Comportamento/Vida

O que aprendi em 2016

Acho que uma das primeiras coisas que aprendi esse ano é que as mais profundas e lindas histórias de amor também podem chegar ao fim, e que não há nada de errado com isso. Aprendi que não é, de verdade, impossível ser feliz sozinha, mas é impossível ser feliz sem uma sólida viagem de auto-descobrimento. Aprendi que viagens de auto-descobrimento são penosas, mas que qualquer travessia rumo a uma nova consciência é ao mesmo tempo dolorida e linda. Aprendi que não existe a medida “tem muito curry nessa comida”, e que, como bem disse Guimarães Rosa, felicidade se acha em horinhas de descuido. Aprendi que viajar sozinha para um lugar que não conhecemos é uma experiência sublime, e que a África do Sul é um país para onde pretendo voltar muitas vezes ainda. Aprendi que golpes de estado podem ser executados sem tanques na rua desde que haja uma perfeita comunhão entre mídia, legislativo, executivo e judiciário. Aprendi que tudo é de fato luta de classes, e que a única Liberdade que não podem nos tirar é escolher que atitude teremos diante de cada acontecimento. Aprendi a fazer sopa de legumes, a fazer compras pela Internet e a não ter medo do escuro. Aprendi a esperar calmamente que a fila ande sem vociferar contra os mais lentos ou contra o sistema; aliás aprendi a não culpar nem Estado, nem família, nem amigos, nem chefe, nem o acaso, nem coisa nenhuma pelos fracassos da vida. Aprendi a meditar – e tenho meditado quando presa em filas – e aprendi que deixar de ver um obstáculo na estrada faz sim uma dúzia de ovos quebrar. Aprendi que Proust relido é ainda melhor, a fazer crepioca e a distinguir hortelã de manjericão sem precisar cheirar. Aprendi a tocar bois e aprendi que alguns deles, quando mal tocados, correm na direção oposta: a sua. Aprendi a romper desembestada para escapar de um boi mal-humorado e a remendar orelha de cachorro que, na tentativa de ajudar você a tocar bois que não deveriam estar ali, passa destrambelhado pelo arame farpado. Aprendi que na falta de veterinário aberto e de esparadrapo à mão fita 3M ajuda a remendar orelha de cachorro. Aprendi que é possível se apaixonar por uma amiga e viver com ela uma doce e significativa história de amor. Aprendi que amizades virtuais podem se tornar reais e adquirir a capacidade de seguir por uma vida. Aprendi que, como escreveu Alan Cohen, a dor é uma pedra no caminho e não um lugar para acampar. Aprendi que átomos têm 99,9% de espaço vazio e que, sendo feito de átomos, o ser humano é, portanto, feito de espaço vazio. Aprendi que Titi, minha eterna ex e minha melhor amiga, e eu seguiremos cúmplices até o fim. Aprendi a passar algumas horas do dia buscando alcançar o silêncio que só o vazio oferece. Aprendi que antes de algumas das mais belas e significativas revelações tudo o que existe é terror e desespero. Aprendi que não preciso chamar meu sobrinho Antonio sempre que o computador der uma panicada e que, antes de telefonar e mandar ele vir, posso tentar resolver sozinha sem correr o risco de fazer uma besteira irreversível. Aprendi, aliás, que não há besteiras irreversíveis e que a vida tem sim um botão de “undo”, mas que para alcançá-lo é preciso dominar a mais difícil das artes: a de perdoar. Aprendi que estamos sendo constantemente vigiados pela tirania privada-estatal e que um mundo dominado por corporações é um mundo sem alma, sem vida e sem sentido. Aprendi que toda a forma de autoridade deve ser questionada e precisa se provar legítima. Aprendi que não tendo a capacidade de se provar legítima ela precisa ser destruída. Aprendi que nenhum direito civil jamais foi concedido sem luta e sem dor, e que a quem a vida ofereceu enormes privilégios cabe lutar pelos menos privilegiados. Aprendi que a maior das violências é deixar de reconhecer a humanidade no outro e que estamos caminhando para nos aprofundar em uma ditadura de classes que se impõe não só pela força do porrete mas também pela violência institucional e constitucional. Aprendi que se tratamos um ser humano como bicho ele se comporta como bicho; mas que se tratamos um ser humano com amor e compaixão ele se comporta como um Deus. Aprendi que ao cortar gengibre para fazer o chá é prudente lavar as mãos antes de coçar os olhos. Aprendi, ou reaprendi graças a nossos irmãos colombianos, que o futebol pode sim nos elevar a um lugar de mais significado. Aprendi que tomar cerveja vencida resulta, na pior das hipóteses, em uma leve limpeza no dia seguinte. Aprendi, no mais literal dos sentidos, que quando tudo o que temos é um martelo só conseguimos ver pregos ao redor. Aprendi que existe uma paz dentro de cada um de nós que vai além de toda a compreensão e que, como pediu a anarquista Rosa Luxemburgo, é preciso não fugir da luta em nome de um mundo dentro do qual sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.

