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Por que gostei da vitória de Trump

Na noite do dia 8 de novembro fui dormir sem saber o resultado da eleição americana, mas achando que Hillary Clinton venceria porque, afinal, as pesquisas assim indicavam, e porque eu imaginava que o eleitor americano não elegeria um maníaco racista misógino sociopata para o cargo de pessoa mais poderosa do mundo. Mas dentro de mim havia um sentimento ambíguo porque considero Hillary Clinton uma imperialista criminosa oportunista e cínica, então entendia que não haveria bom resultado possível embora Clinton soasse como o mal menor. Ainda assim havia em mim o indizível porque, bem quietinha, eu me animava com a remota possibilidade de um monstro como Trump vencer.

Quando acordei e entendi o que tinha acontecido nos Estados Unidos – e no resto do mundo porque a eleição da nação mais poderosa do planeta importa a todos – imediatamente senti meu corpo se arrepiar em terror. Respirei algumas vezes e em seguida a sensação de pequeno prazer voltou. Vou tentar explicar por que.

Trump e Clinton representam os mesmos interesses políticos e econômicos, estão a serviço de uma elite gananciosa e acumuladora que quer a cada dia mais poder. E uma sociedade controlada por esse tipo de gente vai refletir os valores desse tipo de gente que, como disse Noam Chomsky, acha que a única luta válida é aquela que nos leva a maximizar ganhos pessoais mesmo que seja a custa de outros.

A diferença é que Trump é um diabo que se orgulha de aparecer em público com seus chifres e tridente todo vestido em vermelho, e Clinton prefere colocar um tailleur cor de rosa para esconder o diabo que a habita.

Entre o monstro que se apresenta como tal, e o monstro que se esconde eu pendo para o monstro que se apresenta como tal, e agora imagino que os americanos também.

Num mundo dominado pela desigualdade brutal e por mentiras e falsidade, e dentro do qual as pessoas imploram por alguma verdade e alguma resposta, Trump ofereceu a seu eleitorado autenticidade, enquanto o discurso de Clinton sempre soou falso e distante da realidade de quem ela é.

Trazendo para a nossa realidade fico pensado em quem votaria se Alckmin e Bolsonaro acabassem num mano-a-mano e acho que não votaria simplesmente porque me recusaria a votar em qualquer um deles, dois de uma mesma espécie a despeito de um ser deselegante e verborrágico e o outro tentar passar uma imagem sóbria. Talvez o eleitor americano mais à esquerda tenha pensado assim, enquanto aquele mais à direita foi às ruas e votou, elegendo Trump.

Ok, então essa é a realidade, e ela me soa como oportunidade.

Com Trump eleito poderemos finalmente falar de forma aberta em fascismo, poderemos sair às ruas e dizer que esse monstro não nos pertence, poderemos ver o diabo pelo que ele realmente é, sem disfarces. Com Clinton isso seria impossível porque, afinal, ela fala com sobriedade, calcula todas as palavras e diz representar uma série de coisas corretas, como o direito dos homossexuais, das mulheres, das minorias.

Clinton usaria essa fachada para seguir com a campanha terrorista de drones aprimorada por Obama no Oriente Médio, seguiria apoiando Israel e Arábia Saudita e suas práticas genocidas na Palestina e no Iêmen, oprimindo aquela parte do mundo que considera menor e menos importante, incrementando os serviços de vigilância sobre a população, enriquecendo ainda mais o poderio militar americano, deixando o imigrante ilegal à margem.

Trump deve fazer as mesmas coisas, talvez de forma mais acintosa, mas como representa o diabo sem disfarces poderemos gritar e espernear e tirar do armário o aspecto fascista dessa fase de nossa história.

Apenas quando reconhecermos que as práticas de políticos como Donald Trump — e Clinton, e Temer, e Alckmin e Doria e qualquer neo-liberal que em nome da ideologia adota políticas opressoras, repressoras, elitistas, classistas, machistas — podem acabar com o mundo, com nossa espécie, com qualquer possibilidade de vida decente sobre esse planeta é que alguma coisa pode mudar de forma definitiva.

O neo-liberalismo, que minimiza o estado e maximiza a tirania privada, nos trouxe para esse estado deplorável de coisas e é preciso que ele seja transformado agora e nem daqui a um minuto.

Hillary, assim como Obama, seria uma presidente simpática e risonha, que falaria as coisas certas, faria piadas oportunas e acabaria apoiada por todas as celebridades adoradas do mundo. Suas ações criminosas seriam pouco comentadas, e o dia-a-dia numa Wall Street desregulada seguiria forte e à margem de críticas.

Como Obama, seguiria deportando imigrantes em massa (Obama foi o presidente que mais deportou na história), seguiria matando inocentes no Oriente Médio diariamente (a campanha de drones criada por Obama já assassinou milhares de seres humanos que nada tinham a ver com terrorismo, e o assassinato em massa dos drones de Obama é o que Noam Chomsky chama de “a maior campanha terrorista já vista) e seguiria espionando a população americana com a ajuda das corporações, dando continuidade à maior espionagem contra a própria população de que se tem notícia, uma que deixaria Stalin bastante orgulhoso.

Mas quem ousaria criticar um homem tão simpático e risonho que, ao contrário de Trump, é dotado de inteligência emocional a ponto de saber que, para não ser criticado, bastava cometer todos esses crimes sem deixar que eles se tornassem muito divulgados pela mídia amiga.

