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Para todos aqueles que odeiam o trabalho

João Doria parece ter convencido bastante gente de que uma de suas maiores qualidades é a dedicação com que se entrega ao trabalho: dorme pouco, levanta cedo, convoca reuniões bem antes das nove, oferece vitaminas da empresa do amigo aos secretários a fim de que eles segurem o pesado ritmo, varre ruas à noite e se auto-denomina João Trabalhador.

Da forma como eu vejo o mundo nada poderia ser mais triste e cruel.

Dante, em sua Comédia, alertou para o cuidado que devemos ter ao dizer verdades que se vestem de mentira. Emprestando o conceito, o mito do João Trabalhador é uma mentira que se veste de verdade.

“A maioria das pessoas têm a noção ridícula de que qualquer coisa que façam que produza rendimento é trabalho”, disse o escritor Lewis Hyde. “E acham que qualquer coisa que façam fora do “horário de trabalho” é diversão. Não há lógica nisso”.

Não, não há lógica nisso, mas já não paramos para avaliar o significado do trabalho nesse arranjo social que estabeleceu que o trabalho engrandece, que Deus ajuda quem cedo madruga, que ter caráter é não ter medo de dedicar quase todas as horas do seu dia a produzir coisas que não façam sentido a fim de sobreviver enquanto ajudamos a acumular capital nas mãos daqueles que são os proprietários dos meios de produção.

Se o que define um escravo é o ser humano forçado a trabalhar para outra pessoa somos pouca coisa além de bilhões de escravos.

Por isso, é evidente, o discurso do “o trabalho engrandece” é útil ao poder econômico: que sigamos trabalhando de sol a sol sem reclamar, sem parar para pensar no sentido do que estamos fazendo é tudo o que o sistema quer para permanecer inalterado. Enquanto o oprimido não se percebe como tal a vida caminha na mais santa paz.

Ou, como escreveu Michael Bakunin [1814-1876], “quando se trata da exploração de outros seres humanos a burguesia pratica a solidariedade”.

A história é sempre escrita pelos que ganham a guerra, e essa guerra tem sido ganha por uma elite econômica sedenta por mais poder e mais acúmulo de capital. Assim, é apenas natural que o mito do João Trabalhador continue a ser recontado e reforçado.

“Para que uma pessoa exerça poder sobre outra”, ensina Noam Chomsky, “seja o ditador, o colono, o patrão, o burocrata ou o marido a violência não basta. É preciso uma ideologia que justifique e legitime esse poder. E essa ideologia é sempre a mesma: a dominação se dá para o bem do dominado. Em outra palavras, o poder se apresenta sempre como altruísta, desinteressado, generoso”.

Nessa ideologia maluca sob a qual vivemos, o poder se manifesta também semanticamente: o trabalho é oferecido pelo patrão, que é o gerador de empregos.

A relação de “estamos em dívida” com esse ser humano generoso que fez a imensa bondade de criar uma oportunidade de trabalho para mim, para que eu possa ganhar dinheiro e, como recompensa, adquirir o sagrado direito de consumir é estabelecida de forma delicada e subliminar.

A narrativa é toda construída sobre uma relação de poder que confere ao patrão a gentileza de criar o emprego em benefício do trabalhador, para que, ao final do mês, ele ou ela possa comprar e gastar e, se tudo der certo, se endividar porque a financialização da econômia aprofundou as raízes dessa dependência: nenhum trabalhador é mais obediente e passivo e produtivo do que o endividado.

Se pararmos para pensar por alguns segundos perceberemos que a única coisa capaz de gerar emprego é demanda, e nada além dela.

Nenhum patrão “gera” empregos por ser bondoso ou estar bastante feliz com o aumento do lucro e sentado numa pilha de dinheiro.

Quem senta numa pilha de dinheiro investe em patrimônio pessoal e não sai por aí abrindo mais e mais vagas.

“Existe uma feiúra em ser pago para trabalhar em coisas que não gostamos”, escreveu brilhantemente Anais Nin [1903-1977].

