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O golpe entra em seu último ato

Parei no posto de gasolina da rodovia Ayrton Senna, como faço todas as vezes saindo de São Paulo rumo à roça, e enquanto o Leandro enchia o tanque do meu carro e calibrava os pneus fui dar um abraço em seu Arnaldo, o gerente, e entregar um panetone. Seu Arnaldo me viu e, como já é tradição, me deu um beijo e um abraço. Em seguida, mantendo a tradição, falamos de política. “Você tinha razão”, ele disse. “A Tv me enganou. Ela era a única honesta e a gente tirou justo ela”.

Seu Arnaldo falava de Dilma e dizia estar se sentindo enganado pelo noticiário. Como ele deve haver muita gente por aí; gente que, hipnotizada pela voz sombria de William Bonner e pela fabricação de consensos, acreditou que Dilma era uma das líderes da roubalheira e que toda a roubalheira da história recente do Brasil foi arquitetada e comandada pelo PT. Uma narrativa tão fictícia quanto leviana, mas minuciosamente elaborada pela mídia que está alinhada com os interesses dos grandes empresários.

Aqui vale sempre fazer aquela interrupção no ritmo para lembrar que o PT, assim como os demais partidos, está certamente envolvido em milhares de malfeitos. Não se trata de passar pano, mas de estabelecer a narrativa correta, e ela não é a que a mídia corporativa fabrica todos os dias.

O golpe sempre teve um objetivo apenas: levar de volta ao topo o partido que melhor representa o poder econômico, o PSDB que não consegue mais se eleger nas urnas.

Michel Temer, a marionete usada para completar a travessia, serviu a um propósito importante, que era o de sedimentar a austeridade antes de o PSDB se reinstalar no Planalto e assim, com a ajuda do empresariado amigo, “conduzir as massas ignorantes para um mundo que elas são estúpidas demais para compreender sozinhas”, como pede a cartilha da teoria liberal democrática.

As políticas neoliberais de austeridade implantadas por Temer e sua turma de ilegítimos, que colocam na conta dos mais pobres o pagamento dos abusos e erros cometidos pelos mais ricos, terminaram com os incentivos sociais (instituídos por Lula) favorecendo as grandes corporações e seus acionistas: Quem quiser se aposentar precisa comprar previdência privada. Quem quiser se tratar precisa comprar seguro-saúde. Quem quiser fazer faculdade precisa pagar.

Chega de ajudar quem não tem dinheiro. É a hora e a vez de quem tem dinheiro, exatamente por isso Temer topou perdoar dívidas de bilhões das Teles, um conglomerado de mega-corporações que só faz lucrar desde as privatizações suspeitas comandadas por FH.

O neo-liberalismo acredita piamente na força do livre Mercado desde que ela seja usada com os pobres; para os ricos vale o Estado-babá, aquele que ajuda sempre que solicitado. Agora esse mesmo neo-liberalismo, minimizando o Estado e maximizando a tirania privada, fincou suas grotescas garras sobre todos nós, para deleite de CEOs, acionistas e multi-milionários.

Ficou cristalino entender que Dilma, que não fazia um bom Governo, era o que existia entre o povo e a tomada completa de território pela tirania privada. Sem ela, fomos oferecidos aos leões que, famintos, estão a nos devorar.

O golpe entra, portanto, em seu terceiro ato.

Temer, bastante eficiente até aqui, precisa sair a partir de 1 de janeiro, e nem um dia antes porque isso levaria a eleições diretas. Se cair depois de 1 de janeiro teremos eleições indiretas, e é com elas que o golpe baixa suas mofadas cortinas e, oficialmente, nos sequestra por tempo indeterminado.

Então, a mesma mídia corporativa que elevou Temer à condição de salvador agora começa a desferir socos um pouco mais fortes expondo o homem pelo que ele é.

A suposta ligação entre Temer e a dinheirama desviada no Porto de Santos, há quase 20 anos sabida pelos donos das empresas de mídia e até aqui bem guardada, talvez seja finalmente mostrada, quem sabe. Mas não agora porque mostrar agora seria correr o risco de derrubar o atual presidente antes do combinado. O enredo manda ir desferindo socos mais ritmados, mas ainda nenhum nocaute.

Por causa disso começamos a saber quanto ele e sua senhora gastaram em cartões corporativos, quanto milhões da grana pública iam torrar em sorvetes finos durante as viagens oficias e otras cositas más que ainda virão por aí.

Tudo dentro do roteiro.

O que talvez escape do roteiro é que homens como o seu Arnaldo já decidiram em quem vão votar nas próximas eleições (supondo que haverá eleições): em Lula.

Então, para que o golpe seja um completo sucesso é preciso tornar Lula inelegível, e para isso existe super Moro, uma parte importante do processo.

Assim, só nos resta torcer para que em 2017 a verdade prevaleça e para que consigamos nos unir e recuperar o que nos é de direito, tirando o excesso de poderes dados às grandes corporações, aí incluídas as empresas de mídia. Que todos os Arnaldos que se sentiram enganados pelo noticiário desliguem os aparelhos de TV e saiam de suas casas para gritar, protestar e votar.

E torcer para que os Arnaldos e Marias desse Brasil absorvam a verdade revelada por Noam Chomsky em seu “Mídia, Propaganda Política e Manipulação”:

A Teoria Progressista do pensamento liberal democrático (a ideologia do PSDB e do poder econômico) acredita que a fabricação de consenso é necessária porque “os interesses comuns escapam completamente da opinião pública e só podem ser compreendidos e administrados por uma classe especializada de homens responsáveis que são suficientemente inteligentes para entender como as coisas funcionam. Essa teoria defende que apenas uma pequena elite é capaz de entender os interesses gerais, aquilo com que todos nos preocupamos, e que esses temas escapam às pessoas comuns”.

Termino com mais Chomsky: “É ridículo falar em Liberdade dentro de sociedades dominadas por grandes corporações. Que tipo de Liberdade existe dentro de uma corporação? Tratam-se de instituições totalitárias: você recebe ordens e as repassa para quem está abaixo. É tanta Liberdade quanto havia no Stalinismo”

7 pensamentos sobre “O golpe entra em seu último ato

  1. Quando você vai chamar o Glenn Greenwald e outros jornalistas progressistas para fazer um documentário desmascarando a grande mídia no Brasil ?
    Mas precisa fazer também, vídeos curtos cheios de gráficos e desenhinhos e memes. Precisa ser bem didático e direcionado a coxinhas. Porque gente como seu Arnaldo, que viu tanta Globo e leu tanta Folha não vê vídeo sem graça e passa longe de textos bem elaborados como os seus.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: O golpe entra em seu último ato « Associação Rumos

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