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As lições de George Orwell sobre abuso de poder

Em 1945, quando o livro “A revolução dos Bichos” foi lançado, George Orwell sentou para escrever um prefácio que nunca foi publicado e seria encontrado apenas anos depois. O livro, como até quem não leu sabe, é uma crítica em forma de fábula ao socialismo que foi praticado na antiga União Soviética.

Orwell, que lutou na revolução espanhola de 1936 ao lado dos anarquistas (existe um livro lindo sobre sua experiência chamado “Homenagem à Catalunha”) era feroz crítico de regimes totalitários e de tentativas de censura à liberdade de expressão. O prefácio censurado tratava exatamente do tema, mas teve que ser suprimido porque nele Orwell dizia que, embora o livro abordasse o regime ditatorial soviético, na Inglaterra democrática ideias não muito populares eram igualmente limadas do conhecimento público, não pelo uso da força, mas pelo uso da propaganda; ou, como ele escreveu: “o fato sinistro a respeito da censura literária na Inglaterra é que ela é largamente voluntária”.

“A Revolução dos Bichos”, depois de ser recusado por quatro editoras, foi finalmente publicado em 1945 e rapidamente foi usado pelo ocidente como propaganda anti-comunista. Que o prefácio de Orwell tenha sido censurado é apenas coerente porque quem o lesse entenderia que o autor julgava que democracias capitalistas poderiam, em larga escala, cometer alguns dos mesmos crimes e abusos que estados totalitários cometiam.

Em democracias capitalistas, Orwell escreveu, “ideias pouco populares e fatos inconvenientes podem ser mantidos no escuro, sem a necessidade de serem banidas oficialmente”. E o prefácio seguia: “A imprensa britânica é extremamente centralizada e seus proprietários são homens ricos movidos por todos os motivos para praticarem a desonestidade em relação a importantes tópicos. Uma opinião genuinamente fora de moda quase nunca recebe a devida atenção”.

Orwell falava abertamente do que chamava de Russomania, ou a tendência de a imprensa inglesa evitar críticas a Stalin. Mas usou o prefácio para dar exemplos que, como ele disse, eram pouco populares. “A Igreja Católica tem influência considerável sobre o noticiário e pode silenciar criticismo a seu respeito. Um escândalo envolvendo um padre católico quase nunca chega a ser noticiado, enquanto um padre anglicano que se mete em apuros vira manchete (…). Qualquer ator pode testemunhar que uma peça ou um filme que ataque ou deboche da Igreja Católica tende a ser boicotado pela imprensa e provavelmente será um fracasso de público”.

Há, na prática, uma infinidade de exemplos que provam que a grande mídia não apenas decide o que será debatido, como limita o debate dentro de um escopo aceitável, e omite aquilo que não convêm.

É exatamente por isso que todos sabemos de Watergate mas quase ninguém sabe o que foi a Cointelpro, uma operação ilegal conduzida pelo FBI na mesma época de Watergate e que investigava cidadãos envolvidos em manifestações contra a guerra do Vietnam e a a favor de direitos civis. A Cointelpro infiltrava agentes em manifestações e grupos dissidentes para tentar criminalizar cidadãos ligados aos mais variados movimentos sociais, o feminista entre eles.

As duas operações – Watergate e Cointelpro – aconteceram quase na mesma época, foram conduzidas por órgãos federais e foram igualmente escandalosas , opressoras e ilegítimas, mas a primeira vitimou boa parte da elite política americana, e a segunda vitimou apenas minorias. A primeira tratava de abuso de poder contra gente graúda; a segunda de abuso de poder contra gente miúda. Qual das duas teve enorme repercussão pelo mundo? Quem fez a escolha por falar de uma e não da outra?

A operação que vitimou poderosos, Watergate, ecoou com estardalhaço porque o poder tem meios para se defender. O fato de não sabermos da Cointepro mostra apenas como é grande o universo das coisas que nos são omitidas, limitadas e censuradas pela mídia.

