Comportamento/Futebol/Vida

Uma palavrinha sobre a demissão do Trajano

O Trajano me irritava como poucos. Tinha dias, dependendo da Tpm, que minha vontade era ir esperar ele na saída da emissora e gritar umas verdades. Me irritava especialmente quando ele dava para criticar o Corinthians porque time de futebol é feito mãe: a gente pode criticar, os outros, jamais.

Vi o Trajano pela primeira vez na TV quando ele fazia o Cartão Verde, da Cultura. Ali ele nem me irritava tanto, talvez porque eu fosse muito jovem e estivesse mais preocupada com minha namoradas na época. Mas o Trajano da ESPN, que chegou anos mais tarde, me fazia, dada a noite de lua cheia ideal, hiperventilar. Em casa eu discordava dele em voz alta. Gritava. Mandava ele calar a boca, mas ele seguia dando sua opinião, sempre diferente da dos demais, e para o aumento da minha ira.

Havia alguns dias em que eu concordava com ele, e eu fazia isso em voz baixa que era para ele não escutar. O tempo foi passando, eu acho que amadureci e comecei a discordar dele sem tanto estardalhaço.

Não é difícil perceber que figuras públicas cheias de opinião, como é o caso dele, despertem paixões. Trajano despertou algumas das minhas, e a verdade é que isso foi bom.

Com o tempo entendi que respeito não vem do fato de ter alguém ao meu lado que sempre concorde comigo e fale as coisas que quero ouvir; respeito é ser tratada de forma moralmente equivalente ainda que não estejam me dizendo as coisas que eu gostaria de escutar.

O José Trajano não trata o telespectador como um idiota, não fala com voz infantilizada, não debocha da nossa inteligência explicando as coisas como se fôssemos de uma classe do primário de um colégio para crianças especiais.

Ele fala com a gente como se estivéssemos todos em iguais condições intelectuais dividindo a mesma mesa de bar. Fala e depois deixa que falem. Ele oferece o que poucos na TV hoje oferecem: autenticidade, verdade, pensamento original e independente.

Antes dele já haviam saído da ESPN dois outros seres humanos que vieram dessa planeta da autenticidade: Flavio Gomes e Lucio de Castro. Juntos esses rapazes compunham uma doce voz dissonante dentro da ESPN, um canal que fez fama por ser dissidente, crítico, independente e por respeitar aquele que pensa diferente – como é o caso deles.

Mas no final o sistema nunca é gentil com os dissidentes, não afaga os que pensam diferente, não condecora as vozes que ousam criar uma outra narrativa.

É uma pena. Para o canal, não para o Trajano, que vai continuar dando seu recado por aí.

E uma pena também que esse processo de gurmetização tenha chegado à ESPN. Ainda tem muita gente boa ali, mas perder o Trajano depois do Flavio e do Lucio é perder muita coisa. Perdem-se as vozes dissidentes, a capacidade de oferecer diferentes narrativas e de valorizar o pensamento democrático. Perde voz o trabalhador, ganha ainda mais a voz o patrão. Um sinal dos tempos.

Eu não conheço o Trajano pessoalmente, embora já o tenha visto no Taberna, um restaurante ao qual gosto de ir aqui em São Paulo. Nesse dia eu ia falar com ele, elogiar, dar um abraço, mas desisti para não incomodar. Ele estava sozinho no bar, conversando com os garçons e rindo. Da próxima vez que o vir ali eu vou falar com ele.

No mais, obrigada, Trajano. Obrigada por ter despertado em mim todas as paixões, por ter, durante tantas noites de domingo e de segunda, feito meu sangue correr forte pelas veias e, especialmente, por nunca ter me tratado como uma imbecil.

 

6 pensamentos sobre “Uma palavrinha sobre a demissão do Trajano

  1. Em meio há tantos comentários desnecessários e ofensivos de pessoas que não concordam e não respeitam a opinião do GRANDE José Trajano, eis que encontro um texto sensato, autêntico e inteligente sobre o assunto. No mais, só tenho a agradecer ao mestre Trajano, que assim como para você, me passou ensinamentos únicos sobre futebol e cultura, sem nem mesmo saber da minha existência.
    Parabéns pelo texto, Milly! Não há conhecia, mas passarei a acompanhar o seu blog. Abraço.

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  2. Maravilhosa leitura Milly! Sua sensatez é, além de tudo, emocionante.
    Você está certíssima, o Mestre Trajano é dessas raridades que nos despertam muitas paixões: pelos amigos, pelo boteco , pela autenticidade, pelo social; também nos desperta muitas revoltas: pelos imbecis pseudo-fascistas, pela mediocridade, pela acefalia, pela imprensa seletiva, etc.
    Quando o encontrar dê-lhe um abraço duplo, um por mim, pois dificilmente terei esse privilégio dado onde vivo, Pernambuco.
    Parabéns por suas palavras, coragem e atitude; qualidades tão raras nesse país sem luz.

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  3. Trajano era arrogante, se achava o dona da verdade e comecei a deixar de acompanhar os programas aos quais ele participava. Se ele comentava algum jogo colocava a TV no mudo e ligava na 89 a radio rock como faço em jogos não comentados pelo PVC, Mauro Betting e Claudio Carsughi, ou seja, 99 % dos jogos.

    Já dei muita importância aos comentários desse senhor e dos amigos dele, mas devido aos comentários chapa branca em relação ao PT aliado ao fato do aumento de propaganda estatal, decidi não lhe dar audiência.

    A espn se livrou de algumas malas como Flavio Gomes, Lucio e esse senhor , mas ainda faltam Kfouri, João Carlos, Mauro Cezar.

    Não sou de criticar, nem mandar email para emissoras criticando comentaristas que não gosto, ultilizo o controle remoto.

    Boa sorte ao senhor Trajano, que o América suba e que ele consiga trabalhar e ser ouvido por seus fãs e que ele possa ser ignorado por mim.

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