Comportamento/Economia/Política/Vida

A bizarra ideia de que um gestor nos salvará

Um tipo atualmente me deixa curiosa: aquele que vê o bizarro e assustador em Trump, mas não em Doria. Enxerga o ridículo em Trump, mas não em Doria. Detecta o narcisismo-paranoico-infantil em Trump, mas não em Doria.

Trump e Doria são filhos de uma mesma patologia do sistema, mas talvez percebamos isso quando for tarde demais.

A patologia começa ao achar que podemos transplantar para o ambiente público, que deveria ser democrático, o ambiente corporativo, que é tirânico por princípio.

Em uma empresa o CEO manda em um grupo de pessoas que devem seguir regras por ele estabelecidas. Quem não seguir as regras está fora. Quem não gostar das regras não pode reclamar. Se por qualquer motivo o gestor não for com a sua cara, você é demitido.

Trata-se de um cenário rígido e anti-democrático que, em paralelo com o que acontece em ambiente público, é uma ditadura: uma pessoa com poder absoluto mandando em dezenas, centenas, às vezes milhares.

Doria e Trump são empresários tidos como “bem sucedidos”, a despeito de como tenham chegado lá, e, não por acaso, fizeram fama como apresentadores de um programa de TV que demitia de forma grosseira, tirânica e vulgar os participantes.

Dentro do ambiente corporativo, um no qual podem reinar, estão livres para exercer todo o tipo de pirraça, por mais infantil e narcísica que seja. Mandam, desmandam, ridicularizam, demitem, humilham, sapateiam, gritam… a terra é deles e nela a vulgaridade rola sem crítica aberta porque, claro, há o medo de perder o emprego.

Levemos esse descontrole tirânico para a arena pública e o ridículo ganha tons de escândalo e pavor, como estamos vendo com Trump e com Doria.

Que queiramos importar esse quadro de horrores para a esfera pública é, para dizer o mínimo, bastante estranho.

Quem já trabalhou em uma corporação sabe que não há nada de muito divertido em ter que seguir uma cartilha de regras que não criamos e sobre a qual não temos controle. Querer que esse ambiente hostil também invada nossas vidas fora do trabalho me parece loucura.

Até aqui tanto Trump quanto Doria têm administrado suas esferas públicas como se estivessem nas empresas que fundaram: vão criando regras para expulsar pessoas do país como se as estivessem demitindo, pintando muros cujos traços não eram agradáveis a seus olhos, chamando a imprensa para alardear cada um dos gestos que consideram grandes feitos, decidindo que partes da cidade serão vendidas a terceiros, mudando velocidades das vias expressas mesmo tendo em mãos pesquisas que dizem que a vida melhorou com as velocidades mais baixas… enfim, lidam com o ambiente público com a empáfia de um CEO administrando uma corporação – e por algum motivo que absolutamente me escapa a maioria parece gostar da ideia de que agora um CEO a comanda.

Recentemente, a cidade de Nova York ficou 12 anos sendo administrada por um empresário bilionário chamado Michael Bloomberg.

Bloomberg não tem os traços narcísicos de Trump ou Doria, e ao final do mandato foi aplaudido por ter herdado uma cidade endividada e ter deixado para seu substituto uma Nova York com caixa sólido. Uma análise verdadeira – e corporativa.

Só que acontece que uma cidade não é uma empresa, então talvez tenhamos que analisar outros legados de Bloomberg:

Com ele, Nova York ganhou muito moradores de rua, ganhou uma polícia mais violenta, mais racista e mais classista, ganhou desigualdade social, salários menores, alugueis maiores, perdeu muito em qualidade de infra-estrutura, as ciclovias foram praticamente abandonadas e a cidade passou a ser palco de um ritmo acelerado e cruel de gentrificação.

Não me parece um cenário animador, ainda que Bloomberg não tenha sido acusado de cair na tentação de misturar o interesse público com o de seus negócios durante os anos em que esteve prefeito.

Uma cidade, um estado, um país não precisam “dar lucro”, mas sim atender de forma igualitária e digna as diferentes necessidades de todos os seus cidadãos.

Já por aqui, me espanta que ninguém se importe em ver Doria anunciando parcerias entre a cidade e empresas de amigos dizendo que “eles farão gratuitamente” mesmo sabendo que não há nada parecido com “gratuito” no mundo corporativo.

