Comportamento/Economia/Vida

Seremos todos devorados

Fico sempre muito feliz quando um desses delatores confinados em alguma masmorra de Curitiba delatam políticos e empresários que de alguma forma participaram do processo de Impeachment ou estão cravados em nosso imaginário como bandidos, pilantras e safados.

É delicioso escutar coisas como: Skaf recebeu propina; Serra recebeu uma bolada na Suiça; Temer levou para casa um cheque nominal de 1 milhão de reais, Aécio.. bem, Aécio é o campeão das delações. E delicioso também ver Garotinho e Cabral em cana.

Mas, passada a euforia, lembro que esses homens — hoje supostos ladrões, amanhã celebrados delatores — estão presos sem que tenha havido um julgamento completo, sem que saibamos exatamente o que está acontecendo pelos porões dessa tal prisão em Curitiba, sem que voltemos a ter notícias deles; e a imagem me arrepia porque penso em outras épocas durante as quais suspeitos eram presos para que confissões fossem arrancadas, e elas foram algumas das mais grotescas da história.

A mentalidade inquisitorial é capaz de nos conduzir a lugares sombrios, mesmo que acabemos escutando do delator finalmente um depoimento que contenha tudo aquilo que gostaríamos de escutar para justificar nossas teses porque uma vez suprimida a liberdade do inimigo fica imediatamente também suprimida a nossa.

Ficamos tão eufóricos ao ouvir o nome de nossos inimigos jogado ao fogo que acabamos esquecendo que depoimento não é uma prova definitiva. Um saco isso quando se trata de um depoimento que confirma nossas teses, mas um alívio quando se trata de um depoimento que as contradiz.

O diabo é que o princípio básico da moralidade manda aplicar a nós mesmos os conceitos morais que exigimos dos outros. E não é exatamente isso o que estamos fazendo.

Eu tinha uns 12 anos quando alguém no colégio colocou uma bombinha no telefone público. Foi um corre danado pelas salas de aula e os diretores nos reuniram na quadra poliesportiva para que quem fez aquilo se pronunciasse. Antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa minha tia, que era uma das diretoras do colégio, disse: “Gostaria de lembrar que pior do que colocar uma bomba no telefone é dedar quem colocou a bomba no telefone”.

Tive a sorte de ser educada por essa mulher, a primeira feminista que conheci, e alguém que me ensinou a respeito desse princípio básico da moralidade que manda aplicar a nós mesmos as exigências que fazemos aos outros.

Desde então tenho em mim que a delação está entre as coisas mais podres do mundo, ainda que hoje ela seja a grande moda no Brasil.

E falamos de delações arrancadas de gente que está presa temporariamente, sabe-se lá em que condições mentais porque não imagino como seja você ser arrancado de casa, sem que haja um julgamento, privado de liberdade sem saber ao certo por quanto tempo e então, dia após dia, obrigado a falar, falar, falar e a delatar, delatar, delatar. Que tipo de delação sai de um ambiente mental e moral como esse?

Não entendam esse texto como a defesa aos crimes que os delatores teriam cometido, ou com os quais estariam envolvidos, mas vale lembrar que o estado inquisitorial se define por não admitir como certa qualquer versão que não seja a dele. Assumir como verdade o que é ainda uma possibilidade é um crime moral, um que precisamos estar atentos para não cometer.

Diante de cenários tirânicos como esse, aplaudido pela opinião pública que é levada a acreditar que finalmente os verdadeiros culpados estão sendo presos, não importa se legítima oi ilegitimamente, fica aberta a possibilidade de todo o tipo de autoritarismo, como prender protagonista de peça considerada de mau-gosto político, como processar jornalista que faz críticas, diga-se pertinentes, a um juiz da suprema corte, como algemar estudantes que protestam em nome da educação e, ainda mais grave, como autorizar, via uma canetada, que o Estado torture crianças.

