, mas o frio lá embaixo não é muito diferente do frio lá de cima”. NY tem muitos defeitos, sim, como sabemos, mas as estações de metro são aquecidas e o próprio metro também. Quando Haddad está a “desfavelização” do espaço público o que propõe como alternativa? um beijo

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  2. Pingback: Gracias, Haddad | Blog da Milly

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