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Todos nós, Daniel Blake

No sábado fui com uma amiga assistir “Eu, Daniel Blake”, o filme que causou comoção em Cannes no ano passado e que saiu de lá com o Palma de Ouro, e uma coisa estranha aconteceu ao final da exibição.

Sob todos os aspectos trata-se de uma obra perturbadora, devastadora, comovente e edificante. Quando o filme acaba a audiência inteira está conectada em êxtase e incredulidade. Não é possível se mexer, tentar secar as lágrimas, mover qualquer parte do corpo. É possível apenas permanecer encarando a tela com os olhos molhados e arregalados.

Daniel Blake, de Ken Loach, é uma história sobre a crueldade do neo-liberalismo, sobre vida e morte em tempos de capitalismo selvagem, sobre amor e solidariedade, sobre perdas e descobertas.

O filme se passa em Newcastle, cidade do Norte da Inglaterra, e lida com todos os obstáculos que um homem simples enfrenta ao ser obrigado a parar de trabalhar por ordem médica e passa a precisar da ajuda do Estado para seguir vivendo.

“Blake” aborda com sutileza cruel as mazelas da privatização de todas as coisas, da transformação dos bens mais básicos em mercadoria, da profunda diferença que existe entre a caridade que o sistema perverso institui como o golpe final na dignidade, e a solidariedade que apenas as relações humanas sinceras são capazes de gerar.

É impossível não se revoltar com as coisas às quais Blake é submetido, é impossível não ficar do seu lado, não chorar com ele, não querer rasgar a tela para abraçá-lo. Impossível não perceber que Blake somos você e eu.

Quando finalmente conseguimos nos mexer a audiência começou a aplaudir e a gritar “Fora Temer”, reconhecendo no governo atual a mesma ideologia neoliberal, a mesma gula bárbara  pela privatização de tudo e de todos que triturou Blake. E foi nessa hora que o absurdo se deu: uma senhora que estava na sala gritou “Fora PT”.

Onde esteve aquela senhora pelas últimas duas horas?

O filme mostra com poesia e verdade que diante do atual cenário econômico e da desigualdade brutal e crescente apenas um estado de bem-estar social pode trazer justiça, apenas um estado de bem-estar social pode conferir uma certa dignidade às classes menos favorecidas, e ainda assim a tal senhora foi capaz de gritar “Fora PT” em resposta a quem gritava “Fora Temer”.

A despeito de toda a corrupção que há séculos nos governa, a despeito de mensalões e petrolões, é preciso muita desinformação ou má vontade para deixar de ver que foi apenas com Lula que a pobreza extrema perdeu força no Brasil.

Bolsa família, ProUni, cotas, sistema unificado de saúde pública e uma série de medidas tomadas a fim de dar dignidade e moral aos mais miseráveis foram obra do PT. Como disse Brecht: primeiro o estômago, depois a gente fala de moral. Com Lula, goste-se ou não dele, foi sempre “primeiro o estômago”, e é difícil de entender a lógica de quem é se opõe a isso.

É preciso uma dose exagerada de alienação para deixar de reconhecer os benefícios sociais dos anos em que fomos governados por Lula e Dilma; é preciso uma dose extra de deficiência cognitiva para assistir um filme como “Eu, Daniel Blake” e ao final gritar “Fora PT”.

Como estava na companhia de uma amiga elegante e educada não gritei de volta para a mulher o que teria gritado se estivesse sozinha, que era: “A senhora dormiu pelas últimas duas horas ou é apenas alguém incapaz de entender um filme tão simples?”

Daniel Blake somos você e eu, e provavelmente até aquela senhora, tendo que duelar diariamente com uma economia a cada dia mais privatizada, com um sistema de saúde que contabiliza doença como oportunidade de lucro, que lida com seres humanos como lida com commodities.

A uma certa altura do filme, quando Blake está sendo levado para um carro da polícia, um pedestre grita para os policiais: “um dia vão privatizar vocês. Um dia vocês também serão demitidos”, e em seguida chama o operário Daniel Blake de “Sir”, distinção conferida apenas aos mais nobres na sociedade inglesa, numa das cenas mais tocantes.

Blake somos você e eu sendo usados como instrumentos, somos você e eu sugados de nossa humanidade, de nossa dignidade, de nossos direitos mais básicos por um sistema que devora, mastiga, engole e depois cospe nossos restos. Blake é o sujeito castrado de sua alma criativa para exercer um trabalho sem sentido, repetitivo, tedioso, submetido a formas de autoridade que não se justificam e nos transformam em fragmentos de seres-humanos.

Blake é o sujeito que, como tantos outros, vive uma vida sem sentido em benefício da classe que está no poder. O sujeito que descobre que um Estado dominado por uma pequena elite está pronto para usar a violência a fim de manter as coisas inalteradas, e o sujeito que descobre que a máquina da propaganda está construída de modo a legitimar e perpetuar essa situação.

Assistindo “Eu, Daniel Blake” fica-se com a impressão de que sempre haverá pessoas boas fazendo coisas boas e pessoas ruins fazendo coisas ruins, mas para que pessoas boas façam coisas ruins é necessário um sistema econômico capaz de oprimir, calar, triturar e doutrinar; um que nada deixa a desejar para o mais perverso tipo de totalitarismo.

Encarar as duas horas de Daniel Blake não é tarefa cheia de prazer porque são duas horas de angústias e medos e dores. Mas, como acontece com boas peças de arte, é através da perturbação e do incômodo que somos capazes de expandir a consciência e alcançar lugares de mais significado, de onde finalmente conseguimos enxergar o óbvio: que estamos irremediavelmente ligados uns aos outros.

É o que talvez Jesus tenha dito com “ama o próximo como a ti mesmo”: ama o próximo porque é tu mesmo. Daniel Blake somos todos nós.

Aqui você pode ver o trailer legendado.

 

2 pensamentos sobre “Todos nós, Daniel Blake

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