Enquanto tudo isso acontece, a opinião pública, levada a pensar que estamos passando por um período histórico de moralização política e amedrontada com o que é noticiado todos os dias, acaba fazendo o papel que o autoritarismo espera dela: exigindo que se tomem as medidas que acabarão por tirar nossas liberdades.

É muito conveniente porque assim o poder econômico, que é quem orquestra esse estado tirânico de coisas, não precisa sequer exibir ainda mais seus músculos: quem implora pelo abuso de poder é o povo que, diante de uma tela de TV hipnotizado pela voz dramática de William Bonner, baba bovinamente.

Viver sob o primado da hipótese sobre o fato é um risco enorme porque trata de privar autocraticamente a liberdade supondo que somos todos culpados a menos que consigamos provar o contrário, inversão grotesca de um dos mais básicos direitos do homem e da mulher.

Ou reagimos agora ou esse desumano estado de coisas nos devorará a todos.

10 pensamentos sobre “Seremos todos devorados

  1. O texto já começa tendencioso: Aécio, Skaf, Serra…Porque não incluir nessa lista, José Dirceu, Antonio Palocci e Delcidio do Amaral? Fica meu questionamento.

    Tem dois fatores que precisam ser analisados: Temos que ter acesso aos processos e provas afim de saber se estão sendo injustiçadas ou não, ou seja, não se pode afirmar nada. Outro ponto é que eu concordo com você, antes de demonizar A ou B, deve-se provar sua culpabilidade…é a historia da presunção de inocência.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Como sempre, brilhante. Faço um adendo que reputo importante e que me faz ainda mais indignado com os delatores infames. Ao fim da delação o que lhes é oferecido é um “premio” porque tem suas penas drasticamente reduzidas. A pena que cumprem é quase nenhuma considerado o estrago que fizeram. Vide um dos primeiros a delatar, já está livre, leve e solto, e sem uso de tornozelelra.
    Me causa asco.

    Curtir

  3. Garotinho e Cabral não são santinho e tem muito poder… A prisão provisoria foi feita justamente pelo poder que estes 2 tem de atrapalhar as investigações. Não tenho nenhuma pena deles, roubaram do povo e estão pagando por isso.
    Prisão não é so apos condenação, mas tambem para impedir pessoas perigosas e esses dois estão longe de serem meros injustiçados.

    Curtir

  4. todo dia, eu lembro daquele poema:

    “Na primeira noite eles se aproximam
    e roubam uma flor
    do nosso jardim.
    E não dizemos nada.
    Na segunda noite, já não se escondem:
    pisam as flores,
    matam nosso cão,
    e não dizemos nada.
    Até que um dia,
    o mais frágil deles
    entra sozinho em nossa casa,
    rouba-nos a luz, e,
    conhecendo nosso medo,
    arranca-nos a voz da garganta.
    E já não podemos dizer nada.”

    Curtir

  5. Estranho esse processo todo. Quem ousa explicar o que acontece, pode cair nas armadilhas de análises equivocadas. Já pensei muito sobre o que anda acontecendo por essas bandas e não consigo identificar o personagem que opera as máquinas. Já cheguei a pensar que os tucanos eram os arquitetos, junto com os juízes de Curitiba, das mirabolantes manobras políticas, visto que ainda nenhum tucano foi convocado para se explicar. Acontece que mesmo o Reinaldo Azevedo, sempre defensor dos tucanos, tem dado pau no Moro nas últimas colunas e, exatamente por isso, levado pau nas caixas de comentários. De onde vem toda essa força do Moro? Quem é o chefe? Ele é só um messiânico justiceiro? É coisa arquitetada em wall Street? É uma “Nova Ordem” que precisa passar por cima da oligarquia política atrasadíssima brasileira para fazer do Brasil um aliado potente-passivo na América Latina? Ninguém consegue responder. E essa coisa das prisões sem provas de gente muito grande tem deixado todo mundo muito eufórico e potencializado o poder dos caras. Tenebroso. Não sei o que acontece. às vezes, melhor não saber. Sei lá.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s