Comportamento/Economia/Política/Vida

A violência do culto ao trabalho

Michel Temer estava presidente há algumas horas quando disse aos brasileiros: “Não falem em crise, trabalhem”. O prefeito de São Paulo João Doria construiu sua campanha em cima da imagem de milionário-trabalhador e, mesmo depois de eleito, gaba-se de dormir quatro horas por noite e de exigir exageradamente de seus secretários, para quem agora fornece vitaminas a fim de fazer com que suportem ritmo tão espetacular. O político abre a boca para cultuar o trabalho e a imprensa trata de repercutir, deixando implícito que trabalhar muito, sem preguiça e sem reclamar, é uma grandeza de caráter.

O fetichismo do trabalho, a pratica diária de associá-lo a pessoas bem sucedidas e honestas, é uma violência por muitas razões – e aqui é preciso que comecemos a entender violência para além da delinqüência porque a maior forma de violência é a de não reconhecer a humanidade do outro e a tentativa de transformar o homem em uma máquina de trabalho é, assim, uma violência.

Uma análise rápida mostra que não basta trabalhar duro e sem reclamar para acumular patrimônio.

Em primeiro lugar porque no Brasil, assim como no mundo, grandes fortunas não foram erguidas com trabalho árduo, mas sim sobre quatro pilares básicos (exploração, sonegação, evasão e corrupção), uma informação que é sempre omitida quando o assunto é a celebração de homens e mulheres que “chegaram lá”.

Por outro lado todos nós conhecemos pessoas que trabalham em exagero, acordam até mesmo antes de Doria, passam três horas se amontoando com outros seres humanos em transportes públicos para voltar para casa depois de oito horas de suor, arrumar qualquer coisa para comer, dormir e começar tudo outra vez no dia seguinte e ainda assim estão longe, muito longe, de serem ricas.

Para essas pessoas, a vasta maioria da população, o recado de Doria e Temer é uma violência ainda maior porque joga na conta delas absurdos como resolver uma crise que elas não criaram e pela qual não são responsáveis.

Mas o capitalismo em sua versão mais moderna, o neo-liberalismo, é bastante bom em culpar o indivíduo pelas falhas do sistema.

Se você não enriqueceu então talvez não tenha trabalhado o suficiente. Trabalhe mais e não reclame.

Se não emagrece é porque está comendo muito e fazendo pouco exercício (não vamos falar na quantidade exagerada de açúcar injetado em todos os alimentos do supermercado, nem no preço abusivos dos alimentos mais naturais, muito menos na falta de tempo para fazer exercícios).

Se você está doente é porque não se cuidou, e não porque o ar é poluído, ou porque a comida que seu dinheiro pode comprar é um veneno, ou porque tem trabalhado muito mais do que seria saudável.

Mas a beleza do sistema é que para tudo há alternativa financeira, e os gastos com saúde, por exemplo, são computados como crescimento econômico: mais internações, mais remédios vendidos, mais busca por ajuda psiquiátrica etc.

Diante do fetichismo do trabalho, o lazer e o ócio passam a ser negligências, coisa de gente que não tem o que fazer e não quer colaborar para o crescimento econômico.

E aí entra a segunda violência: aquela que omite a informação de que lazer e ócio são fundamentais para o desenvolvimento humano. A dificuldade em transformá-los em mercadoria é o que compromete a boa aceitação deles pelo sistema.

Lazer e ócio envolvem contemplação, reflexão, silêncio. Enquanto com o trabalho nos afastamos da natureza no sentido de que usamos cérebro e músculos para transformá-la, no lazer e no ócio nos misturamos a ela, construindo uma relação muito mais natural e necessária.

Outra violência é não repercutir a ideia de que lazer não envolve ficar duas horas à frente da TV assistindo vídeo-cassetadas, ou levar a família ao shopping, a catedral moderna do consumo. Essas são apenas atividades alienantes.

