Comportamento/Economia/Política/Vida

A perigosa farsa que Doria representa

O prefeito João Doria cumpriu promessa de campanha e doou o salário de quase 20 mil reais à Associação de Assistência à Criança Deficiente, mas não sem antes convocar a mídia para clicar e tornar pública tamanha bondade.

O gesto, incluindo o registro para a posteridade, tem a óbvia intenção de resplandecer benevolência, mas a benevolência nele embutida é transformada em pó antes mesmo que possamos completar a frase “hoje é dia de clarear os dentes”.

Em defesa do prefeito paulistano, não foi ele que inventou o capitalismo filantrópico que tanto gosta de praticar. Nos Estados Unidos o capitalismo de doações, ou “philanthrocapitalism”, em termo cunhado pela revista “The Economist”, navega em mar aberto, tendo Mark Zuckeberg e Bill Gates seus melhores garotos-propaganda.

O filantro-capitalismo é apenas uma das estrebuchadas de um sistema moribundo que tenta, de todas as formas, sobreviver por mais algum tempo.

O acúmulo de riqueza por parte de alguns homens no mundo (oito, mais especificamente) é tão colossalmente enorme que doar passa a ser o lastro para conferir status, já que não é de fato diferente ter 5 quinquilhões de dólares em seu nome ou 3 quinquilhões de dólares: tudo o que um pode comprar o outro também pode, ficando difícil estabelecer quem é, portanto, o mais rico entre eles.

Mas se fosse apenas um jogo que envolvesse vaidade nem seria tão ruim.

Segundo o site Truthout, para o historiador dinamarquês Mikker Thorup, que recentemente lançou um livro sobre o tema, o capitalismo filantrópico carrega a ideia de que o capitalismo é tão bom que contém a caridade em si mesmo. Ele explica:

“[O capitalismo filantrópico] é alegação é a de que os mecanismos do capitalismo são melhores do que todos os demais, especialmente do que aqueles oferecidos pelo Estado, quando se trata não apenas de gerar economia, mas também progresso humano”.

O aspecto filantrópico do capitalismo, segundo o historiador dinamarquês, pretende mostrar que não existe aquele tão alardeado conflito entre ricos e pobres sobre o qual a esquerda gosta de executar seu sapateado maluco ; muito ao contrário disso: o rico é, na verdade, o melhor e único amigo do pobre.

Observar Doria exercer suas atividades como prefeito – ou o que ele imagina que sejam as atividades de um prefeito – é ter acesso a uma triste ilustração de alma cinza e pele laranja da explicação de Thorup.

Ao oferecer de forma pública e graciosa seu salário à caridade, Doria alimenta no inconsciente coletivo a velha noção de que, como escreveu Eleanor Badder no Truthout, “o rico é de alguma forma merecedor da riqueza adquirida, e é mais esperto, mais criativo, mais sortudo e melhor do que os demais”.

Diante desse imaginário, Thorup critica a mídia, que sempre deixa de estabelecer as devidas conexões entre grandes fortunas e crimes como evasão, sonegação, exploração, corrupção etc, ajudando a tornar implícito que o empresário bilionário é um sujeito de muito talento e apenas por isso acumulou fortuna.

A mensagem subliminar isenta o capitalismo de falta: se você não foi capaz de acumular fortuna, a culpa é provavelmente sua.

O capitalismo filantrópico, portanto, é imoral ao perpetuar a desigualdade, ao reforçar tabus e ao desviar esforços para que haja uma sólida e profunda redistribuição de renda e de poder em um mundo no qual oito homens acumulam riqueza igual a de 3 bilhões e meio de seres humanos, ou de metade da população do planeta.

Além disso, legitima a caridade e ofusca a solidariedade, deixando de revelar que a primeira é vertical, nasce da desigualdade e existe mais confortavelmente dentro de uma relação de poder; e a segunda é horizontal e não depende de diferentes alcances de saldo bancário para ser praticada.

Ou, melhor ainda, nas palavras da anarquista Emma Goldman que foi capaz de antecipar tudo isso há 100 anos: “O capitalismo rouba o homem de seu brilho, poda seu crescimento, envenena seu corpo, o mantém na ignorância, na pobreza e em dependência, e então institui a caridade, que arranca do homem o último vestígio de respeito próprio”

11 pensamentos sobre “A perigosa farsa que Doria representa

  1. Para quem gosta de Bíblia (os “homens de bem” adoram): “quando deres esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti” (Matheus, Cap VI). Faça ocultamente, não um espetáculo para a mídia reproduzir em seus veículos. Senão fica parecendo marketing pessoal, né, prefeito?

