Comportamento/Política/Vida

Tudo é política

Não há nada relacionado à maneira como vivemos que deixe de envolver política: da roupa que usamos, passando pela forma como escolhemos cuidar de nossos corpos, pelas coisas que comemos, os livros que lemos e os filmes que assistimos. Então, se é preciso um esforço grande para não politizar os acontecimentos mais banais e corriqueiros – como, por exemplo, usar ou não filtro solar – é preciso um esforço infinitamente maior para não politizar tragédias como a chacina de uma família inteira por motivos que envolvem preconceito e intolerância.

Estou vendo gente esperneando por todos os lados na tentativa de isolar o assassino de Campinas como um psicopata e nada além disso. Infelizmente essa leitura escapista é incompleta, rasa e movida por desespero porque, é natural, ninguém quer se associar a uma barbaridade dessas, nem que seja por um segundo.

Mas é importante contextualizar as coisas, todas elas.

Nem seria preciso que o assassino tivesse deixado uma carta altamente política a respeito do ato de loucura que cometeu, descrevendo bolsonaricamente todos os seus preconceitos. Ainda que faltasse um comunicado não demoraria para que chegássemos à penosa conclusão de que o gesto insano estava todo amparado, do começo ao fim, por ideologia e discriminação.

Isso não quer dizer que todo pensamento de direita conduza a chacinas, esse é um argumento também superficial e que impede reflexão.

Claro que há malucos alinhados com o pensamento de esquerda também, basta lembrar de dois dos maiores genocidas da história: Mao e Stalin. Mas a evolução do Capitalismo, que nos inseriu nesse mundo desigual e injusto, fez com que a linha que separa direita e esquerda fosse marcada de modo a concentrar do lado direito todo o tipo de preconceito: de gênero, de classe, de sexualidade, de espiritualidade etc.

Há oito meses testemunhamos a mutilação do estado democrático de direito no Brasil e mergulhamos em um período de esquartejamento de todo o tipo de direito social da classe trabalhadora. E embora tivéssemos calculado as consequências mais diretas de abrirmos mão da democracia ainda não estamos equipados para enxergar as indiretamente relacionadas.

Incapazes de entender as cada dia mais pesadas dificuldades da vida pelo que elas são – pura e simples luta de classes patrocinada por um governo autocrático que tira direitos do povo e os transforma em benefícios para o alto empresariado – a classe média, que se enxerga elite mas na verdade está alinhada com as necessidades da classe trabalhadora – vai se aprofundar em nervosismo, incompreensão, desespero e seguir espanando.

A consequência é que haja pessoas que se isolem ainda mais em seus castelos despedaçados e cedam a seus instintos mais animais já que, como sugere a TV, a culpa pelo fracasso da minha vida é daquela vadia, daquele mulato, daquele imigrante, daquela bicha; A culpa é sempre do diferente, mas nunca, jamais, do sistema econômico porque o sistema econômico, segue sugerindo a TV, é o melhor de todos dado que a alternativa seria, como dizer… os horrores do comunismo.

Por agora vamos deixar de lado a crítica à narrativa infantilizada que prega que a única alternativa ao capitalismo seria o comunismo. Isso fica para outro texto.

Sem compreender de forma real por que não há mais dinheiro para comprar as coisas que até pouco eram compradas, sem conseguir mais pagar a escola dos filhos, ou fazer as viagens que até ontem eram feitas, e alimentada pelo noticiário tendencioso e simplista que repete dia após dia ser tudo culpa da corrupção do PT, os fracos se entregarão ao convívio íntimo de seus monstros mais grotescos.

Infelizmente a tendência é a violência piorar muito, talvez caminhar para níveis que até agora não tínhamos conhecido por aqui.

A carta do assassino de Campinas é um manifesto político. Ela faz o grande favor de revelar publicamente como o crime estava amparado em ideologia.

Foi feminicídio. Foi intolerância. Foi preconceito.

Foi uma chacina alinhada às mais baixas crenças que sustentam a atual ideologia de direita no Brasil e no mundo.

Nem todo o homem e a mulher associados com o pensamento de direita são monstros, é evidente. Mas hoje em dia parece que todos os monstros estão associados à direita.

Boa sorte aos que seguirão tentando gritar que o horror de Campinas não foi político. Foi político sim. Da primeira à última bala.

11 pensamentos sobre “Tudo é política

  1. Discordo, não dá para saber quantos monstros estão do lado direito ou esquerdo. E acho que a pergunta mais importante seria: é importante saber que lado tal monstro está? É um monstro, não importa quem seja, quem segue ou deixa de seguir, ou o que gosta. Agora, o grande problema é a generalização que está sendo tomado esse assunto. Eu não ficaria rotulando alguém, como tenho percebido por aí nas redes sociais e outros blogs, que alguém que é psicopata, preconceituoso, machista etc segue o lado da direita, ou da esquerda ou nenhum lado, ou que seja rico, pobre, negro, branco, amarelo. Tanto faz, é um psicopata. Falar que alguém com essas características esteja mais para o lado da direita, é um perigo enorme, pois pode despertar a ira do outro lado e começar a tomar atitudes como se fossem pré-justiceiros. “Eu vou tomar uma atitude contra o direitista pq ele pode cometer os mesmo crimes que o outro cometeu”. Da mesma forma que o da direita poderia tomar essa mesma atitude… a carta pode ser motivo politico, agora generalizarem é o grande problema e que pode resultar em quem não tem nada haver com isso…

    Curtir

  2. Amo seus textos! Por mais pessoas sensatas como você! “Nem todo o homem e a mulher associados com o pensamento de direita são monstros, é evidente. Mas hoje em dia parece que todos os monstros estão associados à direita.”

    Curtir

  3. Sim, por mais que os da direita façam lavagem cerebral, a verdade é que todos os ganhos sociais – por mais singelos que sejam veio sempre da esquerda, e sempre com MUITÍSSIMO sacrifício, porque a direita só tem tempo para fazer atrocidades e denegrir qualquer ato de humanidade – a história está repleta de exemplos … !!!

    Curtir

  4. Caríssima Milly, tudo bem?
    Não vou me apegar ao tema da coluna, até por não ter o que comentar. Entendo e concordo com o seu ponto de vista.
    Mas tenho uma pergunta a respeito do título, do primeiro parágrafo e do princípio que norteia e explica a coluna: “tudo é política”.
    Se tudo é política… então religião também é política. Então não dá pra criticar quem legisla com base em religião, ou é eleito com base em religião, não? Não dá pra dizer que “política e religião” não se misturam, porque religião já é política.

    Curtir

  5. Excelente reflexão. Tenho uma visão mais à direita e até então não tinha visto nada escrito de forma racional. A polarização deixa o discurso mais superficial e você conseguiu demonstrar o que eu estava me negando a acreditar… Obrigado.
    By the way acho que o preconceito religioso é mais latente na esquerda, mas isso não faz diferença no seu texto.

    Curtir

  6. Pingback: Tudo é política « Associação Rumos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s