Entendo que as pessoas estejam perdidas, endividadas, cansadas, frustradas e enfadadas com tudo, e que tenham buscado em Trump e Doria o diferente, uma saída para esse rebuceteio e para o esgotamento que estamos vivendo com a classe política.

As queixas são justas e legítimas – corrupção, descaso, hipocrisia, abandono etc – mas buscar alternativas junto àqueles que criaram essa crise – o poder econômico do Brasil e do mundo – é uma bizarrice sem tamanho. Ou, como sugerem alguns pensadores: a ideologia da direita tem seduzido pessoas cujas reclamações são genuínas, mas que estão profundamente equivocadas a respeito das causas dessas reclamações.

Não precisamos que o ambiente corporativo invada o democrático; precisamos que o democrático invada o corporativo.

Talvez precisemos justamente eliminar a figura do CEO, em nome de diminuir o abismo social dentro do qual vivemos. Talvez precisemos que as empresas sejam controladas pelos trabalhadores, como já há muitos casos pelo mundo (falo mais elaboradamente sobre o tema em quatro outros textos: aqui, aqui, aqui e aqui).

Ou, quem sabe, precisemos que a diferença salarial entre um CEO e um funcionário médio não tenha uma relação de quase 400 para 1, como é hoje. Talvez precisemos que a diferença entre o maior e o menor salário dentro de uma corporação seja de  8, 7, 6… Ou, por que não?, a começar a falar de salário máximo tanto quanto de salário mínimo.

Mas o que me parece certo mesmo é que não precisamos de gestores em nossas cidades, estados ou países; precisamos de seres humanos interessados no bem estar de todos os outros seres humanos a despeito de cor, credo, gênero, sexualidade, nacionalidade etc, e não apenas interessados no bem-estar de alguns poucos amigos ou nessa entidade chamada lucro.

 

18 pensamentos sobre “A bizarra ideia de que um gestor nos salvará

  1. Milly, você foi no ponto crucial da questão, como sempre. A maioria esmagadora dos empresários só visa o lucro, nada mais. Eles não pensam no bem estar dos funcionários, em melhorar a qualidade de vida (pelo menos no ambiente de trabalho), em conquistar o funcionário através de boas ações ou gestos. Assim, com certeza absoluta, teriam os seus funcionários ao seu lado “vestindo a camisa da empresa”. Preferem a exploração e a falta de respeito. Colocar esses valores na gestão pública é realmente uma loucura, como já está acontecendo. Parabéns mais uma vez. Bjs

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    • Pois é, Júlio. Já há empresas, muitas no Brasil inclusive, que mesmo não sendo cooperativas são capazes de repensar o negócio, o lucro, o impacto social etc. Mas são poucas, e as grandes corporações estão muito longe de fazer qualquer coisa parecida com isso. Obrigada por ler e comentar. Beijo.

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  7. Mais um texto magnífico.
    Compartilho com você, o não entendimento de como as pessoas não questionam essas parcerias “gratuitas”, é exatamente como dissestes no texto, isso não ocorre no mundo corporativo, sempre que há algo gratuito nesse meio, pode ter certeza que tem contrapartida.

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  8. Totalitarismo falando de si mesmo e estado comparado a corporações, o primeiro paradoxo e o segundo leigo.
    Priemiro, o texto critica o suposto totalitarismo, quando em si o é também. Pessoas terão ideias diferentes da sua sempre, então todas as ideias divergentes da nossa vamos chamalas de BIZARRAS? Isso sim não é democrático.
    Segundo, comparar uma corporação ao estado é no mínimo uma comparação leiga. Doria nem muito menos trump mandam e desmandam no estado. Eles têm suas funções, deveres e obrigações perante o povo e também limitadas pelo legislativo e judiciário. Eles nao podem simpmesmente demitir alguém ou realizar qualquer ato, pois como dita o direito administrativo, o estado só poderá fazer aquilo que a lei permite. Já CEOs não possuem limites, são independentes e não possuem controle.
    Terceiro, função principal do chefe do executivo é exatamente a gestão. Não estamos falando em gerir pessoas, mas sim gerir o dinheiro, serviços e patrimônios publicos. Precisamos de gestores que saibam onde alocar o dinheiro, para que possamos ter os princípios básicos fundamentados na CF/88 garantidos.
    Enfim, acho que se trata mais de uma ideia não muito estudada de quem é opositora de Doria. Não sou defensor dele, muito menos de Trump. Mas argumentos assim não fazem sentido.

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