Comportamento/Política/Vida

O racismo em mim

Minha primeira opinião ao ler no noticiário o episódio da treta entre a moça de pele branca usando turbante e a moça de pele negra reclamando do uso foi dar razão à branca. Afinal, matutei, cada um usa o que quiser, como quiser, onde quiser. Lado escolhido, não pensei muito mais a respeito do problema porque me parecia bastante claro que eu estava optando pelo time da liberdade.

Mas não era tão simples assim, como quase nunca é quando se forma uma opinião moral baseada em manchete de noticiário porque ela pode estar contaminada por detritos de uma cartilha de códigos éticos que não é mais a nossa – mas que um dia tentaram nos impor.

O texto que me fez parar e pensar a respeito do tema foi a arrebatadora meditação de Ana Maria Gonçalves publicado no Intercept Brasil. O título era contundente e ousado (“Na polêmica sobre turbantes é a branquitude que não quer assumir seu racismo”).

Não precisei de mais de três parágrafos para me enxergar na frente de um espelho, e a imagem que eu via nele não era bonita.

Primeiro, tratava-se de uma imagem que refletia muito de minha ignorância sobre o tema.

Apropriação cultural, fui aprender, é coisa muito séria e eu não estava no lugar mais adequado – descendente de italianos e franceses, classe média-alta, olhos claros, pele branca – para ter uma opinião construída às pressas sobre a questão do turbante.

Afinal, minhas raízes estão ali: a sensação de pertencimento, a possibilidade de visitar a cidadezinha italiana onde minha mãe nasceu, resgatar histórias, ascendência. Mas a sensação de pertencimento para o negro, aprendi recentemente, vem de outros símbolos e signos, quase todos construídos por eles já depois da diáspora e numa terra que não era a deles – símbolos e signos apropriados pelos brancos em nome do lucro.

Não há como resgatar raízes na África porque os rastros foram apagados quando eles chegaram aqui. O turbante, portanto, é mais do que um turbante. É infinitamente mais do que um turbante e só uma nociva mistura de ignorância e arrogância seria capaz de permitir com que eu formasse uma opinião sem saber dessas coisas – como acabei fazendo.

Mas a segunda pancada que levei lendo o texto foi mais violenta: teria eu formado minha opinião inicial sobre o turbante sobre uma base preconceituosa?

Essa possibilidade me apavorou e envergonhou.

Crescer em meio a elite paulistana da década de 70 e 80 era ter acesso a vasto material racista.

Colocações como “branco correndo é atleta e preto correndo é ladrão” e muitas outras piadas que inferiorizavam negros e enalteciam brancos eram comuns e, para usar imagem criada pela cineasta Anna Muylaert, todos nós tomamos racismo (e machismo, e homofobia, e todo o tipo de preconceito) na mamadeira.

Antonia, uma negra simpática e risonha, era nossa babá e praticamente morava em casa porque folgava apenas aos domingos (isso quando não estávamos viajando, porque nesse caso ela ia junto e não havia folga) e trabalhava das seis da manhã, quando acordávamos, até dez, onze da noite, quando íamos dormir.

Enquanto eu crescia cercada de mimos e embalada pela classe média paulistana, negros serviam, negros não eram servidos. Negros não comiam em restaurantes caros, ou iam ao Holiday on Ice no Ibirapuera, ou viajavam de avião (Eliane Brum falou disso de forma muito mais profunda e inteligente em texto primoroso). Esse era o ambiente ao meu redor.

Lembro de ter lido uma vez no New York Times a respeito uma pesquisa sobre racismo feita por uma Universidade, cujo nome não lembro, e na qual as pessoas tinham que usar um jogo de computador para reagir a objetos que parecessem ameaçadores e as colocassem em perigo. Quando se vissem diante de uma situação assim, elas tinham alguns segundos para tomar uma decisão e atirar no possível predador.

Até aqueles que levavam a menos racista das vidas atiravam primeiro em negros do que em brancos. E, se não estou enganada, até negros atiravam primeiro em negros.

