Comportamento/Economia/Política/Universo/Vida

O tal do interesse nacional

 

Tenho escutado algumas justificativas para a saída de Dilma da presidência como “em nome do interesse nacional” e por uma causa maior. Golpes de estado encontram sempre justificativas que visam dizer às classes que não têm o poder econômico: “estamos fazendo isso por vocês”.

Acontece que até uma folha de alface sabe que não existe nada parecido com “interesse nacional” dado que os interesses de alguém como Jorge Paulo Lemann, por mais honesto e bondoso que ele seja, nunca serão os mesmos interesses dos faxineiros de suas empresas.

Mas é importante propagar a ficção do “interesse nacional” e algumas outras como “se o empresário estiver ganhando bem, feliz e satisfeito ele vai gerar empregos e é isso o que precisamos agora”. O mantra de “vamos incentivar os geradores de emprego” é outra dessas ficções neoliberais que visam apenas nos manter comportados e apoiando medidas e manobras que no final acabarão por nos oprimir ainda mais em nome “da geração de empregos”.

Não vou nem entrar no mérito da qualidade dos empregos gerados, a cada dia mais escravizantes, opressores, extenuantes, mal remunerados. Isso fica para outra hora. Vou falar da obviedade de que empresário que ganha mais não gera emprego, apenas acumula capital e bens. Para gerar empregos empresário precisa de demanda e não de mais e mais lucro. E se a classe média não tem poder de compra não existe demanda e portanto empregos não são gerados, apenas capital é acumulado.

Estamos caminhando para dias em que Michel Temer e sua gangue tomarão com pressa máxima medidas que visam diminuir direitos civis e trabalhistas (justificados por “o governo está quebrado, como de fato está) e, afrouxando a relação empregado-empregador, aumentar o poder de lucro do empresário em nome do “interesse nacional da geração de empregos”, atitude que aliás Dilma já vinha cometendo.

E aqui é importante dizer que Dilma fazia um governo lastimável, mas tratava-se de um governo legítimo e com alguma mínima, – mas fundamental – preocupação com leis que protegessem o trabalhador.

O que talvez nos tirasse dessa crise, que é mundial, é ir buscar a grana nos bolsos em que ela está acumulada: o dos muito-muito ricos, que deveriam ser pesadamente taxados para que pudéssemos investir mais, e não menos, em direitos básicos como saúde, educação, transporte.

Se as coisas fossem apresentadas assim a classe média que foi às ruas batalhar por causas que não são dela mas sim dos muito ricos entenderia que a luta é completamente outra. É hora de a classe média entender que tem os mesmos interesses da classe trabalhadora e não os mesmos interesses dos muito ricos.

Mas como seguir não deixando que essa história, que é tão óbvia, chegue à população?

É preciso uma indústria de mídia muito afinada com os interesses dos milionários e disposta a fabricar consensos e ilusões.

Estados totalitários controlam opiniões e atitudes pela força, estados ditos democráticos controlam opiniões e atitudes pelo noticiário. Propaga-se o medo, a falsa necessidade de proteção contra um inimigo invisível e a aceitação do controle e da vigilância.

Editoriais como os publicados por Folha e Estado no dia 2 de setembro são apenas instrumentos úteis na criação do ambiente ideal para que véus como o da lei anti-terrorismo nos cubram os olhos. Uma vez chamada à cena, e com amplo apoio popular graças à fabricação do consenso pela mídia, a lei proibirá manifestações populares “em nome da segurança nacional”. Amedrontados, aceitaremos de bom grado a proteção. Para o sucesso do golpe é fundamental que acreditemos que o inimigo é violento, que não nos unamos e não façamos barulho.

Nessa hora é preciso que nos perguntemos: a lei oferece segurança a quem? A resposta é: ao poder econômico e à classe política dominante, mas não à população.

Enquanto a mídia aplica esses cruzados nos rostos cansados do povo, a publicidade vem com o derradeiro gancho, que nocauteia ao fabricar desejos, e com eles amarra fortemente a população aos postes do consumismo e da dívida.