Obrigada a todos que visitaram esse blog em 2016.

Que 2017 nos desafie de formas doces e nos aproxime do mundo sonhado por Rosa.

 

13 pensamentos sobre “O que aprendi em 2016

  1. Li, emocionada – pq são simples, bonitos e tb são meus – sobre cada aprendizado seu.
    Acompanhar vc tem sido bom mesmo qdo me provoca reflexões dolorosas. Mente quem diz que nada supera a própria experiência. É hábil saber tomar para si o aprendizado de quem já andou mais à frente.

    Gosto muito de vc, menina!
    Que 2017 seja ao menos gentil, pq 2016 foi, como se dizia antigamente, uma batida de FeNeMê.

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  2. Excelente….Um Feliz 2017 para você! Que essa sua lucidez nos ajudar a fazer o próximo ano um pouco melhor…
    Tudo de bom pra vc!

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  3. Gostei muito, uma das coisas boas do ano que acaba é ter aprendido a valorizar amizades virtuais, até porque infelizmente muitas das reais se mostraram desastrosamente reacionárias. Saudades de quando os alienados não discutiam política! Li em algum lugar esta frase que você cita (eventualmente no seu blog, mesmo) do Alan Cohen, “a dor é uma pedra no caminho e não um lugar para acampar.” Que 2017 nos traga mais motivos de alegria. Feliz ano novo!

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  4. Ai, Milly. Você foi um presente este ano! Ler seu blog foi muito bacana nesse ano tão difícil. É muito vermos nossos pensamentos ecoando tão belamente nas palavras de outras pessoas. Sigamos lutando por um mundo melhor para todos e não apenas para uns. Um 2017 muito feliz para ti! Feliz ano novo!

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  5. Obrigado, Milly. Sim, Milly, tenho aprendido muito com teu Blog e teus textos, e assim vou cumprindo a minha missão – de ter vindo para esta vida para aprender … Assim, Vida Longa e Saúde neste 2017 que já está iniciando.

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  6. Depois de um final de ano longe da internet, passei por aqui pra ver o que você havia dito sobre 2016…
    Como sempre, você consegue emocionar! Consegue fazer a gente chorar e rir ao mesmo tempo!
    Você nos mostra o copo meio cheio, saca?
    OBRIGADA por todas as emoções dos anos passados, de 2016 e de todos os que virão!

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  7. Milly
    Ler seus posts em 2016 me ajudou a passar por tudo acompanhada de boas idéias e ter esperança, porque esperança, ao meu ver, vem das boas idéias e análises críticas das situações. E o Golpe, apesar de tudo, trouxe à tona a fragilidade de nossa democracia, e consequentemente o nosso estado de alerta.

    Este compartilhamento nos torna mais próximos. Nos faz mudar pequenas rotinas. Nos traz a reponsabilidade da mudança, pois quem primeiro precisar mudar somos nós mesmos.

    Então lhe agradeço pelo compartilhamento das suas análises, por sua sinceridade nas palavras e pelo esforço em compreender a realidade e ainda expor seus próprios percalços.

    Espero contar com vc em 2017. O Brasil precisa de jornalismo de verdade.

    2017 de luta! E muita saúde e luz pra vc!

    Katia Torres

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