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A pichação paulistana celebrada em Yale

O prefeito de São Paulo resolveu se lançar em cruzada contra a arte de rua e, com isso, trouxe acidentalmente à tona um bom debate. Eu mesma não era capaz de explicar de forma articulada a diferença entre Grafite e Pichação antes de ser chacoalhada pelas tristes imagens de funcionários da prefeitura apagando o mural grafitado da avenida 23 de maio.

Depois de ler alguns artigos a respeito da arte de rua, cujos links colocarei ao final do texto, aprendi que grafite é normalmente colorido e alegre, e que a pichação é uma forma de intervenção urbana que não faz uso de cores, mas de um código de linguagem que apenas os pichadores são capazes de entender.

O pixo, como é conhecido popularmente, vem também da periferia e nasceu como uma manifestação de voz dos excluídos que, vivendo fora dos centros, encontraram nessa linguagem de códigos uma forma de ocupar a cidade e se fazer notar, criando uma narrativa tão autêntica quanto inusitada, fazendo nascer um novo modelo de arte política.

Tanto que há quase um ano a universidade de Yale, uma das mais celebradas dos Estados Unidos, apresentou a mostra “Pixação + Contemporary Art: From the Periphery to the Center” (“Pichação + Arte Contemporânea: da Periferia para o Centro”), que avaliou aspectos culturais da arte de rua brasileira.

Quando o prefeito de São Paulo decidiu declarar guerra à arte de rua, como se a cidade não tivesse outras prioridades, tuitei que vandalismo era apagar grafite e depois disso uma enchurrada de declarações sem sentido inundou minha time line. As mais populares eram “deixa então picharem a sua casa”, que é o novo “tá com dó leva para casa”.

Como não tinha me referido ao pixo, mas apenas ao grafite, fui em busca de mais informações sobre a pichação, uma intervenção pela qual particularmente não nutria nenhuma simpatia estética, a fim de entender por que as pessoas estavam confundindo as duas.

É curioso como um pouco de informação pode transformar nosso ponto de vista.

Ao entender o que era o pixo, ao perceber que se trata de uma forma de expressão artística criada por aqueles que preferem ser odiados do que ignorados, mudei meu conceito em relação a ele e, embora ainda o estranhe esteticamente, me apeguei conceitualmente.

Nas palavras de Cripta Djan, nosso artista-pichador que chamou a atenção de Yale, “distinguir pichação de vandalismo ou de arte sofisticada é apenas uma questão de gosto”.

Há quem goste de Romero Brito, e não sou eu que vou dizer que Romero Brito não é arte; há quem goste do pixo, há quem goste de grafite. O importante é tentar entender a raiz dessas expressões artísticas, debatê-las, celebrá-las — e, claro, haverá situações em que o mais adequado será apagá-las.

Só que antes de apagá-las, se essa for a decisão correta, é preciso que se pense um pouco a respeito de seu significado já que se trata de uma manifestação cultural que ajuda a dar identidade à cidade – goste-se ou não de sua estética.

Se fizéssemos isso ficaria claro que a pichação não é uma das causas das mazelas da cidade, mas consequência delas já que nasceu como um pranto da juventude da periferia em busca de visibilidade; a arte política sempre vai gerar ou revolta ou solidariedade, e as duas sensações visam um mesmo destino: transformação.

Mas o fascismo jamais negará espaço à boçalidade, e um prefeito obcecado com sua própria imagem e inundado de ignorância ainda nos convidará, acidentalmente, a debater muitas outras coisas.

Como por exemplo a atitude totalitária de mandar a polícia civil investigar pichadores monitorando-os em redes sociais, de aumentar a velocidade em vias expressas, de autorizar que a guarda civil metropolitana recolha cobertores e moradores de rua, de criar seu próprio tipo de intervenção urbana para impedir que moradores de rua durmam em calçadas, de testar calçada pilotando ele mesmo uma cadeira de rodas, de se vestir de varredor de rua, de tirar comida dos abrigos mas colocar shampoo e desodorante.

Serão quatro longos anos cinzentos os próximos.

Leia mais aqui sobre a exibição em Yale.

E aqui uma boa matéria a respeito da diferença entre Grafite e Pichação.

6 pensamentos sobre “A pichação paulistana celebrada em Yale

  1. O texto faz-nos pensar no que é ou não é arte. Quem avalia e quem tem essa decisão? Bansky, para o elitista prefeito de São Paulo, é um “pixador”… Mas a sua mulher é artista plástica… Um beijo.

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