A feiúra é alienar o homem dele mesmo, transformá-lo em uma máquina de enriquecer outras pessoas, privá-lo do convívio de família e amigos extenuando-o em jornadas de trabalho sem fim, amputá-lo de sua criatividade e liberdade obrigando-o a exercer atividades repetitivas e tediosas, privando-o do sagrado direito ao ócio e ao lazer.

Uma sociedade baseada no controle exercido pela riqueza privada vai refletir os valores dessa elite econômica, que tenta apenas maximizar ganho pessoal às custas dos outros e do planeta, ensina Noam Chomky.

“Uma pequena sociedade fundada sobre esses valores é feia mas pode sobreviver. Uma sociedade global baseada nesses princípios está destinada à destruição”, diz ele.

João Doria, Temer, Alckmin e outros neoliberais que adoram perpetuar o mito do João Trabalhador, a ideia de que é preciso parar de falar em crise e trabalhar pesadamente, não estão apenas nos alienando e matando lentamente; eles estão nos conduzindo para o precipício.

Acredito no que disse Aristoteles há milhares de anos: que o lazer é condição indispensável da humanidade.

Infelizmente, a sociedade capitalista reserva cada vez menos tempo para o lazer, e quando ele entra em cena é entendido apenas como diversão e consumo, nunca como reflexão e contemplação (justamente porque ao pararmos para contemplar e refletir chegaremos a verdades que nos farão lutar contra o sistema).

Termino com a brilhante dedicatória de William Reilly escrita em 1949 para o livro “How To Avoid Work”, ou “Como Evitar o Trabalho”: “Esse livro é dedicado com afeição e profundo respeito a todos aqueles que odeiam o trabalho”.

Escrevi mais a respeito do tema em A Violência do Culto ao Trabalho, em Desacelera, São Paulo e em Os Novos Estados Totalitários.

E aproveito para recomendar que leiam o Brain Pickings, de onde tirei boa parte das aspas aqui usadas.

10 pensamentos sobre “Para todos aqueles que odeiam o trabalho

  1. Boa Noite!

    Milly, gosto muito dos seus textos porque além de ser textos para reflexão há muito embasamento teórico dicas de leitura.

    Vejo que as empresas estão cada vez mais querendo que os funcionários sejam full time, a qualquer chamado temos que estar à disposição da empresa. Porque não é normal para um trabalhador que esteja de folga ficar apreensivo quando seu telefone toca e ficar torcendo para que não seja a empresa te pedindo para ir trabalhar, e em época onde o desemprego alcança números absurdos nem preciso falar o quanto é rasteiro o argumento da empresa quando você fala um não.

    Enfim, vivemos em mundo onde o ser humano virou escravo do trabalho, porque se acredita que a geração de riquezas vêm através do trabalho, um mero engano, porque aquele que cedo madruga está apenas tentando sobreviver nesse mundo capitalista que cada dia mais nos acorrenta.

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  2. Acho a tentativa de inverter ou perverter o sentido do trabalho bem patética e típica de uma mente marxistas, que nunca vai reconhecer o bom trabalho no verdadeiro sentido da palavra a mesmo que esse seja executado por um dos seus o que é bem raro de acontecer agente sabe rsrsr, mas para quem cai nessa a sentido de trabalho é tudo aquilo que é feito pela agilidade humana, ou seja quando eu cozinha pra minha família é trabalho, quando eu sai de manhã pra trabalhar é trabalho, passar tempo cuidando dos seus filhos é trabalho, mas cabe a cada um escolher o que melhor lhe parece, e sim fazer um bom trabalho e ser produtivo Onde for é a melhor forma de crescer até porque quando uma empresa não valoriza um bom trabalhador ele pode ir para outra ou trabalhar para sim e o único jeito dele ficar estagiando é sendo um trabalhador que só reclama e fala mal de quem faz ….

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  5. Muito bom o texto.
    Numa linha paralela à explorada no texto, estão as empresas descoladinhas, que permitem que o funcionário “relaxe” durante o expediente, jogando sinuca ou videogame no local de trabalho mas controlam 16h do dia do cara. É muita covardia, muita sacanagem.

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