Com Trump toda a crítica é permitida, e o diabo se mostrará em suas cores  reais, evidenciando todo o tipo de crime e de brutalidade comumente praticada por presidentes americanos, mesmo pelos mais simpáticos. O diabo em suas cores reais, como jamais vistas, pode nos unir e tirar de cada um de nós a força para lutar.

Com a vitória de Trump vai ficar mais fácil nos reunir em protestos, vai ficar mais fácil enxergar quais valores nos movem e contra quais temos que batalhar, vai ficar mais fácil enxergar o diabo no comando do país mais poderoso do mundo.

Então, existe em mim um lugar que está celebrando essa vitória porque acho que chegamos em um ponto no qual ou morreremos de vez, ou renasceremos para um mundo melhor.

Por fim, recomendo o excelente texto de Omar Kamel, um árabe que, assim como eu, ficou feliz com a vitória de Trump.

22 pensamentos sobre “Por que gostei da vitória de Trump

  1. Milly, é assim que me sinto em relação ao Brasil. Durante os governos de Lula e Dilma, víamos serem tomadas várias medidas que prejudicavam a população, mas como era um governo com viés mais “social”, elas passaram. Hoje, ao contrário, há menos aceitação diante das medidas propostas por um governo neoliberal escancarado. Mas, como você disse, não devemos nos iludir, pois quem governa, o Brasil e o mundo, na verdade, é o capital (as elites que o detém).

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    • Entendo, Adriana. É por aí sim. Acho que Lula/Dilma acabaram fazendo bastante coisa em nome do social, mas erraram demais e muita gente achava errado criticar porque, afinal, eles estavam do lado certo ideologicamente falando. Uma hora o jogo tem que mudar porque se não mudar o mundo acaba.

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  2. Milly, não sei se já tem visto por aí os tweets sobre assédio a negros e mulheres que passaram a acontecer depois das eleições. O ator Jesse Williams andou publicando algunsno Twitter. Ouvir o âncora Van Jones da CNN também trouxe esta perspectiva que eu ainda não tinha considerado. Enquanto concordo com você que ficará mais fácil criticar o governo Trump, fico me perguntando como sobreviverão as minorias.

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    • Não vi ainda… mas acho que vai acontecer isso mesmo, infelizmente. Com o monstro escancarado as pessoas se sentirão mais à vontade para soltar os monstros que as habita. Mas sobreviveremos sim. Afinal, a salvação do mundo depende da gente 🙂

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  3. Muito interessante o seu ponto de vista. Ontem, me impressionei com a repercussão negativa da vitória do Trump e o clima “nossa o mundo vai acabar” e “estamos todos condenados” das redes sociais. Já estávamos condenados e o mundo já está degenerando, só que por debaixo da mesa. Obrigado!

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    • Penso assim também, Rodrigo. Já estávamos a caminho do abismo, agora pelo menos nos é dada a chance de ver o diabo sem máscaras e de poder, portanto, saber contra quem estamos lutando. É uma grande chance. Quem sabe consigamos nos salvar. Obrigada a você por ler e comentar.

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  4. Meu amor, a longo prazo você sempre tem razão. Não tem pele de cordeiro que cubra o focinho do Trump e o mundo vai manter os olhos bem abertos pra política externa americana nos próximos 4 anos. Mas morar aqui na Califórnia, a maior população latina dos EUA (e 4ª maior negra), me faz sentir demais o drama humano para analisar com distanciamento. Fiz uma pequena compilação do Day 1 do Trump, dá pra ter uma ideia do impacto que a eleição dele vai ter nas minorias americanas: https://www.facebook.com/svartman/posts/10154791041696995.

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    • Nossa, muito triste isso… E acho que vai piorar porque agora as pessoas estão à vontade para exibir os monstros que as habitam. Espero que no longo przo consigamos nos recuperar dessa tragédia chamada Trump. Faz um diário do que tem visto e sentido aí. Pode render um livro depois. Eu te amo ❤

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  5. Milly, muito legal o texto… talvez porque alivie um pouco meu remorso. Também sentia isso às vezes, mas logo me penitenciava. Pensava que, no fundo, meu lado obscuro queria ver o “circo pegar fogo”.

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  6. Milly, não sei se você viu, mas Slavoj Zizek deu uma entrevista pro Channel 4 apontando que o Trump no poder possibilitaria uma reorganização da esquerda. Ainda estou meio com o pé atrás em relação a essa reorganização de movimentos sociais e também a esquerda no mundo, porque demandará uma reflexão que ela ainda não é capaz de fazer. Não sei, sinceramente, o que pensar diante disso tudo, mais temo por um Bolsonaro inspirado pra 2018… e acho que o fascismo nunca foi embora… sempre esteve adormecido, esperando uma figura para acordá-lo… No mais, excelente texto, como sempre…

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  7. Milly, como sempre texto que abre conexões em neurônios cansados de tanta barbárie ou ressuscita os que morrem nesse bombardeio diário de uma mídia que conduz a massa guiada pela bússola do capital á todo custo.
    E não é que os terninhos rosa-bebê da Hillary se parecem muito com as camisas polo salmão do João Dória? Você tem razão: o Diabo também veste “nude”.

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  8. Milly confesso, não a conhecia. Gostei deveras de seus textos e comentarios, idem. Mas embora possa defender algumas idéias, bandeiras e conceitos da atualidade humana, lhe pergunto: já comprou sua pasagem para Marte, ou para mais remoto local?

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  9. Pingback: As bombas de Trump são as de Obama | Blog da Milly

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