A pesquisa concluiu, entre muitas outras coisas, que mesmo quem tem certeza que não é racista é capaz de tomar atitudes racistas porque fomos alimentados de racismo de todas as maneiras possíveis desde que nascemos.

Da mesma forma, foi apenas ao me curar de minha própria homofobia, uma que foi inserida em mim ainda pequena pelo arranjo heteronormativo que nos coordena socialmente, que pude me aceitar, me reconhecer lésbica e ter orgulho disso.

Então, diante de uma formação humanitariamente limitada como a que tive, e que teve toda a elite e a classe média brasileira, dizer que não existe a possibilidade de haver resquícios de racismo em mim seria construir uma realidade cega e que impede evolução.

Preconceitos todos temos embutidos em nossa configuração-padrão e é perfeitamente possível que nos curemos deles, mas para tanto temos que trazê-los à luz, e o processo é penoso.

Outra questão é reconhecer a chance de estarmos formando opiniões sobre episódios como o do turbante movidos e movidas por preconceitos. Como saber? Talvez jamais saibamos, mas abrir espaço para que a resposta seja sim já é um começo.

Cambaleante, fui ler um texto da filósofa Djamila Ribeiro, recomendado por Ana Maria Gonçalves. E outra vez me senti inadequada, estúpida e mal informada.

Ana Maria e Djamila me falavam a partir de um lugar de conhecimento amplo, um lugar que é meu enquanto lésbica e mulher, mas jamais enquanto alguém de pele branca. Me falavam a partir de um lugar que é somente delas e de outras mulheres negras.

Entender isso, entender que lugar é esse, não me separa delas, muito pelo contrário: é apenas ao perceber e reconhecer a existência desse lugar que posso me juntar a elas e fazer eco ao que elas dizem, encampando uma luta por direitos civis e respeito cultural que é delas e, portanto, agora também minha porque possuo recursos intelectuais para me solidarizar de forma plena.

Observar uma opinião sendo transformada por uso de conhecimento é experiência de pura beleza.

Pelo que pude absorver da leitura dos textos de Djamila e Ana Maria, não se trata de lutar pela proibição do uso do turbante ou de tentar demonizar o conceito de apropriação cultural, que existe há séculos e que não necessariamente é ruim, mas sim de lutar para que o turbante não seja ocupado sem conscientização política porque só a conscientização política poderá fazer com que quem o usar engrandeça e legitime a causa dessas mulheres negras.

Trata-se, talvez, de fazer com que o turbante continue a ser símbolo e signo de uma batalha humanitária e, por isso, fundamental – e não esvaziado dela em nome da mercantilização de todas as coisas.

Como sempre, a busca por aprendizagem é o que nos tira de um ambiente moral mais baixo e nos eleva a um mais alto. Minha primeira opinião a respeito do uso do turbante por mulheres brancas estava repleta de ignorância e, talvez-quem sabe?, carregasse algum preconceito.

Reconhecer isso me machuca, mas ao mesmo tempo me engrandece na medida em que constroi em mim novas unidades de energia de amor. Um amor que agora sinto por essas mulheres negras que, paciente e apaixonadamente, tentam nos educar. Eu, humildemente, agradeço.

4 pensamentos sobre “O racismo em mim

  1. Oi Milly!
    Dia desses me vi em uma conversa exatamente a esse respeito e, apesar de toda a desconstrução a que tenho me submetido – prazerosamente, mas não sem dor e constrangimento -, ainda me falta material de argumentação e acabei desistindo de discutir o assunto, por ter-se tornado muito caloroso e por não encontrar suficiente material mental para embasar minha opinião. Sabe quando você entende algo, mas não sabe explicar exatamente o porquê de sentir de certa forma a respeito daquilo? É isso que a informação faz por nós.
    Mais uma vez encontro aqui (e nos links citados) o que precisava ter lido antes daquela discussão.
    Mais uma vez, obrigada!

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