Não há povo mais obediente do que aquela altamente endividado, que precisa seguir trabalhando por pouco dinheiro e durante muitas horas por semana  para pagar as dívidas e que no fim do dia, exausto, não quer sequer tentar entender o que está acontecendo com o mundo, quer apenas se inebriar, ver alguma coisa na TV, de preferência boba e que não o faça pensar, dormir e começar tudo outra vez amanhã.

Quem tem tempo para ler um livro de economia? Um de filosofia? Buscar informação sobre em que momentos da história já passamos por isso, o que nos levou a tanta desigualdade social, como saímos disso? Quem tem vontade de ler os textos massudos de Noam Chomsky, que mostram com fatos e dados o que está acontecendo no mundo e como vamos nos extinguir se nada mudar? Ou o histórico livro de trocentas páginas do economista Thomas Piketty, que conclui que viveremos o caos profundo e a maior desigualdade social de todos os tempos a menos que taxemos pesadamente os ricos?

Falar dessas coisas é mostrar que a crise econômica e social não é uma exclusividade nacional, que se trata da falência de um sistema inteiro e do aprofundamento da luta de classes, outro desses conceitos que, em nome da obediência civil, nos é vendido como ficção; luta de classes, eles dizem, é apenas uma balela inventada por comunistas visando nos jogar uns contra os outros. Seu patrão é seu amigo e quer apenas o melhor para você; um homem boníssimo que foi capaz de gerar o seu emprego e para quem, portanto, você deve gratidão – e talvez alguns vales.

Mas se tudo isso for claramente exibido e provado como vamos culpar Lula, Dilma e o PT?

Em 2008 o capitalismo quebrou e começou a nos mostrar que não existe mais nenhuma relação entre ele e sistemas que se pretendem ser democracias representativas. Quem diz isso não sou eu, apenas uma pobre alma que nada de economia entende mas se esforça para encontrar explicações para o momento atual e tanto sofrimento. Quem diz isso são pessoas como Martin Wolf, colunista de economia do Financial Times e um dos mais respeitados do mundo. Em recente texto ele escreve que é hora de “repensar o que aquilo que há três décadas a elite chama de livre mercado e globalização porque a menos que façamos isso não haverá mais possibilidade de convivência entre economias ditas de livre mercado e democracias representativas”.

Ou, como explicou Noam Chomsky, hoje, a única relação entre capitalismo e democracia é a contradição.

Aqui vai pequeno exemplo de como está o mundo hoje.

Recentemente o CEO do Lloyds Bank, o português Antonio Osório, anunciou que teria que cortar 3 mil empregos. O Lloyds foi um dos bancos que participou ativamente da quebradeira de 2008 e implorou ajuda do governo, recebendo, para sobreviver, bilhões de dólares do dinheiro de impostos pagos pela população. Em 2013 o sr. Osório, à frente dessa magnífica instituição, colocou em seus bolsos 12 milhões de dólares entre salário e bônus.

Eu poderia parar, mas vou dar um outro exemplo. Harvard, a universidade mais rica do planeta e com um portfólio de 36 bilhões de dólares em ações, não é obrigada a pagar impostos. Outro dado: 90% da recuperação econômica americana desde 2008 foi para o 1% mais rico do país.

Então não é sobre Lula e Dilma, a despeito dos erros que tenham cometido. É sobre você e eu, e sobre maneiras de seguirmos oprimidos e devidamente alienados e escravizados.

A menos que entendamos isso nada de fato mudará e esse pale blue dot onde vivemos (expressão eternizada por Carl Sagan) um dia deixará de contar com a raça humana, a primeira que terá se auto-destruído; o que, diga-se, apenas o deixará ainda mais azul e pulsante.

Quem quiser saber mais pode ir às fontes que usei para escrever esse texto. Os românticos devem ir direto para o comovente texto de Sagan a respeito desse nosso pale blue dot

Wolf no Financial Times

Entrevista com Noam Chomsky: “Problemas a respeito de conhecimento e liberdade”

Aula do professor de economia Richard Wolff

Pale Blue Dot

 

2 pensamentos sobre “O tal do interesse nacional

  1. Pingback: Joesley, um campeão nacional | Blog da Milly

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s