Lazer envolve passar momentos de qualidade sozinho ou acompanhado daqueles que nos são caros. Envolve ler um livro, ver um bom filme, parar, pensar, refletir, contemplar, se recolher. Lazer não necessariamente envolve gasto, muito menos momentos de stress.

Mas uma sociedade organizada em torno do culto ao trabalho e dentro da qual tudo virou mercadoria, inclusive o tempo (“tempo é dinheiro”), acaba criando válvulas de escape para seguir respirando.

A hora mais feliz do dia, por exemplo, leva o nome de “happy hour” e começa justamente quando acaba o expediente.

Ou o abuso de drogas, lícitas e ilícitas, como tentativa de escapar da realidade dura que uma jornada baseada no culto maníaco ao trabalho oferece, da exaustão, da falta de significado que a vida passa a ter.

Mas há uma recompensa oferecida aos que muito se esforçam; como prêmio por trabalhar sem parar e sem reclamar, fazendo girar a roda maluca da economia que a cada dia acumula mais capital e patrimônio nas mãos de uma quantidade menor de pessoas, recebemos o sagrado direito de consumir.

Alguma coisa tem que estar muito errada com esse cenário.

Por tudo isso declarações como as de Temer e Doria carregam com elas boas doses de violência.

A escritora búlgara Maria Popova elaborou recentemente sobre o tema, e lembrou do livro do filósofo alemão Josef Pieper “Leisure, the Basis of Culture” publicado em 1948: “O lazer é uma forma de quietude que é preparação necessária para se aceitar a realidade. Apenas a pessoa que está quieta pode escutar, e quem não está em quietude não pode escutar”, e o autor segue dizendo que o lazer é a condição básica para o entendimento, a contemplação e a imersão em tudo aquilo que é real.

No mundo atual, um no qual tudo é mercadoria, lazer é coisa de vagabundo. O que importa é seguir cultuando o trabalho exagerado e o consumo indiscriminado. Até que a morte nos liberte de tanta escravidão.

19 pensamentos sobre “A violência do culto ao trabalho

  1. Uma análise lúcida, como sempre. Estou escrevendo um artigo sobre o trabalho doméstico, não o remunerado, mas esse nosso em casa, de cada dia. A invisibilidade social e econômica desses afazeres me lembra muito sua reflexão sobre a improdutividade, normalmente vinculada ao espaço público, que desconsidera tudo o q fazemos entre uma ação maquinal e outra. Quem sabe contribuo com o tema em breve. Parabéns, Milly

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  2. Realmente, muito bom. De fato “O trabalho enobrece o homem”, principalmente o homem que paga pouco, e faz o seus funcionários trabalhar muito! Estes sentem que o ‘trabalho envelhece o homem’. A direita brasileira sonha em cria um país cujo nome seja InGana que o trabalhador seja tão técnico como um trabalhador da Inglaterra mas com o salário de Gana. Belindia. Alienados é que não faltam para repetir como papagaios as baboseira contra eles próprios

    Curtido por 1 pessoa

  3. Pingback: Para todos aqueles que odeiam o trabalho | Blog da Milly

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  7. Pingback: Por um mundo no qual trabalhemos menos | Blog da Milly

  8. Texto do c*ralho! Parabéns!
    Como advogado militante da área trabalhista (preponderantemente em favor de empresas), estou acostumado com patrões que pagam um salário subsitencial e esperam paixão, entusiasmo e obsessão pelo trabalho.
    Hipocrisia que recrudesce com as mulheres, hoje tão exploradas quanto os homens, embora com salários menores e com o “dever social” de tutelar o “lar e a prole”.
    É o retrato desta elite politico-economica “caravelesca” e escroque que recentemente apeou o poder. Passam as férias na Europa do welfare, mas defendem o modelo econômico chinês para o país, em nome, claro, da “competitividade”.
    Detalhe: não me considero de esquerda.

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