Comportamento/Economia/Política

A primeira entrevista oficial de Trump como presidente

Trump deu sua primeira entrevista como presidente à rede de TV ABC no dia 25 de janeiro. Sob qualquer aspecto que se analise a conversa entre ele e o repórter David Muir o resultado não deixa de ficar entre o terror absoluto e a mais completa desesperança no futuro da humanidade.

Até aqui todas as boçalidades que saíram da boca de Trump estavam sendo consideradas artimanhas de campanha e, ponderavam alguns, ele não usaria a mesma retórica cretina uma vez ocupando a Casa Branca.

Infelizmente quem achava isso estava errado.

A histórica entrevista começa com Trump reafirmando a construção do muro entre Estados Unidos e México.

Primeiro ele diz ao repórter que o contribuinte americano não arcará com o custo (estimado em 15 bilhões de dólares, fora a manutenção) e garante que o México pagará integralmente pelo muro. Depois diz que o México vai reembolsar os custos, o que indica que o contribuinte americano pagará sim por essa maluquice.

O repórter diz que o presidente mexicano avisou que não pagará um centavo por um muro que tira a dignidade de toda uma nação. Trump insiste que os Estados Unidos serão reembolsados, mas é incapaz de explicar como pretende fazer isso acontecer.

“Temos que fazer com que as pessoas parem de jorrar para dentro desse país”, explica o homem mais poderoso do mundo acrescentando duas barbaridades ao pensamento (ou à falta dele): “Não temos ideia de onde elas vêm” e “Vai ser muito bom para o México também”.

Bom para o México no sentido do adolescente que leva um murro do pai e, desmoralizado, ainda é obrigado a pagar pelo pronto socorro.

Trump habita um planeta paralelo que gira em torno de suas verdades alternativas. Não há nenhuma preocupação com os fatos, apenas as vontades egóicas de um homem arrogante e mimado de fazer sua opinião prevalecer sobre as demais, ainda que ela seja totalmente baseada em mentiras. Vendo ele falar chega-se rapidamente à conclusão que se o muro for de fato erguido o melhor lugar para se estar será o do lado mexicano.

O repórter pressiona a respeito da construção do muro, tentando não deixar transparecer o que sente em relação ao tema, e vendo aquilo penso que ele nem precisaria se esforçar tanto porque Trump parece ser possuído por algum tipo de desordem mental que o impede de analisar sensivelmente outro ser humano. Ele quer falar dele, das ideias dele, da astúcia dele. E se uma ideia que considera boa não pode ser sustentada por fatos ele simplesmente inventa dados e estatísticas que a sustentem.

“Pessoas me ligam para dizer que estão muito felizes com a construção do muro”, é a explicação que Trump oferece a respeito da popularidade do muro.

Quando o tema passa a ser deportação de imigrantes e o fato de famílias serem separadas à força ele vai logo avisando que não há com o que se preocupar porque “possuo um grande coração”, a despeito de aparentemente ter vindo sem cérebro, e segundos depois defende que se deporte imediatamente todos aqueles que cometeram algum crime (dias depois ele diria que para ser deportado o imigrante ilegal não precisaria ter praticado delito, bastaria ter sido acusado de um).

Depois volta a passear pelo universo dos fatos alternativos e fala da suposta, e até aqui inventada por ele, fraude eleitoral e dos milhões de votos ilegais que o fizeram perder a disputa para Hillary (Trump venceu nos colégios eleitorais, que é o que vale para ser eleito, mas não no voto popular).

“Eu só perdi no voto popular porque não fiz campanha para ganhar no voto popular, e me preocupei em vencer nos colégios eleitorais”, diz soando claramente paranóico com a derrota. Depois, ainda visivelmente transtornado, oferece outra explicação e conta que só perdeu por causa dos milhões de votos ilegais, que, segundo ele, foram todos para Hillary.

“Há pessoas registradas para votar mas que já morreram, há pessoas registradas em dois estados e que votaram duas vezes”, diz ventilando um número entre 3 e 5 milhões de votos ilegais.

O repórter avisa que o que ele dizer que milhões de votos ilegais foram computados é grave para o ambiente democrático e que não há nenhuma prova do corrobore essas afirmações.