    Curtir

  2. Tenho certeza que a AACD não vai reclamar dessa doação. Tivesse sido o Haddad a fazer isso – o que não fez, até onde me recordo -, tenho certeza que o discurso seria outro.

    Com publicidade ou não, ele doou e, independentemente do retorno direto ou indireto que isso venha a ter pra ele, a questão é que a AACD deve fazer bom uso do dinheiro. Ou seja, sob o aspecto prático, das dificuldades do dia a dia, o ato foi efetivo.

    Os questionamento filosóficos do ato têm pouca ou nenhuma relevância diante do perrengue que a associação passa diariamente e que essa contribuição deve ajudar ao menos um pouco.

    Por fim, se não tivesse doado, seria execrado por ser o rico prefeito que não doa o salário. Vai entender.

    Curtido por 1 pessoa

    • Rafael, até entendo uma parte de seu posicionamento. De fato a entidade precisa e esperamos que faça bom uso da doação.
      Mas ao contrário do que você afirma, não considero normal esperar que ocorram doações de salários por aí. Afinal, se o prefeito trabalhou, ele faz jus a uma remuneração pelo serviço prestado. Não vamos pensar que ele assumiu tal responsabilidade por puro altruísmo, ainda que saibamos que tal remuneração não se faça necessária para ele.
      Mas aquele que precisa e não faz doação, estaria errado?
      E se a intenção é apenas doar mesmo, para fazer o bem, ele precisa comprovar e divulgar da forma como fez?

      Curtido por 1 pessoa

      • Isabella, não quis dizer que se deva esperar doações de salários, ainda mais da forma integral como se deu e se dará até o término do mandato, segundo promessa do Dória. Acho que se ele trabalha, ele merece receber por aquilo. Realmente não creio que o ato seja por puro altruísmo ou que ele esteja governando a cidade somente porque gosta dela. Claro que há publicidade envolvida e sim, o ato poderia ter sido discreto.

        Não sou ferrenho defensor de ninguém. Tenho visto coisas que me agradaram no governo dele, mas há também o que desagrade.

        O meu ponto foi que o dinheiro, pelo menos, foi para uma instituição que fará bom uso dele. Isso é positivo. O aspecto midiático é negativo sim e ele deveria se esquivar disso para as próximas doações – mas diante do big brother que está sendo cada dia de gestão, acredito que isso não irá ocorrer.

        De qualquer forma, ao se colocar prós e contras na balança, penso que o gesto ainda traz mais benefícios para as entidades do que malefícios, do ponto de vista teatral da formalização.

        Curtir

  3. Pingback: Desacelera, São Paulo | Blog da Milly

  4. Pingback: A respeito da demissão de Soninha | Blog da Milly

  5. Não é o caso do Dória, pois não defendo políticos, ainda mais deste PSDB, mas no caso do Gates, por exemplo, ele disse ser grande simpatizante do Socialismo, não seria por isso, que faz algo assim?

    Gozado, o cara acumular bens e não se importar com ninguém é errado, e fazer algo pelo próximo é errado? Está certo que alguns o fazem para chamar atenção para si, para abater impostos ou qualquer outra coisa, mas ao menos fazem. Pois tem muitos que mesmo assim não o fazem, tanto Capitalistas quanto dito Comunistas. Logo, é válido de alguma forma.

    Curtir

  6. A grande pergunta que não quer calar: Se o empresário é realmente assim tão, filantrópico, porque Dória precisa isentar dividas e dar incentivos fiscais para que eles “colaborem voluntariamente” para ajuda-lo a construir as creches? Sério, na prática, a iniciativa privada no Brasil se vale mais do que é orçamento público ´ra si do que ajuda no orçamento público: em alguns países, por exemplo, os times de futebol promovem atividades de reassociação e constroem escolas e creches, aqui o estado perdoa dívidas e clubes e usa dinheiro público pra construir estádios e até promove loterias para pagar suas dívidas. Os bancos aqui vivem pedindo socorro pros governos, e incentivam atividades culturais cobrando 10 reais a entrada com o governo pagando o resto.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s