Comportamento/Economia/Política

O rebanho desorientado foi outra vez domesticado

A ideia de que democracia envolve controlar a população para que ela transite dentro de um limite aceitável de liberdade e de poder de escolha não é nova.

Se não fosse por esse controle era apenas questão de tempo para que a população batalhasse por legislações que servissem a seus interesses, como, por exemplo, num mundo afundado em enorme desigualdade social, optar por mega taxações a corporações e a grandes fortunas, e pelo sólido aumento de incentivos sociais de todos os tipos.

Mas esse tipo de iniciativa fragmentaria o domínio da elite econômica, então, em nome de deixar no poder quem sempre esteve nele, é preciso convencer a população de que medidas como essas são bastante ruins para ela.

(A despeito de um dos maiores economistas e pesquisadores do mundo, o francês Thomas Piketty, ter escrito recentemente um livro de quase oitocentas páginas para provar de que a única alternativa a esse caos social mundial é a mega taxação de grandes fortunas).

Para manter a população pacificada e alheia a seus próprios interesses é preciso, como Noam Chomsky explica há anos, que se fabrique consensos e, com eles, aprisione-se o cidadão na ignorância.

Nessa hora entra em cena a máquina da propaganda política, que existe há pelo menos 100 anos e que hoje atende pelo nome de noticiário.

A primeira operação de propaganda governamental da nossa era aconteceu nos Estados Unidos em 1916 durante o governo de Woodrow Wilson. A Europa estava em plena Primeira Guerra Mundial e Wilson tinha sido eleito com a plataforma “Paz sem Vitória”.

Os Americanos não estavam a fim de Guerra, não viam motivo algum para se meter na bagunça europeia, mas o governo de Wilson já tinha se comprometido com a sangria e precisava do apoio da opinião pública para dar início ao plano.

Tudo isso está no livro “Mídia – Propaganda Política e Manipulação”, de Noam Chomsky.

Nas palavras do autor: “Foi constituída uma comissão de propaganda governamental, a Comissão Creel, que conseguiu, em seis meses, transformar uma população pacifista numa população histérica e belicosa que poderia destruir tudo o que fosse alemão, partir os alemães em pedaços, entrar na Guerra e salvar o mundo”.

Depois da Guerra, as mesmas técnicas de propaganda, tão bem sucedidas, seriam usadas para insuflar um histérico Pânico Vermelho, uma ameaça que aqueles que têm mais de 40 anos conhecem bem porque fomos criados aqui também sob a grita de “os comunistas estão chegando”, cujo texto subliminar era “precisamos apoiar os militares porque só eles nos salvarão, portanto fechem os olhos para os horrores que estão sendo cometidos porque eles são cometidos para o nosso bem”.

Nos Estados Unidos, o “Pânico Vermelho” conseguiu destruir sindicatos e a liberdade de pensamento político (hoje apenas 10% dos trabalhadores americanos pertencem a um sindicato).

Comunismo e socialismo viraram palavras proibidas, “luta de classes” passou a ser uma expressão que, por expor verdades há muito escondidas, oferecia tanto medo ao poder econômico que precisava ser ridicularizada sempre que tentasse sair das trevas, e Marx e sua obra viraram os inimigos número um.

Não era recomendado ler, muito menos entender o que Marx disse. Bastava, para isso, olhar os horrores do comunismo praticado na União Soviética e na China (ainda que nada do que estivesse acontecendo por lá pudesse ser associado diretamente com o que escreveu Marx, que deveria ser lido nem por conhecimento de abrangência econômica, mas pela ampla crítica que ele fez ao capitalismo que estava nascendo, e também por conhecimento filosófico, social e até espiritual).

Arquitetando esses planos estavam aqueles conhecidos como intelectuais progressistas que se consideravam os membros mais inteligentes da comunidade. Tão inteligentes que eram capazes de convencer uma multidão pacificada a desejar sangue apenas alimentando-a de terror e de fanatismo nacionalista.

Boa parte do material usado para a doutrinação na época foi criado pelo Ministério da Propaganda britânico, dedicado a “controlar a opinião da maior parte do mundo”, segundo ele mesmo.