Trump cita o Instituto de pesquisa Pew como sustentação para seus argumentos. O repórter diz que ligou na noite anterior para o Pew e que eles não confirmam absolutamente nada parecido.

Trump não parece preocupado com a verdade atirada em seu colo e completa: “Milhões de pessoas concordam comigo. Elas ligam e dizem: ‘eu concordo! eu concordo! São pessoas espertas”. E depois, como se estivesse oferecendo mais provas cabais da suposta fraude: “E eu já escutei histórias [de pessoas que votaram duas vezes]”.

(De fato, o site Truthdig encontrou duas dessas pessoas que têm registro duplo: o conselheiro de Trump Stephen Bannon e Tiffany Trump, sua filha caçula).

Sobre o discurso que fez para agentes da CIA, considerado por muitos como uma grande aberração egóica, ele mesmo tratou de avaliar como um “home run”, no sentido de ter sido “uma goleada” para tentar fazer uma comparação equivalente.

“Disseram que foi um dos melhores discursos já feitos. Tinha gente aplaudindo de pé e gritando”. (Não há como duvidar que houvesse quem estivesse gritando. Eu provavelmente estaria).

A certa altura, perguntando sobre o que pensa da tortura a presos, ele diz que conversou com “os generais” e que eles alegam que a tortura funciona bastante. Diante da incredulidade do repórter ele insiste: tortura funciona, repete.

A respeito da quantidade baixíssima de pessoas que estiveram presentes a sua posse ele avaliou, dando uma banana para as imagens que comprovam a ausência de interessados in loco, que “tratava-se de uma tremenda multidão, e eu já vi multidões. Eu olhei e disse: ‘uau!'”

Depois comparou Chicago ao Afeganistão porque, segundo ele, em Chicago você pode levar um tiro indo comprar um pão na esquina, e disse que se eles [Chicago] não resolveram essa carnificina então, como presidente, enviará os “Feds” (agentes federais) para lá, mas não foi capaz de explicar por que, para que ou como faria isso.

Por fim disse que o erro americano no Iraque foi sair de lá sem o petróleo. O repórter, a essa altura bem mais pálido do que no começo da entrevista, explica que especialistas garantem que fazer isso seria quebrar todas as leis internacionais, e Trump responde: “Quem diz isso? Tolos!”, e deixa no ar a possibilidade de, quem sabe, os Estados Unidos terem outra chance de saírem de lá com todo o petróleo iraquiano.

Trump parece acreditar que os Estados Unidos podem entrar onde quiserem, quando quiserem e pegar o que quiserem. Como Obama, e todos os que o antecederam, também faziam parecer, é verdade, mas com um pouco menos de vulgaridade.

Antes de sair pegando petróleo dos outros o protocolo manda se aconchavar ao poder econômico local e buscar vitórias legislativas (como tão bem sabemos).

Não há como assistir os 30 minutos da entrevista sem hiperventilar. Trump é a soma de boçalidade com arrogância, com ignorância e com um tipo doentio e maníaco de excesso de ego. Há pouca coisa nele além da petrificante ausência do menor vestígio de maturidade emocional.

O que seria um problema apenas dele, dos familiares e de seus pobres funcionários não tivessem levado o maníaco à presidência e entregue a ele códigos nucleares que, ao apertar de um botão, podem destruir a humanidade.

É uma temeridade que alguém com esse tipo de desordem mental e coeficiente de boçalidade tenha sido conduzido ao cargo de homem mais poderoso do planeta.

Se Trump cumprir os quatro anos de mandato sem sofrer um Impeachment – e alguma coisa me diz que ele em breve terá reunido muitos motivos legais para ser retirado do poder – então as chances de continuarmos existindo são muito baixas.

Aqui a transcrição da entrevista (em inglês).

 

3 pensamentos sobre “A primeira entrevista oficial de Trump como presidente

  1. Belíssimo texto. Só discordo de considera-lo insano. Ele é mentalmente apto, mas é uma das pessoas mais politicamente perversas que ja vi. Um fascista no sentido puro do termo. Estamos fritos.

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