Comportamento/Economia/Política/Vida

A luz que a mídia emite é para nos cegar

O escândalo do momento é a carne. Ao que tudo indica estamos comendo carne vencida, ou cheia de detritos, faz algum tempo. Liga-se a TV e o assunto é esse, jornais e semanários gastam tinta para dedicar muitas linhas à carne apodrecida que descansa nas prateleiras dos açougues. Fala-se demais e, como sempre acontece quando se fala além da conta, não se fala significativamente.

Veículos que fazem parte da mídia corporativa executam alguns carpados para tirar a responsabilidade do agro-negócio, um de seus mais sólidos anunciantes: o empresário, repetem esses veículos em looping infinito, é uma vítima como todos os consumidores.

A imprensa diz coisas assim sem se preocupar em mostrar de quem é, então, a responsabilidade. O telespectador, ou o leitor desses canais corporativos de mídia, confuso com tantas informações, assiste bovinamente, como se espera dele (até por isso os canais fazem uso de linguagem infantilizada).

Quem quiser de fato entender o que está acontecendo precisa desligar a TV e abrir alguns livros. Um deles é “O que o Dinheiro Não Compra”, do professor de filosofia política de Harvard Michael Sandel.

Sandel explica que os mercados se desassociaram da moralidade e que é preciso reconectá-los de alguma forma. A sede pelo lucro rápido, e a despeito da forma usada para atingi-lo, é o que move o mercado hoje, e se seguirmos repetindo o mantra do lucro a qualquer custo acabaremos nos extinguindo.

Hoje foi a carne brasileira, ontem a ilegal emissão de gases da Wolkswagen alemã, anteontem o depósito de lixo químico nas águas do lago Iron, disponibilizada para a população da pequena Flint perto de Detroit, num mórbido oferecimento da indústria automotiva americana e causando todo o tipo de doença a crianças e aos seres humanos da região, meses atrás foi a obra podre feita na barragem da Vale, em Mariana, em 2008 foram os bancos que, por um tipo grotesco de ganância, levaram milhões à falência… e poderíamos listar exemplos até a chegada do Natal, mas imagino que não seja preciso.

Não é uma enorme supresa que carne que comemos seja composta por detritos, tenham sido eles colocados ali de forma legal ou não. A essa altura do jogo já sabemos que tudo vai ser feito em nome do lucro.

O debate, portanto, deveria ser: onde traçamos os limites da moralidade no sistema capitalista?

Me parece que cruzamos essa fronteira ética há muito tempo, mas não há governos, empresários ou canais de comunicação que queiram levantar a discussão.

Então, para criar um escândalo com a carne que está sendo supostamente adulterada, e com ele aumentar a audiência, a imprensa faz uso de uma de suas artimanhas a fim de não precisar apontar o dedo para seus parceiros de negócio: inundar o consumidor de informação, deixando-o confuso e culpado porque fica parecendo que é a responsabilidade é dele por não ser capaz de entender o que, afinal, está acontecendo e qual o papel do agro-negócio, da Polícia Federal, do governo, dos açogueiros e até dele mesmo nesse enorme rebuceteio.

É uma das belezas do capitalismo: levar o cidadão a acreditar que ele é o culpado pelo próprio fracasso: financeiro, intelectual, profissional, pessoal e até em relação aos associados à saúde.

Em nome do lucro tudo vale.

“Por que se preocupar com uma sociedade dentro da qual tudo está à venda?”, pergunta Sandel logo no começo das quase 300 páginas de seu livro. “Por dois motivos: o primeiro é a desigualdade, e o segundo é a corrupção”, ele mesmo responde.

Numa sociedade em que tudo se vende aqueles de renda mais modesta terão uma vida bem mais difícil, o que apenas acentuará a desigualdade (como já estamos vendo acontecer). E a corrupção se alastra quando absolutamente tudo na vida passa a ter uma etiqueta de compra.

E na sociedade atual tudo, absolutamente tudo, está à venda (oficial ou oficiosamente).

Em 2008, ocasião em que o sistema financeiro entrou em colapso, as populações culparam governos e não o mercado.

Isso acontece porque, com a ajuda da imprensa, é bastante conveniente para a elite econômica que o povo acredite que a culpa é dos políticos já que em quatro anos eles podem ser trocados, ao contrário dos CEOs dos bancos e das demais corporações, escolhidos autocraticamente por essa mesma elite econômica, que nunca é atingida por crise alguma.

Os políticos aceitam esse jogo porque, devidamente empacotados pelo mesmo poderio econômico, não têm nada a perder a não ser um ou outro mandato, o que pouco importa porque já terão acumulado suas pequenas fortunas e podem apenas se entregar a torrá-la.

Outra conveniência em culpar exclusivamente governos por crises cuja responsabilidade é do capitalismo e de seu empresariado ganancioso é que, nesse caso, não há razão para reavaliar o sistema econômico, muito menos para que comecemos a debater os limites morais do mercado.

Espera-se quatro anos, mergulha-se no teatro das eleições, o povo acredita que agora de fato alguma coisa vai mudar, e as coisas seguem na mais santa ordem, um escândalo depois do outro, porque os parlamentos foram privatizados e pouco importa quem entre e quem saia deles.