Pouco tempo depois essas comissões de propaganda passaram a ser consideradas revoluções na arte da democracia, e ganharam a simpatia de “figuras de destaque na mídia”, como conta Chomsky.

O americano Walter Lippmann [1889-1974] era uma dessas figuras. Para ele, a “revolução na arte da democracia” poderia ser usada para construir consenso, ou, mais especificamente, “obter a concordância do povo a respeito de assuntos sobre os quais ele não estava de acordo por meio de novas técnicas de propaganda política”.

A classe de intelectuais a que Lippmann pertencia achava que “os interesses comuns escapam completamente da opinião pública e só podem ser compreendidos e administrados por uma classe especializada de homens responsáveis, suficientemente inteligentes para entender como as coisas funcionam”, segundo Chomsky.

A noção, ainda muito atual, é a de que a massa ignorante precisa ser conduzida por uma classe de homens que sabe e pode mais. Para Lippmann a massa era o “rebanho desorientado”, cuja função na democracia é a de espectador.

O rebanho deve, vez ou outra, transferir seu apoio a algum membro dessa classe especializada e então, pelos próximos quatro anos, se recolher. É o princípio moral que diz que a população é por demais estúpida para conseguir compreender as coisas.

Para que o rebanho não queira se rebelar é preciso mantê-lo distraído. Consumo, entretenimentos vazios, notícias ocas de significado, bebida… qualquer ilusão necessária vale para que o rebanho siga sendo apenas o espectador.

A fim de domesticar esse rebanho desorientado é preciso que se fabrique consenso, e para isso existe hoje um arsenal midiático e, claro, as escolas (escrevi de forma mais pessoal a respeito da manipulação exercida pela mídia aqui)

“A lógica é cristalina”, diz Chomsky. “A propaganda política [hoje difundida pelo noticiário] está para uma democracia assim como o porrete está para um Estado totalitário”

Todos esses acontecimentos ficaram como lição, segue Chomsky. “A propaganda política patrocinada pelo Estado, quando apoiada pelas classes instruídas e quando não existe espaço para contestá-la, pode ter consequências importantes. Foi uma lição aprendida por Hitler e por muitos outros, e que tem sido adotada até os dias de hoje”.

Aplique-se isso ao Brasil da atualidade e a cartilha de Lippmann estará inteirinha aí.

Tudo porque, vez ou outra, as relações sociais e econômicas desejadas pela “classe especializada” são ameaçadas pelo aumento no nível de consciência social e o alerta “pânico” é acionado.

Normalmente acontece quando as classes mais baixas começam a ascender e a incomodar, quando a classe média tem vislumbres de que seus interesses talvez sejam os mesmos interesses da classe trabalhadora, e, portanto, radicalmente opostos ao da elite, quando a população passa a entender que o caminho é, provavelmente, aquele ali pela esquerda.

Nessa exata hora o rebanho precisa ser chacoalhado e, quem sabe, tirado temporariamente da frente da TV e de suas ilusões necessárias para ser conduzido às ruas batalhar por políticas que irão devorá-lo.

Para chacoalhá-lo fabrica-se o medo, o terror, o “pânico vermelho”, a crise, o inimigo, a narrativa única. Com a população apavorada e babando para dilacerar o inimigo escolhido, o rebanho desorientado, ainda em fúria, pode ser conduzido ao lugar que cabe a ele: o de espectador.

Restabelecida a ordem o rebanho deve voltar ao seu lugar, que é em frente ao aparelho de TV a fim de assimilar a fabricação de novos consensos que irão perpetuar o estado de coisas desejado pelo poder econômico.

Estando a mesma elite de sempre finalmente em paz no poder, seguimos com as vídeo-cassetadas.

Todas essas histórias, e muitos outros exemplos de manipulação, estão em “Mídia – Propaganda e Manipulação”, de Noam Chomsky.

3 pensamentos sobre “O rebanho desorientado foi outra vez domesticado

  1. Texto ótimo, cristalino: o retrato da opressão exercida pelos donos do poder em qualquer lugar e, especialmente, no Brasil. Os histéricos estão em silêncio, contemplando as fotos dos cachorrinhos, das praias das férias e as mensagens de autoajuda no facebook. ” Diga amém” . Tudo voltou ao “normal”.

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