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O cachorro e o corpo caído na rua

Quem anda a pé por São Paulo sabe que é quase impossível deixar de passar por corpos caídos nas ruas. São normalmente homens e fica difícil às vezes saber se estão vivos ou mortos. Hoje, na região da avenida Paulista, eu me encontrei com três desses homens.

As pessoas apressadas vão e vêm pelas calçadas, algumas olham para os corpos nas ruas sem virar o pescoço; outras, atentas à tela do celular, nem os vêem — e ninguém para, nem mesmo eu, que, aliás, evito olhar.

Todas as vezes que me encontro com um desses seres humanos sinto uma mistura de compaixão, repugnância e raiva.

Raiva porque eles me obrigam a entrar em contato com alguma coisa em mim que é desprezível, que é a incapacidade de fazer alguma coisa, qualquer coisa; abaixar, chamar o poder público, gritar, chorar.

Em vez disso, eu não faço nada, apenas sinto o cheiro que eles exalam, um cheiro de ser humano apodrecendo. Mas não apenas o cheiro que a carne que está morrendo produz, trata-se de um cheiro ainda pior e mais incômodo, que é o cheiro do abandono social, da solidão, do ser humano que desistiu porque foi desistido. E todo esse cheiro me causa náuseas.

Uma versão menos tosca de mim pararia e daria a essas pessoas algum conforto porque às vezes ser visto e reconhecido basta por um pouco. A maior violência que podemos cometer é não reconhecer a humanidade do outro, uma que cometo todos andando a pé por São Paulo.

Hoje são, segundo censo da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), 16 mil pessoas vivendo, ou morrendo, nessas condições na capital paulista. Dezesseis mil corpos pelas esquinas, e alguns deles já nem mais se mexem.

Tentar separar essa dura realidade da podridão do sistema econômico é uma ginástica ingrata, mas ainda há os que dizem que na história do homem e da mulher modernos sempre houve miseráveis, o que é verdade porque nunca deixou de haver luta de classes, opressão, domínio de uns sobre outros.

Passei os últimos dois anos em Nova York e o ambiente não é diferente por lá; basta que se ande a pé pela baixa Manhattan para que a distopia se faça notar. O número de moradores de rua em Nova York passa de 60 mil e a situação já é chamada de epidemia, como mostra matéria do New York Times.

Mas por aqui não há interesse em falar da deplorável situação social americana porque fazer isso seria reconhecer que alguma coisa muito errada está acontecendo com o capitalismo.

Andando pelos jardins hoje, enquanto passava por um desses corpos abandonados numa calçada da elegante alameda Itu, uma mulher à minha frente passeava com seu cachorro de porte cavalar e pêlos brilhantes e penteados. Apesar da insistência de sua dona para que a caminhada continuasse, o cachorro não sossegou enquanto não foi até o homem, que, sentindo alguém se aproximar, abriu os olhos e sorriu. O cachorro então abanou o rabo e fez festa, e assim os dois ficaram por algum tempo.

Apesar das evidências, a gente ainda teima em achar que é a espécie mais evoluída sobre a Terra.

3 pensamentos sobre “O cachorro e o corpo caído na rua

  1. O morador de rua me “afeta” muito! Não é fácil ver outro ser humano reduzido a esse estado. Gostaria de fazer algo…, mas acabo me afastando, sempre com pressa. Como diz o ditado: ” o inferno está cheio de gente com “boas intenções” como eu! Milly, obrigada pela inspiração e continue com seus questionamentos, que tanto nos provocam.

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  2. Pingback: O cachorro e o corpo caído na rua « Associação Rumos

  3. Excelente texto. Ah se essa nova espécie de “capitalista do facebook” soubesse que nova york não é só a times square ao som de sinatra kkk

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