Comportamento/Economia/Política/Vida

O que é violência?

A gente aprende que violência é quando você está andando pela rua e um moleque rouba sua carteira, ou quando entram na sua casa e tiram de lá coisas de valor, ou quando quebram o vidro do seu carro e pegam sua bolsa, ou quando quebram com pedras o vidro de uma concessionária de carros. Mas é hora de alargarmos o conceito de violência porque há formas mais crueis de exercer a violência contra seres humanos do que privá-lo de seu celular enquanto ele anda pela rua.

Violência é também, e principalmente, quando o Estado rouba direitos conquistados pelo trabalhador. Acabar com a aposentadoria é uma forma de violência. Acabar com férias remuneradas, 13º salário, licença maternidade, fundo de garantia e seguro-desemprego são formas brutais de violência. Formas ainda maiores do que as que conhecemos como delinquência porque são elas que geram, afinal, o delinquente.

Rasgar um programa de governo eleito no voto é uma forma de violência. Pintar os muros da cidade de cinza apagando a arte que ali havia é outra forma de violência. Ser contra a mão pesada do Estado para oferecer comida a quem passa fome, mas a favor da mesma mão pesada para rechear corporações de incentivos é uma forma de violência.

Apoiar um sistema de governo que maximize a tirania privada, que coloque CEOs como administradores de cidades, estados e países, aceitando que promovam todo o tipo de putaria entre o púbico e o privado em nome do lucro de seus negócios enquanto desviam nossa atenção protagonizando teatros que envolvem doação salários e varreção das as ruas é uma tremenda forma de violência.

Enviesar ideologicamente investigações federais é uma forma de violência. Idolatrar justiceiro é outra. Manter pessoas privadas de sua liberdade sem terem sido julgadas é igualmente uma forma de violência. Lutar para que não se divulgue a relação de nomes de empresas que fazem uso de trabalho escravo é outra forma de violência.

Usar o noticiário para convencer a população de que trabalhar 14 horas por dia é o que vai nos tirar da crise é uma forma de violência. Culpar as classes média e baixa por uma crise criada pela classe alta é violência. Fazer com que as classes média e baixa paguem por uma crise que elas não criaram é outra forma de violência.

Jogar bombas e mandar balas em manifestantes é uma forma de violência, assim como é uma violência executar operação de reintegração de posse de terreno ou prédio abandonado e desalojar, na porrada, famílias inteiras que buscavam apenas um abrigo.

Isentar grandes fortunas de taxação pesada é um forma de violência. Fingir que o que se perde com sonegação e evasão fiscal não faz diferença para o bem-estar de um país é uma forma de violência. Repetir o mantra de que o maior problema do Brasil é a corrupção é outra forma de violência. Não comparar os números de quanto se perde com evasão e sonegação com os números do que se perde com corrupção é uma forma de violência.

Querer convencer a população de que foi com o PT que a corrupção começou é outra forma de violência. Assim como é uma violência tentar passar o recado de que foi com o PT que a corrupção piorou porque é igualmente violento não se investigar os quinquilhões de dinheiro público desviados durante a Privataria Tucana.

O aquecimento global é uma forma de violência. Uma que pune, como todas as listadas acima, apenas a parte mais pobre da população.

Porque a verdade é que não há maior forma de violência do que desumanizar um ser humano, tratando-o como coisa, obrigando-o a trabalhar sem parar e sem que ele possa diminuir o ritmo, impedindo assim que tenha espaço para exercer sua criatividade, que é, afinal, um princípio básico da natureza humana.

Entendemos rapidamente a violência quando ela é praticada pelo pobre contra o rico, mas demoramos a perceber como violência os crimes do rico contra o pobre. E a delinquência do rico é infinitamente mais nociva a todos nós porque ela é exercida com coerção, repressão, opressão.

“Ninguém está mais irremediavelmente escravizado do que aquele que falsamente acredita ser livre” (Johann Wolfgang Von Goethe)

Eu poderia seguir listando formas de violência nunca mencionadas como violência, mas o que importa aqui é o seguinte: palavras importam.

Como muitíssimo bem colocou a historiadora e ativista americana Rebeca Solnit, é preciso que chamemos as coisas pelos nomes que elas têm.

Por isso, a revolta contra a violência começa com a revolta contra a linguagem usada para esconder a violência.

2 pensamentos sobre “O que é violência?

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