Comportamento/Política/Vida

Abuso sexual é abuso sexual e nem uma palavra a menos

A campanha “mexeu com uma mexeu com todas” é um bem-vindo pranto coletivo e feminino contra a violência sexual à qual somos diariamente submetidas em ambientes de trabalho – em menores ou maiores escalas.

Mas é importante não se deixar levar pela onda corporativista que tenta impor uma narrativa única para o que aconteceu com a figurinista Susllem Tonani. A narrativa única, como ensina a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, é perigosa para todas nós.

Antes de mais nada temos que considerar as palavras escolhidas para o que se tornou uma campanha de relações públicas: “Mexeu com uma mexeu com todas”.

Usar o verbo “mexer” para tratar de violência sexual é dar ao abuso uma roupagem cor de rosa que atenua a gravidade do que houve e deixa a história menos opressora e menos violenta do que ela é.

Mexer não é abusar, ou violentar, ou oprimir – verbos que cabem para as mais variadas formas de opressão sexual. Mexer é outra coisa.

E o caso que do ator José Mayer não envolve mexer, mas colocar a mão na genitália de Tonani sem que ela tivesse permitido.

Colocar a mão na genitalia de outra pessoa sem que haja o interesse dela para isso não é mexer. É violentar, é abusar, é agredir, é oprimir, mas não é mexer.

Mesmo que não tivesse colocado a mão em Tonani, mesmo que Mayer tivesse apenas abusado com palavras de teor sexual, não seria mexer. Seria, outra vez, abusar.

E aqui talvez devamos fazer uma outra avaliação necessária.

Tonani já teria levado a reclamação ao RH da emissora, sem que houvesse interesse em que Mayer, uma das estrelas da casa, fosse trazido à luz do dia. A história só ganhou grandeza quando Tonani teve a coragem de contá-la em espaço público.

Então, que a campanha seja assinada, ainda que de forma delicada, pela corporação que no primeiro momento nada vez para exercer justiça é um outro aspecto importante.

Não se trata, naturalmente, de um erro que apenas a Rede Globo comete, mas de um erro que todas as corporações cometem.

Seria interessante que as funcionárias de qualquer empresa que já levaram esse tipo de abuso aos seus respectivos RHs e foram ignoradas resolvessem contar suas histórias em arenas públicas, como fez Tonani. Acho que o número de casos omitidos pelas corporações chocaria a todos.

É preciso também analisar o jogo de poder.

Tonani é uma figurinista, Mayer uma estrela. Existe aqui um descompasso de forças, como existe quando o abuso envolve funcionárias e diretores, funcionárias e CEOs, funcionárias e quaisquer figuras de autoridade. E esse descompasso ajuda a manter as histórias de abuso sexual em uma gaveta de arquivo morto da corporação.

Por fim, não vem de verdade ao caso o que Mayer aprendeu com essa história.

Todos erramos e todos podemos aprender com deslizes, por maiores e mais grotescos que sejam, mas o foco aqui não é ele, nem sua travessia, nem seu incômodo. Cair nessa cilada é, outra vez, jogar o jogo do patriarcado. “Que legal o que fez o Mayer ao admitir” não cabe, não deveria sequer ser assunto.

O foco aqui é Tonani e a coragem que ela teve ao revelar o que houve.

A mulher como objeto de consumo para servir ao prazer masculino, a despeito do interesse dela, não é exatamente a novidade. O patriarcado carrega isso em seu DNA, e fomos criadas para simplesmente aceitar que seja assim – e muitas vezes até para achar que uma cantada é um elogio.

O oprimido que não se percebe como oprimido mantém a sociedade como está, e as instituições gostam dessa paz. A revolução começa quando oprimido se entende como tal, e sob esse ponto de vista a campanha faz bem e é bem-vinda.

Mas temos que lembrar que nenhum direito civil jamais foi gentilmente concedido pela classe dominante, representada pelo poder econômico. Eles foram adquiridos com luta e coragem de enfrentar as instituições que perpetuam as opressões.

O direito de não ser abusada, de não ser violentada, de não ser tratada como objeto de consumo por figuras de autoridade é um direito de todas nós.

Mas ele passa por assumirmos o controle da narrativa.

E, como proprietárias da narrativa, as palavras que vão compor essa história devem ser escolhidas por todas nós, e não pelo departamento de Relações Públicas de uma corporação.

Abuso sexual é abuso sexual. E nada menos do que isso.

8 pensamentos sobre “Abuso sexual é abuso sexual e nem uma palavra a menos

  1. Como sempre, suas colocações são precisas e muito felizes. Concordo 100% que se dê atenção necessária à causa e toda assistência à Tonani. Concordo também que não se dê uma atenção maior ao José Mayer pelo simples fato dele ter pedido desculpas. As desculpas não “apagam” o crime que ele cometeu e ele deve responder judicialmente por isso. Bjs

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  2. Excelente texto. E tem que ficar batendo sempre na mesma tecla, repetindo sempre, bem explicadinho, pros meninos entenderem que essa brincadeira nao tem nenhuma graça. E as mulheres idem “nossa o Zé Mayer, aquele gato, dava pra ele fácil…” Puta que o pariu.

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  3. Ola Milly, leio sempre seus textos. Os acho bastante interessantes. Parabéns. As mulheres não podem deixar passar qualquer tipo de violência, seja verbal ou física. A punição dentro da lei precisa ser firme e pesada. Pessoas como Pastor Feliciano, Bolsonaro e agora José Mayer precisam chegar à sociedade de forma rápida para que eventuais candidatos a misógenos, se sintam temerosos a repetir tais absurdos. abraços.

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  4. A Globo demonstrou que o código de ética interno tem importância, desde que não atinja seu produto principal: as telenovelas. Apenas depois de terminada a novela, no qual o assediador era uma das estrelas, foram tomadas as devidas providências. E ainda utilizou o marketing das camisetas para sair desse episódio com a imagem limpíssima. Quem não conhece que compre!

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