Comportamento/Política/Vida

Desacelera, São Paulo

Nenhuma outra arena paulistana representa tão bem a mistura de arrogância e despreparo do prefeito João Doria como as Marginais, essas enormes e selvagens avenidas que costeiam os rios da cidade.

Ainda durante a campanha ele avisava que, vencendo, iria retomar os limites de velocidade originais, ou aqueles de antes da gestão de Fernando Haddad. Por que? Porque assim desejava. Ele seria, afinal, o CEO da cidade, e um CEO age como quer.

Retomar os limites antigos de velocidade era coisa tão importante para ele que o slogan escolhido para iluminar sua gestão é “Acelera, São Paulo”.

Claro que para decretar o aumento das velocidades nas Marginais ele não se amparou em estudos que indicavam que os limites estabelecidos por Haddad melhoraram a fluidez de trânsito na cidade inteira, diminuíram radicalmente o número de acidentes e – mais importante – acabaram com as mortes que eram constantes nessas avenidas dado o alto número de incidências diárias.

Quando confrontado pelos teimosos fatos o CEO da cidade responde com argumentações do tipo: Não há por que se preocupar; vamos colocar mais ambulâncias disponíveis na região.

Uma resposta absolutamente estapafúrdia em termos humanitários, mas bastante coerente em termos neo-liberais – afinal, o CEO da cidade pode arrumar múltiplas parcerias corporativas para dar vida a essa brilhante sacada enquanto vai empilhando alguns corpos.

Nem é preciso ser muito inteligente para entender o que os limites de Haddad fizeram pela cidade: ao diminuírem a incidência de acidentes, diminuíram as obstruções, e sem tantas obstruções, o trânsito fluiu não apenas nas Marginais mas em todas as regiões porque se as Marginais param elas refletem essa lentidão para a cidade em efeito dominó.

(Em relação ao mesmo período do ano passado, até aqui já houve um escandaloso aumento de 130% no número de acidentes nas Marginais. O dado deveria ser manchete em todos os veículos de comunicação, mas infelizmente não é assim que as coisas funcionam e quem quiser saber desse aumento precisa ler as linhas mais finas).

É mais ou menos óbvio que não adianta aumentar a velocidade se, ao fazer isso, aumenta-se o número de acidentes, aumentando assim o trânsito, diminuindo a fluidez e, nesse cenário de caos, ninguém é capaz de atingir os tais limites de velocidade maiores. Mas CEOs não se preocupam muito com esse tipo de lógica humanitária.

Nem estamos aqui falando do maior de todos os absurdos: as vidas que as novas velocidades estabelecidas pelo gestor de São Paulo já levaram.

De todas as coisas que Doria fez até esse momento, talvez o aumento da velocidade nas Marginais seja a mais significativa para que entendamos que tipo de farsa ele representa.

Passei dirigindo pelas Marginais nos últimos dias e, estudos e fatos à parte, é notória a mudança de vibração por lá.

Estão de volta os motoristas que costuram, pressionam, jogam farol alto para você ou sair da frente ou andar mais rápido, ultrapassam pela direita etc.

Durante os anos de Haddad as Marginais foram palco de uma bem-vinda mudança de comportamento; e até atropelar um cachorro passou a ser difícil porque, numa velocidade tão baixa, é bastante possível evitar quase todo o tipo de ocorrência.

Haddad deu de presente para todos nós uma cidade menos desumana, mais integrada, com as ruas e praças e parques sendo ocupados pelo povo, com uma saudável mistura de classes em espaços públicos e sem tantos acidentes de trânsito ou lentidão.

O ex-prefeito ofereceu a São Paulo a revolucionária ideia de que desacelerar faz bem, em todas as arenas da vida, e de que viver é, antes de mais nada, conviver.

Mas Haddad é do PT e, sendo assim, não presta. Em seu lugar entrou um senhor que gosta de se gabar que trabalha de sol a sol, que quer nos convencer de que precisamos trabalhar no ritmo dele porque quem não o faz é vagabundo, que vai alargar o espaço privado como puder e encolher o espaço público na mesma proporção.

Trata-se de um tipo de administração que vai nos isolar uns dos outros, estimular a competição predatória, deixar o rico mais rico e o pobre do lado de fora.

Vivemos em uma das cidades mais violentas do mundo, mas o prefeito anterior mostrou que é possível deixar São Paulo menos desumana se a gente diminuir o ritmo e topar conviver. As Marginais funcionam como exemplo ilustrativo das mais básicas diferenças entre Haddad e Doria.

Quem mora em São Paulo sabe que de todas as coisas que precisamos por aqui acelerar não é uma delas. Precisamos, na verdade, do oposto: desacelerar. Urgentemente.

7 pensamentos sobre “Desacelera, São Paulo

  1. Pingback: Brasdangola Blogue

  2. Exceto a questão das marginais, acho que você vive num conto de fadas.
    Se o Haddad tivesse feito um bom governo, não levaria a surra que levou nas urnas. Mas sim, ele governou pra 200 mil pessoas e não pra todas as milhões que a cidade tem. E entre essas 200 mil, parece que estava você.
    Abxs

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    • eron voce escreve como um ignorante politico, o que foi dito de forma cientifica e voce eron despreza os preceitos cientificos, o voce eron é uma marionete do doria doriana, eu escrevi e postei no meu face: pergunto? quando que o doria doriana vai se vestir de prefeito e governar a cidade.

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      • eron o ignorante politico, um dado muito meigo do seu alienado brasil, o brasil é o quarto lugar em mortes no transito com mais de QUARENTA MIL MORTES e outros indices ainda mais vexatorios

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  3. Pingback: Desacelera, São Paulo, por Milly Lacombe | JF Clipping

  4. Pingback: Para todos aqueles que odeiam o trabalho | Blog da Milly

  5. Pingback: Por um mundo no qual trabalhemos menos | Blog da Milly

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