Economia/Política/Vida

Como seguir se o Parlamento foi privatizado?

A lista da Odebrecht, que está à disposição de Moro e de seu time há oito meses, é um forte indício de que o parlamento foi privatizado – ou seja: congresso e senado teriam sido comprados pelo poder privado para servir aos interesses das grandes corporações.

Não há nada de novo nisso, no mundo inteiro a democracia morreu, adquirida pelo capital privado, e o que existe é uma espécie de plutocracia corporativista. Já escrevi sobre isso aqui, com dados da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.

Mas a lista da Odebrecht, apenas uma entre outras tantas que estão sendo resguardadas pelo judiciário de Moro, é dessas revelações que jogam luz onde o poder corporativo não gostaria que luz fosse jogada.

Estando nosso Parlamento a serviço do capital privado fica evidente que ele não estaria mais a serviço da população, da mesma forma que o interesse de um CEO não é o mesmo interesse do rapaz que opera as máquinas no chão da fábrica.

O CEO, para manter seu cargo e seus bônus, precisa de lucro, rápido e a qualquer custo; o rapaz do chão de fábrica, assim como você e eu, quer escolas de qualidade, quer transporte público decente, quer poder ir a um hospital e saber que não terá que deixar o dinheiro equivalente a dois anos de trabalho por uma operação de apendicite.

Ou, num cenário ainda mais justo, quer ir a um hospital e saber que não gastará nada se tiver qualquer doença, e que será bem atendido.

O CEO não poderia estar menos preocupado com essas coisas porque seus filhos estudam em colégios caríssimos, sem que isso faça cócegas em seu orçamento, porque ele chega ao trabalho de helicóptero ou com seu motorista, e porque se ficar doente ele pode gastar 1% do que ganha no em um ano e ter a sua disposição os melhores médicos e hospitais.

Então, um parlamento serve ao CEO e não ao operário do chão de fábrica é um parlamento anti-democrático, anti-ético e imoral em muitos níveis. E aqui vale lembrar a classe média que ela tem os mesmos interesses do operário e não do CEO, ainda que ela se olhe no espelho e queira enxergar o CEO.

Mas sejamos práticos.

Moro e sua força-tarefa têm essa lista que sugere fortemente que nosso parlamento foi vendido aos interesses do poder econômico desde antes do Impeachment. Tivesse ele tornado a lista pública – o que seria um gesto discutível, mas apenas coerente com a forma como ele tem agido com qualquer lista ou gravação que envolvam Lula e seus parceiros – a população poderia ficar sabendo que o parlamento talvez estivesse vendido, e que um parlamento vendido não tem condições morais ou éticas de votar qualquer coisa, ainda mais o afastamento de um presidente.

Mas Moro guardou a lista, e Dilma foi afastada.

Moro guardou a lista e esse mesmo parlamento vai votar medidas que nos obrigarão a contratar uma previdência privada se não quisermos trabalhar 49 anos antes de termos direito a uma aposentadoria. Uma medida que favorece bancos e enfraquece cada um de nós.

Moro guardou a lista e o parlamento vai votar medidas que congelam gastos com educação, uma tática conhecida como “deixe a empresa estatal virar um defunto e aí venda para a iniciativa privada por uma merreca”, um gesto muito bom para o capital privado e péssimo para a população.

Poderia seguir falando da venda do pré-sal para ser explorado pelo mesmo capital privado em nome do lucro e de nada mais, doando a CEOs e aos acionistas de suas empresas o patrimônio natural do povo brasileiro, e de muitas outras medidas tomadas por esse Parlamento desde o Impeachment e que visam apenas fortalecer o poder econômico.

Como fazer para convencer a população a apoiar medidas que, uma vez tomadas, irão massacrá-la? Mentindo.

Querem que acreditemos que o Estado quebrado (a parte verdadeira dessa história) só pode ser recuperado com o corte de investimentos sociais. Comparam o país com nossas casas, usam linguagem infantilizada para doutrinar. Dizem que todos precisam agora sofrer um pouco em nome do Brasil. Não é um truque novo, e tem até nome: austeridade.

O cientista político escocês Mark Blyth tem um livro interessante a respeito disso, e que se chama “Austerity”. Nele Blyth diz que a austeridade não funciona basicamente por duas razões.

Uma, porque, com raríssimas exceções históricas, a austeridade nunca funcionou.

Duas, porque a austeridade conta com os pobres para pagar pelos erros dos ricos.

Nas palavras dele:

“Quando os que estão abaixo precisam pagar por um problema criado pelos que estão acima, e quando os que estão acima se abstém de qualquer responsabilidade por esses problemas, culpando o Estado pelos seus próprios erros, não apenas espremer os que estão abaixo não produz rendimento suficiente para arrumar as coisas, mas vai gerar uma sociedade ainda mais polarizada”.

Então como fazer com que um Estado quebrado consiga sair disso? O pesquisador e economista francês Thomas Piketty gastou quase mil páginas de seu “O Capital no século 21” para mostrar que a menos que taxemos pesadamente os muito ricos esse sistema nos condenará e aniquilará.

O sacrifício, portanto, precisa ser feito pelos ricos, e não pelos pobres.

Não é o que pensa essa turma que nos comanda hoje – até porque eles fazem parte dos ricos e não estão a fim de fazer nenhum sacrifício.

Me parece, portanto, apenas evidente que, como sugere a lista da Odebrecht, o Parlamento trabalha duro em nome de seu chefe, o capital privado: CEO e acionistas.

Então, se Moro e seu time, supostamente uma gente que não tolera corrupção e quer limpar o Brasil, sabiam que havia fortes indícios de que não estávamos mais vivendo numa democracia por que não divulgaram a lista ajudando a impedir que um parlamento corrompido agisse contra os interesses da população e em nome do capital privado?

A única resposta que pode esclarecer alguma coisa aqui é: porque estão todos trabalhando juntos em nome do interesse do capital privado.

E, se esse for o caso, o golpe fica tão cristalinamente claro que pode ser explicado até para uma criança de cinco anos.

E aqui um exemplo do que acontece com um país quando existe um mínimo de interesse em peitar, um pouco que seja, a iniciativa privada e tomar medidas que beneficiem o social. Quem não gostou desse exemplo pode estudar o New Deal americano. Também vale.

3 pensamentos sobre “Como seguir se o Parlamento foi privatizado?

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