Uma corporação comete todo o tipo de crime sabendo que na chamada relação custo/benefício o crime será compensador porque a multa sempre vai refletir uma parte bastante pequena do lucro. E assim as grandes empresas seguem cometendo delitos, levando em conta em alguma planilha secreta o risco de serem flagradas. Vale, sempre vale.

Relações custo/benefício, essas que o sistema chama de cálculo da eficiência de uma ação, não levam em consideração coisas como o impacto sobre o meio ambiente, sobre a saúde da comunidade ou sobre as relações humanas. Apenas gastos (com advogados, com material, com transporte etc, e o que vai entrar de receita e poderá virar bônus).

Nesse mundo maluco dominado pelas leis do mercado passou a ser possível, e legal, conseguir um upgrade em cela de prisão, comprar green cards, matar um rinoceronte preto na África, comprar o número de celular de um médico para poder chamá-lo a qualquer hora, lutar na Somália ou no Afeganistão para um grupo militar privado, ficar na fila para um lobista que queira participar de debates no Congresso americano.

Nesse mundo regido pelo mercado empresas de call-center trabalham com tecnologias que permitem filtrar ligações e dar preferência àquelas que vêm de bairros afluentes.

Nesse mundo a vida cotidiana foi invadida pela publicidade. É um universo dentro do qual o mais corriqueiro dos lances num jogo de futebol não acontece espontaneamente, mas é oferecido por uma empresa que vende tintas.

Um arranjo social dominado pelo consumismo, no qual todos os momentos são levados a você pela benevolência de algum cartão de crédito, é um arranjo social deteriorado porque, como escreve Sandel, imprimir coisas, momentos e situações com o logo de uma empresa altera o seu significado

Uma sociedade que permite que uma corporação inspecione funcionários depois que eles bateram o ponto para ver se não estão roubando alguma coisa que não pertence a eles, tomando-os todos por bandidos, e que aceita que programas sociais sejam interrompidos e, ao mesmo tempo, que se aumente impostos sobre seres humanos que mal conseguem comprar a comida do mês com o salário que ganha.

Então, esse rebuceteio da carne brasileira é um teatro com muitos atores fazendo o papel do bandido e nenhum no papel do mocinho. Quem ganhará com ele?

Empresas de mídia já ganharam: audiência e milhões em anúncios de JBS e demais corporações feridas.

Quem mais? Até aqui é difícil saber, mas fica bastante fácil saber quem perde. Você e eu.

Antes de mais nada porque nada do que a Polícia faz, assim como qualquer instituição nesse cenário capitalista, é para o seu ou o meu benefício. As polícias estão aí para servir e proteger o poder econômico. No caso do escândalo da carne a pergunta é: qual poder econômico elas estão protegendo?

Pensar que a operação Carne Fraca quer limpar o mercado brasileiro de carne ruim é inocência; nossa saúde não vale migalhas para o neo-liberalismo (ao contrário: o que dá lucro são nossas doenças).

Enquanto o poder econômico joga seus jogos de dominação e conquista de mercado a desigualdade se acentua no mundo inteiro: atualmente, 8 homens têm a mesma riqueza que 3,6 bilhões de almas, ou metade da população.

“Democracia não requer a perfeita igualdade”, escreve Sandel. “Mas requer que cidadãos compartilhem de uma vida comum. Que pessoas de diferentes origens e posições sociais se encontrem, se esbarrem no dia-a-dia. Porque é assim que aprendemos a entender e respeitar, nossas diferenças, e assim que aprendemos a nos importar com o bem comum”.

Mas podemos seguir falando da carne. Até que um novo escândalo nos envenene e, com a espetacularização da mídia, nos cegue.

5 pensamentos sobre “A luz que a mídia emite é para nos cegar

  1. Milly, obrigado pela análise. Adoro ler os seus textos. Se não for muito abusivo, queria te perguntar qual sua visão sobre este golpe na indústria da carne ter sido orquestrado pelo mercado internacional com objetivo de derrubar o valor da JBS que vinha abocanhando uma fatia gorda do mercado de carne global. É ter uma mente muito conspiratória pensar isso e ainda achar que a ideia é comprar essa empresa por um preço baixo?
    Obrigado!

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    • Oi, Felipe. Pois é. Teorias da conspiração são como as bruxas: não acredito, mas que existem, existem. O que acho é que o agro-negócio é uma indústria cheia de nocividade, cheia de subsídios, de descaso trabalhista, de brechas para que, devidamente investigada, seja revelada como alguma coisa bastante ruim. Ela representa o pior desse sistema. Mas temos que seguir atentos e fazendo as perguntas: por que agora? Por que com esse alarde? Por que de forma tão confusa?
      Obrigada pela visita. Espero ter ajudado 🙂

      Curtido por 1 pessoa

  2. Socializar os aprendizados e saberes como fazes te destaca como Ser Humano, e por isso temos mais Gratidão, assim nos ajuda com este TEXTO – … um figurino perfeito para o momento do “teatro brasileiro” no qual vemos os atores e seus papeis manifestar suas contradições para ludibriar a plateia com esta comedia trágica … – obrigado Milly, valeu !

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