Orwell era simpatizante do anarquismo, e não do capitalismo como nos quiseram fazer acreditar. No prefácio que foi suprimido para “A Revolução dos Bichos” ele cita Rosa Luxemburgo, uma das primeiras anarquistas: “Liberdade é liberdade para o outro”, e segue mais abaixo sugerindo que tanto as democracias capitalistas quanto as versões orientais do socialismo já não levam mais esses valores em conta.

Quase no final ele diz — em conceito que pode ser usado para que analisemos os abusos cometidos pela Lava Jato que acabaram levando alguns dos políticos e empresários mais grotescos desse país para atrás das grades: “As pessoas não entendem que se elas encorajam o uso de métodos totalitários vai chegar um tempo em que esses mesmos métodos poderão ser usado contra elas, em vez de a favor delas. Transforme num hábito a prisão de fascistas sem julgamento e provavelmente esse processo não parará nos fascistas”.

E conclui: “Se liberdade quer dizer alguma coisa ela significa o direito de dizer às pessoas coisas que elas não gostariam de escutar”.

Que a obra de Orwell tenha sido usada exclusivamente como propaganda anti-comunista e jamais tenha nos alcançado também como uma coerente crítica ao capitalismo praticado é parte da doutrinação a que somos submetidos. Uma que todos nós temos viva em nossa corrente sanguínea porque ela tem início ainda no jardim da infância, quando começa a seleção dos obedientes e subordinados.

Teria me feito muito bem saber desse prefácio antes de formar as opiniões que formei na adolescência. Teria me feito um bem enorme não dividir o mundo entre comunistas e capitalistas, e saber que o oposto de um regime totalitário, no sentido de ser “o regime ideal e mais justo”, não é a democracia plutocrata que se pratica no mundo. Teria me feito um bem enorme entender logo cedo que o capitalismo está longe, muito longe, de nos servir, e que, ainda que seja o menos pior dos sistemas conhecidos até aqui, ele é injusto, imoral e precisa ser superado.

Na voz de Noam Chomsky: em estados totalitários reprime-se com o porrete, em estados “democráticos” reprime-se com a propaganda, essa que começa no Jardim da Infância e se desenvolve para virar publicidade e noticiário.

O prefácio censurado levava o título de “Liberdade de Imprensa”.

 

6 pensamentos sobre “As lições de George Orwell sobre abuso de poder

  1. Engraçado como eu também nos meados dos 70, recém ingresso na PUC pós Erasmo Dias e em plena Ditadura, a despeito das odes estudantis cantadas em prol da Albânia (confesso quando ouvi pela primeira vez, assim que cheguei em casa fui ao Atlas tentar acha-la no mapa europeu), olhava com certa desconfiança a “democracia” que muitos de nós pregávamos.
    Lembro-me agora, também me identificava com Orwel menos pelo prefácio que desconhecia e mais pela cena final do romance, na qual já não se podem distinguir os porcos, ou os bolcheviques, dos exploradores de animais os humanos (capitalistas), de certa forma levando ao extremo do espectro a máxima francesa: Não existe nada mais conservador do que um liberal no poder.
    Nós no Brasil da Lava-Jato e dos “companheiros”, estamos aprendendo a fórceps o quanto era profético o epílogo do George…..

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  2. Pingback: As lições de George Orwell sobre abuso de poder « Associação Rumos

  3. Muito bom Milly! Parabéns! Só não sei se o capitalismo é o “menos pior dos sistemas conhecidos até aqui”. 😬 Dá uma boa conversa! Boa sorte sempre!

    Roberto

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  4. Rosa não era anarquista e, que eu saiba, nem Orwell. Ambos socialistas democráticos. Os anarquistas lutaram na espanha, onde Orwell foi como voluntário, ao lado dos trotskistas e outros socialistas democráticos, depois foram traídos pelos estalinistas a partir de um acordo com Franco. A crítica do livro é a respeito de qq regime totalitário e usa a burocracia soviética como pano de fundo.

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