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Como convencer o povo de que direito é privilégio

Estamos assistindo um filme de terror que, impondo a austeridade sobre todos nós, transforma os mais básicos direitos trabalhistas em privilégios, e os mais variados privilégios empresariais em direitos.

Essa austeridade que tem sido praticada mundo afora consiste em executar ajustes fiscais cortando gastos (basicamente todos os incentivos sociais) e aumentando alguns impostos. É uma forma de fazer com que os pobres paguem pelos erros dos ricos.

Pior: até agora não houve país que tenha saído da crise que começou em 2008 e diminuído a desigualdade fazendo uso desse programa. Aliás, em raríssimas ocasiões históricas a austeridade funcionou. “Todo o estudo que supostamente apoiava a austeridade já foi desmoralizado”, escreve o economista Paul Krugman em texto para o Guardian.

A despeito das evidências históricas, o golpe dado por Temer e sua turma tinha o objetivo de aplicar a austeridade em doses máximas e imediatas, que é ao que eles se dedicam desde o primeiro dia, a fim de favorecer (ainda mais) a elite que controla a economia e as regras do jogo.

A tática dos golpistas que estão no poder é a mesma do exército Americano em suas campanhas terroristas mundo afora: Shock and Awe (ou choque e terror): aplicar espetaculares demonstrações de força a fim de paralisar a percepção do inimigo (nesse caso o inimigo somos nós) e fazer com que ele não tenha ímpeto para reagir.

Trata-se de doutrina eficaz, que segue uma cartilha, e que está nos mantendo atordoados, feridos e passivos.

É com essa vibração que estamos assistindo, uma depois da outra, as bombas caírem sobre nossas cabeças.

Mas eu não fiz economia, não entendo patavinas da matéria e sou apenas uma pessoa esforçada que se dedica a ler e estudar esses assuntos para depois poder compartilhá-los com vocês.

Então deixemos que aqueles que sabem mais do que eu falem.

Segundo Noam Chomsky, linguista e ativista, a austeridade é um excelente instrumento para desmontar Estados de bem-estar social e aumentar o poder da classe dominante. E, além disso, é um desastre para a economia. “Austeridade é apenas luta de classe”, repete Chomsky.

O ativista, considerado o maior intelectual vivo pelo New York Times, lembra que o FMI fez um estudo sobre 200 casos nos quais governo impuseram a austeridade em períodos de estagnação ou recessão econômica e constatou que a iniciativa fracassou em quase todos (mais sobre isso aqui).

“A evidência acumulada mostra que programas de austeridade normalmente pioram a economia”, diz o professor e doutor economista Richard Wolff.

Diante de tantos indícios, por que, então, governos seguem aplicando a austeridade?

Wolff explica usando a crise mundial:

“Quando economias capitalistas quebram a maioria dos grandes empresários capitalistas pede – e recebe do governo – o resgate de suas dívidas e um incentivo financeiro.

“Entretanto, as corporações e os ricos se opõe à criação de novos impostos a fim de fazer com que paguem pelos programas de estímulo e de resgate que receberam. Eles insistem que os governos [para equilibrar as contas] façam empréstimos do dinheiro que precisam”, diz Wolff.

Só que são esses mesmos capitalistas, segue Wolff em texto para o Guardian, que acabam emprestando o dinheiro de que os governos precisam, dinheiro que eles receberão de volta com juros.

“É um negócio doce para capitalistas”, diz.

Mas de onde os governos vão tirar o dinheiro para pagar os juros sobre os empréstimos, assim como o próprio empréstimo?

Não do bolso do alto empresariado, que segue fazendo o que faz de melhor: reforçando o compromisso de evitar ter que pagar impostos – ou de pagar o mínimo possível.

Então taxar pesadamente os ricos, ou os donos do capital, não é uma opção para governos fracos, ou para governos dominados por esses mesmos mega-empresários e por seus chapas.

