Comportamento/Política/Vida

Um país com milhares de pequenos ditadores

 

Há dois mil anos o dramaturgo romano Terêncio escreveu “Sou homem; nada do que é humano me é alheio”, uma dessas frases que provocam porque carregam forte conteúdo moral sem cair na tentação de ser moralista.

No Brasil de Sergio Moro a frase de Terêncio não faz mais o menor sentido, mas uma outra parece fazer: “Problemas inéditos merecem soluções inéditas”, declaração tão absurda que poderia ter sido usada pelos idealizadores do nazismo para justificar todo o tipo de barbárie que eles estavam prestes cometer.

Ao dizer que problemas inéditos merecem soluções inéditas, como disse a Corte Especial do Tribunal Regional Federal da 4º Região que recentemente julgou Moro por supostos abusos e ilegalidades cometidos durante a Lava Jato, fica estabelecido primeiro que, sim, Moro está agindo fora da lei; e, depois, que ele, dado o ineditismo do problema, pode agir como bem entender, transformando-se numa versão moderna do todo-poderoso que berra “eu mando prender e mando soltar”.

O que me intriga é o que disse Terêncio: se nada do que é humano pode nos ser alheio, e se estamos aqui há dezenas de milhares de anos, que tipo de desvio de conduta pode ser inédito?

Se tem, aliás, uma coisa que no Brasil deve ser rotulada como o oposto de inédito é justamente a corrupção, o verdadeiro esporte nacional. E com ela desvios, superfaturamentos, e subfaturamento de estatal e todo o tipo de tunga em relação ao dinheiro público.

O que é exatamente inédito? Que políticos peçam propina a empresários? Que grandes empresas banquem ilegalmente campanhas políticas? Que exista uma putaria sem fim entre o público e o privado?

Há quantos séculos somos orquestrados pela corrupção? Há quantas décadas somos roubados por uma elite, política ou empresarial, que não se acanha em acumular cada vez mais patrimônio e em alargar o espaço privado em detrimento do público?

O que é exatamente inédito que justifique essas tais soluções inéditas, que vão tirando, através de espetáculos transmitidos ao vivo, a liberdade de suspeitos, por mais que detestemos esses suspeitos? É legítimo, ou mesmo moral, que submetamos suspeitos a humilhações públicas?

Sempre sonhei em ver grandes empresários e políticos de renome atrás das grades, mas não deveria haver, para isso, julgamento com amplo direito à defesa? Não somos inocentes até que se prove o contrário? Para que se tire a liberdade de uma pessoa basta o depoimento acusatório de outros?

O princípio da presunção de inocência nasceu com a Revolução Francesa como resposta a todo tipo de selvageria que era cometida contra suspeitos. Antes disso o que havia era a inquisição, uma época de infinitos abusos humanitários e para a qual hoje olhamos horrorizados.

É essa a hora de testarmos nosso apego aos valores mais básicos de uma democracia. Querer que “soluções inéditas” sejam aplicadas a pessoas que nos são desprezíveis não é conceito democrático; Stalin seria capaz de concordar com coisa parecida.

Diante do que estamos vendo não se trata mais de ser petista ou anti-petista, esquerdista ou liberal; o que importa agora é saber quem tem em si algum vestígio de respeito pela democracia e seus valores. Um só homem, movido por suas convicções e ideologia, não pode seguir mandando prender e soltar ao ritmo de seu humor. Como disse Nietzsche, o maior inimigo da verdade não é a mentira, mas a convicção.

A Lava Jato teria sido fundamental e poderia nos conduzir a um lugar de menos podridão se não tivesse se enviesado. Com a distorção da operação deixamos passar uma ótima chance de dar aquela bela moralizada na forma como se faz política no Brasil; o que estamos fazendo agora é escolhendo entre bandidos bons que podem seguir praticando sua arte e bandidos ruins que devem ser colocados para fora do sistema.

Não há problemas inéditos no Brasil, mas, ainda que houvesse, eles não justificariam soluções inéditas porque conceder superpoderes a homens e mulheres é o que pode nos conduzir às trevas, e aqueles que lá estiveram garantem que nós não quereríamos voltar.

Ser possuído por valores democráticos é exigir que até nossos inimigos sejam julgados, e tratados, com base na lei e nos ritos. Aplaudir abusos e ilegalidades porque eles são cometidos contra inimigos é coisa de ditador.

Infelizmente o que estamos vendo, aterrorizados, é que o Brasil está cheio deles.

8 pensamentos sobre “Um país com milhares de pequenos ditadores

  1. Milly, o que me assusta é que grande parte das pessoas não questiona mais o que está acontecendo no Brasil. Hoje um senhor ouviu pelo rádio o valor que foi bloqueado da conta do Palloci e disse: tem que ser preso, é um absurdo!

    Eu perguntei se ele se não achava estranho apenas petistas serem presos. Ele pensou e disse que estava errado mesmo, que todos deveriam ser investigados e presos(se culpados). Mas por aí findou-se o diálogo.

    A informação que a mídia passa é assimilada rapidamente, não há o menor questionamento sobre ela.

    O princípio científico da descrença foi substituído pela crença nos novos ditadores.

    É a treva?

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  2. Nossa, nunca imaginei que em pleno século XXI teríamos que gritar a plenos pulmões para garantir direitos básicos relacionados a cidadania e a democracia, conquistados a duras penas. Me dá medo quando muitos brasileiros e brasileiras apoiam, sem nenhum pudor ou culpa, ações típicas de ditaduras. É um mostro adormecido que foi alimentado e solto por ações midiáticas-messiânicas-imperialistas (EUA) que trará um retrocesso imenso, e que não será de fácil recuperação. O que nos resta é lutar, gritar e tentar reverter a situação… só não sei como… Obrigada por seus textos, sempre lúcidos… Isso faz uma falta danada num país em que 80% da população se informa pela Globo e associados.

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  3. Pingback: Um país com milhares de pequenos ditadores « Associação Rumos

  4. desculpa, não concordo com vc. mas finalmente apareceu um juiz que cumpre a lei, independente do cargo e status do figurão, e que prenda todos os envolvidos.

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  5. Na verdade não se trata de “um só homem”, existe uma força-tarefa da Polícia Federal, outro no Ministério Público, dezenas de pessoas envolvidas entre policiais, delegados, e procuradores. Um juiz só decide pela prisão se existe um pedido minimamente fundamentado.

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