Aí entra a austeridade: governos e corporações, grandes parceiros no atual mundo capitalista, dedicam-se a convencer a população de que o grande problema é o deficit do governo e o aumento da dívida nacional. “Os gastos precisam ser cortados”, repetem mantricamente através do noticiário e da propaganda.

Com o apoio da mídia amiga, formada por conglomerados corporativos, começam a passar o recado para a população: “É uma pena que tenha que ser assim, mas teremos que fazer cortes no social (saúde, educação etc) e todos precisarão se sacrificar”.

“Todos”, claro, não inclui a elite que controla o capital e o poder.

Como se estivessem falando com pessoas mentalmente desorganizadas usam paralelos infantis do tipo “é como na sua casa: se não tem dinheiro entrando então é preciso cortar os gastos”.

Haveria dinheiro entrando se, vamos supor, os milionários fossem obrigados a pagar impostos muito altos.

Mas não se fala sobre isso. O assunto sequer é levantado porque quem deveria levantá-lo é a grande mídia, mas a grande mídia é justamente propriedade dos milionários e bilionários que não têm nenhum interesse em pagar mais impostos e ajudar o Brasil e o mundo a sair dessa crise e diminuir a desigualdade.

“[Dessa forma] os custos da crise vão para as classes média e baixa”, diz Wolff. “Mas acontece que capitalistas e ricos não deveriam escapar de serem taxados porque foram eles que ajudaram a criar a crise; eles enriqueceram nos anos anteriores à crise e são os que podem pagar por ela”.

O dinheiro para evitar que haja absurdos cortes em investimentos sociais, para que se mantenha a CLT, para que o trabalhador não passe a ser um escravo, para que consigamos viver de forma decente, para que tenhamos amparo social nas necessidades básicas como saúde e educação, para que se evite a austeridade que tanto fere os mais pobres está com a classe dominante, essa que não pode ouvir falar em pagar mais impostos.

O resultado do golpe aplicado sobre todos e todas nós vai ser mais desigualdade, mais conflito de classes, mais intolerância, mais criminalidade, mais injustiça, mais pobreza.

E com o maior acúmulo de capital nas mãos da pequenina elite que controla os meios de produção (incluindo aí os grandes grupos de mídia e as instituições), o poder também ficará ainda mais concentrado.

Tanta concentração de capital e poder nos bolsos de uma pequena elite aumentará a desigualdade, claro, mas gerará coisa ainda pior porque a expressão máxima de um acúmulo assim se chama fascismo.

6 pensamentos sobre “Como convencer o povo de que direito é privilégio

  1. Maus uma vez, parabéns pelo texto (é, sou repetitiva em seu blog)!
    O mais impressionante é a classe média “que-se-acha-alta”, histérica e frenética na multiplicação de textos ridículos, historinhas-exemplo, tentando explicar porque são de direita e, ao mesmo tempo rugindo contra a corrupção, assistindo à Globo, venerando o Moro e achando que são parte da tal elite. Meu dilema é chorar ou vomitar.

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  2. Milly, seus textos são sempre uma ótima reflexão. Sempre me pergunto como um sistema como esse, incoerente e injusto (para dizer o mínimo), nos é vendido como eterno e imutável. Como servidora pública, me sinto como gado indo para o abate, sem perspectiva de futuro e desvalorizada por esse governo ilegítimo. Tempos sombrios…Aliás só estamos vivendo uma crise dentro da crise perene desse sistema falido.

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  3. Bom dia !
    Partindo das duas frases : “…eu não fiz economia, não entendo patavinas da matéria…” e “…Segundo Noam Chomsky, linguista e ativista…”.
    Que tal ler alguns economistas ?
    Estive na Filadélfia ano passado fazendo um curso e citei Chomsky. Todos caíram na gargalhada…O cara é uma chacota semelhante ao Mangabeira Unger no Brasil…Meio lunático …
    O assunto é espinhoso e a discussão é boa. Só sugiro buscar outras fontes, de preferência que entendam do que estão falando.

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